13.3.06

Acabou de me ocorrer

Que se eu conseguir o emprego lá na Editora do Evolutivo, vou ficar revisando coisas a tarde inteira: das 11 às 17. E ainda não tirei minha carteira. E se não conseguir passar no famigerado exame quinta agora? Como ficará minha situação automobilística? Devo desistir da empreitada no mundo revisional? O que fazer?

12.3.06

Minha vida é de tentar olhar pelos meus olhos o que os outros olham pelos olhos deles.

8.3.06

7.3.06

A gente, assim.

A gente é quem a gente é.
A gente tem que ser quem a gente é.
A vida da gente é de tentar ser quem a gente é.
Então a gente não é quem a gente é.
A gente é quem a gente quer ser.
Mas a gente quer ser quem a gente é.

E de repente minhas personagens ganharam nomes e empregos. Bé isso?

6.3.06

Eu deveria dizer algo sobre o Oscar?

Assisti dois filmes dos que concorreram. O Jon Stewart foi engraçado. O Dustin Hoffman foi muito legal com o pessoal lá da frente. O Jack Nicholson foi o Jack Nicholson. Tudo vai bem em Hollywood. Agora é retornar ao passado e alugar "E o Vento Levou", "Casablanca" e qualquer um outro que queira ser assistido.

2.3.06

Ela tinha os olhos diferentes. Porque, sabe, hoje em dia, aqui em Fortaleza, todo mundo tem o olho igual, pretão, redondo, chato demais, sabe? Mas ela, ah, ela tinha os olhos diferentes. Os olhos e o olhar. Que o olhar, você sabe, é todo o rosto mais os olhos. Que os olhos são outra coisa, são penetras na face da gente, aposto como você não sabia, mas agora que eu te disse, você pode contar pras suas amiguinhas. E contar que eu finalmente encontrei alguém aqui com um olhar diferente, um olhar lá longe, além de si mesmo, um olhar a mais, um olhar pra dentro, dois olhos pra cima. Qualquer coisa pouco maior que o mar aqueles olhos diferentes procuram. Foi isso que eu encontrei: alguma coisa pouco maior que o mar. Pode dizer pra elas e pra mamãe. E também avisa que eu tô bem e que arranjei um emprego na Telemar.

Abraço,

1.3.06

Conversinha.

E ele chegou reclamando: não, mas que não pode, que não sei o quê e tudo o mais. E o outro perguntou, derradeiro e aforistíco:

- E o que é ser namorado?
- Ser namorado é cuidar dela, é lembrar o horário do remédio, é dar cheiro na bochecha, é pentear o cabelo, é mandar ela tomar banho, é pegar bolo, é assistir filme, é sair junto, é beijar lascivamente, é ter piadas internas que ninguém entende de tão esdrúxulas, é falar dexe xeito axim. E mais um bocado de coisas. É ter um estacionamento privativo no colo de cada um.

- Não, não. - disse ele: É um amigo a toda hora. É um beijo a toda hora para confortar. É esquecer os problemas

Ao que o amigo perguntou, do fundo da sua ignorância, sabendo que o outro havia avistado algo que ele não havia:

- ...Porque esquecer os problemas?

E o outro falou com a verdade mais verdadeira que já existiu na face da terra inteirinha:

- Para as pessoas terem mais motivos felizes do que tristes. E com isso serem mais felizes.

28.2.06

Havia viajado eu

Mas que crime viajar sem meu cadernim, meu caro! Foi só o primeiro respingo de inspiração escapar do mar e me embebedar com o cheiro do sal que eu notei que não levara meu Escudeiro em minha jornada à famigerada folia carnavalesca. Contudo, minha sogra permitira-me o uso de seu celular para que anotasse meus ditos e cujos. Mas muitos odores e pessoas se perderam na minha memória que é mais esquecida que.

Estou de volta, graças aos céus, às palavras: obrigado por me receberem de volta, minhas queridas, também tive saudades de vocês.. E à minha cidadezinhazona, com seu calor nosso de cada dia, muito mais suportável que o calor de lá. Talvez pela familiaridade.

24.2.06

A metalinguagem nossa de cada dia.

Incrível o que é acontece de verdade, mas parece que é de mentira. Ainda bem que o mundo é mais engraçado do que a ficção.

Does whatever a spider can

22.2.06

Blog me up, Scotty

Blog novo, ide!

É tarde, é tarde, é tarde!

Contos de três parágrafos.

20.2.06

As time goes by

Minha vida toda foi de procurar as minhas partes. Já quis ser outra pessoa, quando mais nova: tudo novo, calça nova, casa nova, pai novo, mãe nova, tudo novo. Mas a gente amadurece e encontra um bocado de pedras no meio do caminho. Tantas, que chega a ficar parecida com elas: polidas, inexoráveis, irredutíveis: e virei pedra.

Mas ninguém ama pedras, então não continuei pedra. Mas essa parte ficou. E voltei a ser mulher. Mas foi rápido: vi Casablanca; virei música.

you must remember this
a kiss is just a kiss
a sigh is just a sigh
the fundamental thing apply
as time goes by

E percebi o quanto tudo é sem sentido, e como a vida é péssima, acima de tudo. Fiquei muito triste, e não continuei música. Mas essa parte ficou.

Decidi voltar a ser mulher, porque agora sabia o valor das escolhas que a gente faz. Mas ainda não tinha descoberto que o destino estava aqui dentro, e que não se pode escolher quem a gente ama. E ainda havia duas partes dentro de mim, separadas, que a vida tentou me ensinar a juntar, mas eu nunca fui boa aluna. Então, teve que o Paulo esmiuçar pra mim.

la vie en close
c'est une autre chose
c'est lui
c'est moi
c'est ça
c'est la vie des choses
qui n'ont pas
un autre choix

E eu chorei e aprendi: a parte de verdade de mim é aquela parte que ama.

19.2.06

Control Room.

- Você está falando da percepção das pessoas, não está falando dos fatos.
- Fatos?! Deixe-me lhe dizer algo sobre fatos: não existem fatos, assim como não existem razões, nem justificativas!
- Mas, se você fala isso, então está dizendo que não existem fatos e que todos nós estamos condenados à uma vida de incertezas e dúvidas.
- Justamente, é isso que eu estou dizendo.
- Mas não é isso que acontece, porque, veja bem, há fatos, eu sei que está é minha mão, sei qual o seu nome, sei quem eu sou, então você está, infelizmente, errado.
- Mas entenda que esta é a sua mão porque você diz que ela é sua mão. A identidade dela como sua mão se baseia na sua fé de que ela seja a sua mão.
- Quer dizer a guerra no Iraque, Na Bosnia-Herzergovina, no Kosovo, na Somália, tudo não passou de fé: se alguém disser que não existiu, então eles nunca existiram?
- Bem, seres humanos tem memória curta. Se toda a documentação desparecer, quem serei eu para dizer que houve um conflito a muito tempo onde milhares de pessoas foram mortas por uma causa que nunca existiu?
- Mas então se há documentação, então há fatos que são documentados.
- Mas a documentação também é um ponto de vista.
- E o conflito em si, sem a documentação?
- O conflito existe, e pronto. Tudo o mais, todas as propagandas, todas as palavras escritas sobre ele, todo que for dito de qualquer guerra, de qualquer assunto é pura cosmovisão.
- Mas e a objetividade? Como colocar os preconceitos, o senso comum, as idéias mais simples que nós temos de algo de lado para alcançar a neutralidade num assunto?
- A neutralidade, acredito eu, seja um dom inalcançável, ao mesmo tempo que inócuo. Para quê ser neutro? Para que essa informação seja usada por alguém preconceituoso? E quem não é preconceituoso? Quem nasceu sem sangue? A neutralidade é uma ilusão do século XIX, ainda forte neste século. Infelizmente. Há coisas mais importantes do que a neutralidade. Mas aqueles que tentam sair deste estágio do senso comum, das percepçõs gastam muito mais energia quando poderiam estar aprendendo a cozinhar ou transando ou cheirando ou escrevendo.
- Eu não acredito nisso.
- Não era uma argumentação: não estava tentando convecê-lo: é o que eu acredito, é onde a minha fé está. Se a sua fé está nas fatos, que fique nos fatos, mas não perca a fé para perder os fatos.

16.2.06

"É preciso ter um caos dentro de si
para dar à luz uma estrela bailarina."

Friedrich Nietzsche

Ooow.

14.2.06

"toda criança que morre é um anjinho."

Na rua, uma vez
encontrei
uma silabazinha
vira-lata.
Amei, peguei, adotei:
trouxe pra dentro
de casa.

Lá em casa,
Ela latia, miava
E significava pra mim.
O meu amor
pela silabazinha
era grandão,
grande assim:
|___o___|

Mas, um dia,
porque Deus embriagou
e pro seu filhinho chorou
lá em casa encheu de água
e tudo que tinha alagou.

Hoje eu lembro
e dá saudade.
A silabazinha vira-lata
que eu demais amava
não aguentou
e morreu afogada.

"Isto será um símbolo para mim"

Só um rinoceronte poderia ser uma zebra.

Fellini. Não entendi. Não precisa: o filme é bonito demais.

Alguém sabe um jogo que a Morte ainda não tenha jogado? Talvez Naruto Adventure Heroes. Aposto como Ela deve se garantir na hora de confrontar os especial.

Todas as referências ao Ingmar Bergman neste post foram premeditadas.

12.2.06

I'm just a sweet transvestite from Transexual, Transylvania.

9.2.06

let's
do
the
time
warp
again
!

6.2.06

i am sam

- Isn't it true that very deep down inside... you know you need much more than your daddy can give you?

- All you need is love.

5.2.06

Eu já ia escrever algo triste; já estava tudo pronto, mas o que desiste a gente de não colocar uma lagriminha tão fácil nas palavras?

Eu ia escrever algo triste, juro que ia, mas como não dá, não vou colocar. Não dá porque o sentimento melancólico já foi embora. Foi como um passarinho que pousou no meu ombro e chispou-se pra lá-pra-lá.

Foi-se junto com meus diminutivos. E os adjetivos. As substantivas formas nominais.

É que todos eles sabiam: tudo mais é por demais impreciso.

2.2.06

Lembranças

A vovó Regina morreu.
O vovô Rocino - filho dela - também morreu.
A Blunsh, cadela daqui de casa - também morreu. E foi uma morte muito feia.

Nasceram a Marina, filha da Dedéia.
A Júlia, também filha da Dedéia.
Nasceu a Gabriela, filha do Daniel.

Nada disso aconteceu hoje. Faz alguns poucos anos que essas pessoas morreram. Os bebês nasceram quase juntos, nesses dois últimos anos.

É que eu estou doente, e quando fico doente eu penso mais. Não que eu esteja em estado de calamidade pública, apenas com o estômago frouxo, algumas cefaléias pequenas e cattarro, onipresente.

[]'s.

31.1.06

Amar é dar o que não se tem a quem não pediu.

29.1.06

Outra conversa séria com o caio.

- Então quer dizer que tu vais virar um eunuco agora?
- É, meu caro.
- Mas por quê?
- Porque o sexo é ruim. Pra mim, isto é. Me faz fazer coisas que depois fico me mordendo de ódio. O sexo me tira de mim mesmo.
- Sério? Vala me deus.
- Humrum. Tenho que parar de bater punheta, de puxar bronha - seja lá qual for o verbo - de baixar vídeos pornôs, de tudo relacionado a atos libidinosos. Nem mais piada indecente eu solto.
- Só pra mijar agora.
- Só pra mijar. É que sexo me faz mal, sabe. Qualquer atitude, qualquer decisão que eu tomo de pau duro dá errado. Vai ser na base da repressão mesmo. Me controlar, contar até dez.
- Deves pensar com a outra cabeça então.
- Humrum. Vou direcionar minha libido pra outro canto: vou ler, vou estudar, vou escrever, vou me preparar pro outro semestre mixuruca, vou amar mais.
- Epa!
- Que foi?
- E esse amor aí?
- Ah, meu caro, mas amar é transar são coisas diferentes. Vou me concentrar na minha amação pra parar de magoar e depois não ter palavras pra reparar quem eu amo.
- Me toooco. Porque a Orides Fontela falou que "toda palavra é crueldade."
- Justamente. E aquele professor de administração do MIT, o Jay W. Forrester disse que "em situações complicadas, esforços para melhorar as coisas entedem a piorá-las, freqüentemente a piorá-las muito, e ocasionalmente a torná-las uma calamidade."
- Putz. Podis crer então. Já é. Que Deus e o Bb estejam comigo.
- Ámem.

(E, sim, eu sei que deveria ter deixado um cheiro, ou te acordado e esperado mais tu, ou nem ter ido, ou qualquer outra coisa, e agora eu não posso me desculpar porque desculpa não ajeita nada. Eu, contudo, te ofereço atos, ações, cheiros, carinhos, amor e djows: é tudo que eu tenho. :*)

28.1.06

H(e)stória.

Essa história é daquelas que é de verdade, mas é de mentira. Pode escolher: verdade mentirosa ou mentira verdadeira.

Quando o asfalto parecia azul demais pela água que escorria, levantei a cabeça do livro, pois dizem que ler em movimento desloca as retinas. E eu acredito em dizeres curtos e simples. Levantei minhas retinas então. Levantei-as, mas a que preço, meu caro. Ergui meu olhar: meus olhos, sabe-se lá onde estavam, mas meu olhar encontrou algo que estupendo.

O banquinho devia passar, pelo menos, a metade do dia sob a luz causticante do sol. A água levava o lixo transeunte pelos riachos borbulhantes e cinzas da rua. Cinzas eram as águas: cinza era sua barba.

Era uma barba cinza e preta. E grande. Tocava o princípio do tronco. Caminhava ela para como na Grécia, quando a barba era sabedoria. Contudo, ali não. Ali não havia sabedoria coisíssima nenhuma: havia sim um sorvete de morango, uma colher prateada com cabo azul escuro e uma barba grande, preta e cinzenta.

E como aquela barba comia, meu caro, ah! Como comia! Comia, mas comia como em tempos remotos, quando comer era próximo da felicidade, não quando agora, que comer é martírio, é gordura, é algo que deve-se evitar. Deus.

Comia, engolia.

Sorvete não se mastiga, todo mundo sabe. Sorvete deixa-se engolir. Também sorvete não se bebe, embora certos indivíduos quebrem esta regra, mas ela não. Ele fazia tudo certo, certinho. Quase nem sujava a barba. Mais limpo do que o semicórrego fora de lugar. Quase um amor.

E quanta beleza em cada olhadela ao lado, de soslaio, de cabeça inteira. O pote cheio, os cabelos arrupiados, o rosto, que rosto? Escondido entre a barba, o sorvete e alguns poucos olhos, que, talvez fosse a água, seriam azuis se não fosse a tristeza do mundo, de torná-los negros como uma falta. Um branco ali não haveria, branco é conjunção, sincretismo: não: ali, havia, sobretudo, falta.

O pote, cheio. Os olhos, vazios.

Quem, então, comia a sobremesa? Quem saboreava? Eu? Meu olhar engolia o momento. Ainda me recuperava da levantada brusca de olhar – tanto tempo com a alma embotada – que onde estava pouco me importava. Procurava equilíbrio. Encontrei: meus cinco anos naquele mendigo vazio e o seu potinho de sorvete de morango da pardal.

23.1.06

Coisas

Em literatura, não há verdades definitivas
Moacyr Scliar

Não sei a citação de cor, mas foi o Foucault - "Fucô" - quem disse que a palavra é a morte da coisa. Não me lembro qual era a conexão entre os dois pensamentos, mas sei que havia uma.

Enfim, cu no pau há.

Há, lembrei. É que se a gente mata as coisas nomeando elas, quem tem coragem de ser coveiro para ficar exumando significados?

17.1.06

Máximas

Eles não são homens: são demônios.

Comadante mexicano contra os últimos três homens da Legião Francesa

O diabo não existe: por isso ele é tão forte.

Dito mineiro

15.1.06

Suor da Morte

Na família, ninguém queria o velho: jogavam pra irmã, num podia: sem dinheiro. O mais novo morava em república. Jogava pro mais velho: sem espaço. Apartamento um por andar. Que deus tenha piedade da alma de todos. O velho não reclamava, não que aceitasse ser tratado como peteca: tinha ódio no coração, mas perdera toda a força para falar já havia tantos anos. Todos se acostumaram com sua mudice. Nem perguntavam se seria sintoma.

Chegou, ficou: enfiaram no quarto da empregada, no meio das roupas sujas, de umas chinelas velhas: colocaram um colchão ali, uns lençóis, cobriram as roupas sujas com toalhas cinzas e velhas e deram o quarto para o velho. Deus do céu.

Na mesma hora, piorou. Ah, velho safado, sem vergonha! Justo agora, filho da puta! Não quero filho meu doente, que deus o livre, não! Pode entrar no carro!

Hospital, maca, pressão, luz nos olhos, dentro do nariz, coração, pulmões, exames, cheiro de remédio, luzes brancas, passos curtos, pesados. Silêncios pouquíssimos, tão poucos, nem se ouvia as árvores balançando lá fora: janelas fechadas. Nem se ouvia os bem-te-vis. Nem a luz do sol. Cortinas fechadas.

(...Ainda bem que a vida não é um teatro)

Dois dias de cama e a família indignada: cadê o dinheiro para manter o velho no hospital? Não tinha plano? Arriégua! Nem, deus me livre: tenho conta demais pra pagar!

O mais velho foi lá acertar com o doutor a conta. Médico nenhum: só a enfermeira, tirando a pressão.

- Como ele tá ?
- Tá bem...Tá bem.

Nenhum vento, nenhum pássaro.

- Ele tá suando tanto...Melhor da febre?
- Nada...Isso aqui é o suor da morte.

O filho não conseguiu falar, e, fazia tanto tempo, chorou na barriga do já, já falecido papai.

13.1.06

Chegam horas que a minha garganta fica ardendo de tanto cantarolar. Daí, bebo um copo com água. E cantarolo de novo.

Porque o meu silêncio é na entrelinha: ao redor de mim quero cantos.

12.1.06

Haloscan

Novo sistema de comentários instalado: Haloscan.
Tem que postar coisa nova para funcionar.
Agora quem não é cadastrado no blogger pode comentar também.

Essa mensagem se autodestruirá em cinco segundos...
...quatro segundos...
...três segundos...
...dois segundos...
...um segundo...
.
.
.
Ficou com medo, hein ?

9.1.06

Não, a vida não era bonita.
Clarice Lispector

Eu sou muito devagar para o mundo. Insisto em chamar de inocência; a maioria, lerdeza. Estou me convencendo.

3.1.06

Ghost Story

Se de repente eu desaparecer na metade de uma frase, não me surpreenderei demais; e no mínimo sairemos todos ganhando.
Julio Cortázar

O meu medo da morte é outro. Talvez fosse mais fácil fazendo análise, mas como não sou feito de dinheiro - sou de amor - elucubrações é o ponto limírofe que a minha mediocridade permite chegar.

Aliás, todos os fantasmas tem medo da morte: mas o nosso medo da morte é outro. É o medo do Quintana. Não é morrer, morrer não dói: o negócio é deixar de viver. E eu escrevo por causa disso, pra que possa viver pelas palavras, embora elas não sejam eu, nem nunca serão e é uma ilusão achar que viver por meio das palavras vai me servir de algo depois da morte. Quem me interessa o que acontece depois da miséria humana ?

Não morro de medo de ser esquecido: já senti isso, mas notei que, para tanto, seria preciso que um número razoável de pessoas se lembrasse de mim, mas eu sou aquele eterno "menino que é tão bonzim, né ?"

Tão bonzim é eufemismo dos piores pra fantasma existencial. Sou um ser de baixa densidade sêmica. Uma criatura sem essência significativa. Um dos pontos no sudário da humanidade. O que me resta além de ser uma mancha preta num mar de manchas pretas ? Tento me convecer de que a mediocridade e o esquecimento que nunca me foram dados são meus verdadeiros territórios, onde devo habitar, viver, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer. Mas tudo isso não passam de elucubrações do meu corpo.

30.12.05

A epígrafe é do Valéry

O que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem ?

Como vivi durante

quase
duas décadas ?

Pergunto-me por vergonha.

Não vergonha vergonhosa,
daquelas que avermelham as bochechas:
não essa, mas
vergonha de viver fantasmagoricamente,
que reluz e fulgura
como algo transparente
como um fogo sem lenha,
como uma cabeça de fósforo,
como um lume de lua nova:

quase apagando-se.

Fogo sem carvão para lhe confirmar a ausência.
Minha ausência, onde ela está ?
De onde engendrarei meu carvão ?

Uma ausência contida
em meio ao tudo e tudos e todos existentes
na minha rua,
na penúltima casa da rua,
que muitos nem sabem que ainda faz parte da vida
e do bairro.

29.12.05

Airton Monte

Escrevi um e-mail pra ele. ^.^ Nesse instantim.

Você já escreveu pra algum escritor que gostasse?

26.12.05

Stanley Kubrick

O mundo parece tão mais silencioso depois de assistir a 2001: uma odisséia no espaço...

24.12.05

Meia-carta

Oficialmente, começa no dia dez de agosto, meio da semana, quarta-feira. E não fomos nenhum dos dois que começamos: em verdade, foi um sujeito: Artur da Távola, com seu textinho sobre namorados, no qual me descobri um diletante inveterado do meu bubê.

Agora, que chegamos no final do ano - nós dois, só, viu ? Não se inclua nisso não - estamos com o quê ? Fazendo as contas, dá uns quatro meses e...catorze dias. Quatro meses e duas semanas de não-sei-o-quê que começou numa quarta-feira do mês do cachorro louco. Quem começa algo em agosto tem de ler aquela crônica do Caio Fernando Abreu sobre como sobreviver ao agosto. Eu li, o bubê leu.

Não-sei-o-quê porque existem coisas que só funcionam se não forem ditas. Se você me entende, que bom; se não, não se desespere: menos dia, alguém vai lhe enfiar uma epifania nessa sua cabecinha e você vai regredir ao estágio de dez, cinco anos, quando tudo é belo e nossa capacidade de se comover com a tragédia da vida tá lá nas alturas, limítrofe com o céu e as ciências naturais. Mas tudo é limítrofe com as ciências naturais, então não fique tão feliz.

Falando em feliz, então é natal. E hanukah também, acho. Acredito que ambos sejam comemorados na mesma data, o que me deixa muito feliz, visto que o povo judeu e a religião judaica são coisas as quais admiro desdo hoje, quando assisti como muito prazer e dor ao preto-e-branquíssimo A Lista de Schindler. Uma tragédia, das gregas, e isso é um elogio.

E onde foi parar aquele meu sentimento de como se a gente subisse a escada com trezentos e sessenta e cinco degrais de uma vez, só pra descer tudo de novo, ãh ? Aquele sentimento de subir: cadê ele ?

E prometo que um dia te salvo, tá, bb ?

23.12.05

Meu povo, tenho que satisfazer minha pulsão de vida, jesus, maria, josé.

19.12.05

Sinceramente. Parece-me uma boa maneira de começar uma história: sinceramente. Com a palavra e intenção. É que arte e histórias só se contam e valem quando são ditas na sala da verdade, quando tudo o mais é por demais impreciso.

E a verdade é um negócio muito escorregadio mesmo, que nem comida quente demais, que a gente coloca na língua já querendo tirar pra não se queimar. Na verdade, acredito ter a verdade o maior muro de Berlim já construído entre ela e nossa humanidade. Um muro infinito, que é tão grande, mas tão grande, que nem parece que está lá: o mundo acaba ali.

Mas o mundo não acaba ali: ali começa a verdade. E agora, José ? Somente a humildade mesmo para deixar a gente se aperceber disso. Mas não é a humildade que faz a gente não deixar essa incapacidade de conhecer abalar os nervos da gente.

Acredito que essa força venha do amor Não amor pela verdade, que verdade num é bicho pra ser amado - ou conhecido. A gente ama pessoas, bichos, comidas, lugares, memórias, cheiros, o bubê. A gente ama uma poesia, um quadro, uma palavra, um nariz, algum dente, uma rua, um bar, uma árvore, um livro - vários livros. E do amor a gente não duvida. Ele mexe com o corpo da gente de uma forma tão assim que não se precisa de certeza pra amar: basta amar, intransitivamente.

Diria o filósofo: "amor é uma coisa-em-si."

15.12.05

Quando acordei, me senti só. Só porque tudo estava escuro, todas as luzes apagadas, a do quarto, a da sala, a do corredor. Me senti só porque acordei descoberto, sem ninguém que me cobrisse com um lençol macio e fino. Me senti só porque homens conversavam alto no apartamento do lado, conversa ininteligível porque pegada do meio. Me senti só porque tudo estava mais longe e irreal sem óculos de grau 3.5 para miopia. Me senti só porque a pouca luz da lua estava la fora, esforçando-se pra se refletir na parede. Me senti só porque parecia já de madrugada. Me senti só por ter passado o dia dormindo. Me senti só porque deveria ter ligado pra ela, mas não acordei com o telefone tocando. Levantei-me, olhei as horas, seis e meia, as janelas abertas, meus primos brincando lá embaixo, a luz do corredor esse texto e ela.

14.12.05

Toda palavra é o que não está ali.

Imagine uma caixa vazia de papelão, certo ? Aquelas que vem a televisão dentro, ou o rádio ou o playstation, aquelas grandonas, mas pode ser pequena também. Pois bem. Temos uma caixa. Não tem nada dentro da caixa.

Use todo o seu poder de abstração agora e imagine algum motivo qualquer para dar essa caixa a alguém. Qualquer motivo, não importa qual: importa ter o motivo.

Pois é: essa caixa é a palavra, que não tem nada dentro, e que a gente dá a alguém, daí esse alguém vai devolver a caixa pra gente, com alguma coisa dentro, e a gente vai ver o que é, e vai dizer "oh, muito obrigado" e vai colocar outra coisa na caixa, ou ainda pegar outra caixa - a gente usa muitas caixas, em verdade - e colocar alguma coisa dentro e esperar que a pessoa goste e entenda o que a gente quis fazer e dizer com aquele presente dentro da caixa.

Toda palavra é uma ausência.

Sei que isso é uma citação, mas não lembro quem disse. É uma ausência porque não tem nada dentro da caixa-palavra: quem vai colocar alguma coisa dentro da nossa caixa é a outra pessoa pra quem a gente vai dar a caixa.

Mas se a gente deu uma caixa, é porque espera que a pessoa coloque uma coisa que caiba na caixa: ninguém quer ver sua caixa rasgada.

Será que deu pra entender ?

12.12.05

Conversa outra

São sempre solitárias quando são no meio da aula e seus botões cismam que querem a luz do sol ao escuro da ciência.

- Qual a importância da fonologia ?
- Descrever a língua.
- Mas pra quê descrever a língua ?
- Pra saber como ela funciona.
- Mas de que me serve saber como minha língua funciona ?
- Para aliviar a sua miséria da existência.
- Como disse o Brecht ?
- É.
- Mas isso não alivia a minha angústia de existir.
- Então a fonologia não lhe serve de nada.
- Mas será que para alguém ela é importante ?
- Talvez... Acredito que sim. A professora parece bastante interessada nas alofonias alveolares e dentais.
- Mas porque ela está tão interessada num assunto tão besta ?
- Deve ser porque pra ela não é besta: é interessante, faz sentido.
- Alivia o peso de existir dela.
- Isso.
- Céus, mas que tipo de existência estúpida pode ser aliviada pela fonologia ?
- Ela não deve ter só a fonologia.
- Mas ela tem a fonologia. Se esta não lhe soprasse um laivo de luz em sua obscura existência, ela a descartaria.
- Assim como eu descartei a fonologia.
- É.
- Então porque assisto a aula que me é irrelevante ?
- ...Porque precisas passar na cadeira, pra conseguir teu diploma e poder ensinar português.
- A fonologia está no caminho do meu prazer.
- É. Isso.
- Vão ser bem angustiantes os próximos três anos.
- É...Vão sim.

O mesmo vale pra sociolingüística.

11.12.05

Luis Dolhnikoff

a mente é o que cérebro sente
por si mesmo

(o horror é a mente entregue
a si mesma)

mas não em si mesmo:
o cérebro em si nada sente

(cérebros são operados
sem anestésicos)

10.12.05

Texto colado

Acredito eu que estava passando por uma crise de inspiração. E expiração também.

Porque ser escritor é todo o processo de respirar: inalar o aroma do mundo, e escolher as partes mais cheirosas para prender dentro das palavras.

Prender ? Sim.

O Roland Barthes não disse que a língua era fascista ? Sim, ela se destaca mais pelo que não deixa dizer do que pelas suas possibilidades de expressão. Ora, ora, afinal, encontrava-me preso dentro de minhas palavras, sem saber em qual significante acreditar, havendo perdido completa fé nos significados, em meu curso e na humanidade. E eu sou um dos otimistas, não se engane.

Quem me acalentou e acalenta durante minha(s) crise(s) são dois: meu amor - não a entidade, mas a pessoa de verdade, meu bebê, boca de luar - e o Rubem Alves, ou os livros que ele escreveu e o nível econômico da minha classe social média permitiu adquirir.

Acredito ter pegado o Sr. Alves num momento muito fecundo e adequado da minha vida. Bem na hora - quase como que por feitiçaria - ele chegou me expondo os paradoxos da educação, da ciência, do pensamento científico, do meu próprio pensamento, e de tantas outras coisas que eu não entendia. E ainda não entendo, mas isto se resolverá, eu me prometo.

Quanto ao meu amor, que mais posso falar. O amor é silêncio, se disser estraga.

Um amigo disse-me que a conclusão do Aristóteles ao fim do Ética a Nicômaco era a seguinte: que você só precisa de si mesmo para ser feliz. Ao que outro amigo retrucou, sabiamente, que ele chegara num nível de alienação muito grande para pensar isso. Acredito que nós realmente precisamos de alguém para abraçar e sermos abraçados:

vida boa é solidão a dois.

Até. []'s

8.12.05

Googlada

Deus do céu: tu já colocaste teu nome completo no google pra procurar ? Fiz esse experimento nesse instante, e achei um troço meu que eu mandei prum site inglês na 5ª série !

Nossa senhora. Jesus, Maria, José. O documento é de 1998, e eu acredito que tenha sido algo que o meu colégio tenha mandado-nos responder.

Name/Age/Gender: Caio Marinho Ribeiro, 11, Boy
E-Mail Address: [log in to unmask]
City/Place: Fortaleze,ceará
Country: Brazil
School: Colégio 7 De Setembro
Format: WWW

question1: Na verdade eu não tenho nenhum Hobbi,mas,eu tenho muitas preocuações uma delas é com o meio ambiente
porque todo mundo tem que jogar papel na rua sabendo que tem um lixeria perto de você?

question2: Eu sempre tive um sonho que é quando eu crescer eu quero ser jornalista
de um jornal importate.Eu acho que ser jornalista é uma profissão aventureira
e eu gosto de aventuras e coisas perigosas

question3: Bom eu gostaria que nínguem jogasse papel na rua e muito menos nas matas,parques ecológicos,etc.

question4: Para que eu seja no futuro um bom jornalista eu tenho que estudar,ler bastante e me esforçar para que no futuro eu seja um bom jornalista.

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Caralho, tem até a hora !

Notem os erros crassos e o desleixo com a ortografia.

5.12.05

Disse eu, certa vez, para um amigo meu, andando até a parada:

Não, porque, pra mim, o educador é aquele que faz o aluno gostar da matéria. O professor é aquele que faz o aluno detestar a matéria.

George Polya, um matemático húngaro, disse:

É tolo tentar responder uma questão que você não entende. É triste ter de trabalhar para um fim que você não deseja. Coisas tristes e tolas como estas freqüentemente acontecem, dentro e fora da escola, mas o professor deve evitar que ocorram em classe. O estudante deve entender o problema. Mas não basta que ele o entenda. É necessário que ele deseje sua solução.

Levante a mão quem está interessado em saber da variação do fonema /r/ em Itaituba ?

Tá vendo ? Não dá nem pra entender, quanto mais querer solucionar um djábo desses.

[]'s

2.12.05

Conversa

- Pois é, né, macho. Já começaste errado.
- Como assim ?
- "Caio": um verbo e tal, já começa caindo...
- É redondo...
- Pois é. A imagem que aparece na minha cabeça é de alguém caindo num poço sem fundo, desesperado, esperando alguém jogar uma corda, mas ninguém ouve o socorro do caio.
- Porque eu sou a queda, não é que eu esteja caindo.
- Justamente.
- Então não tem salvação.
- Realmente: fudeu.
- Mas e agora que tu percebeste isso, como é que fica ?
- Putz, sei lá, vou ter que continuar amando e acreditando nas melhores pessoas.
- Hoje foi foda, né ?
- Foi, deus do céu. Eu me esqueci até de como sentir dor.
- A queda aumentou de velocidade e as paredes do poço foram mais para longe.
- Isso. Mas o que eu tenho medo é de ter chegado num nível de alienação sentimental tão grande que...
- Que o quê ?
- Que eu não consiga mais chorar pra mim. Sentir dor pra mim. Escrever pra mim. Amar pra mim. Creio que tenha perdido completamente meu sentido narcísico.
- E a auto-estima, ó.
- Com certeza. Se me pedires para parar de chorar, eu paro na mesma hora, mas fica quase um coágulo no meu coração. Engraçado que eu não consigo voltar a chorar.
- É o teu armário das dores e angústias.
- A maior de todas foi hoje.
- Me toco, me toco.
- Vive trancado: só se abre pra colocar coisas novas dentro, depois que entrou, tenha zé pra abrir e tirar algo lá de dentro. É muito escuro, além do mais.
- Deus do céu, mas isso é horrível. Pra mim e pra quem tá perto de mim.
- Vala, por que ? Num é só tu que se fode não ?
- Não: um bebê completamente desprotegido, sem soldados nem forças para lutar, fica mais do que vulnerável a qualquer ataque, por mais frágil e insignificante que seja.
- Putz, é mesmo. Então fodeu.
- Fodeu. Que que eu faço ?
- Escreve e ama, criatura.
- Fácil falar. Eu preciso é de atenção agora. Mas devo ter muito pouca coragem pra pedir alguém ajuda. Não sei o que fazer.
- Mato sem cachorro. Não vale se suicidar.
- Não, suicídio não: seria egoísmo demais para com os meus queridos.
- ...
- Que foi ?
- E além do mais TU também poderia MORRER, né ?
- É, mas isso deve ser de menos: deixem que os mortos enterrem os mortos.
- O problema sabe qual é: tu tá se vendo como empecilho, como bagulho, como obstáculo, como troço, como coisa, como bicho. Num é assim. Tu és uma pessoa, nascida da natureza, criada em sociedade, versada nos princípios básicos do entreagir humano.
- Eu preciso de um abraço.
- Preciso é de umas peas, isso sim. Precisa de amor não: amor já tem. Precisa de colhões, de bolas, precisa se levantar e sair dessa caverna escura, abrir esse armário mais alguém.
- ...
- Você tem que se preocupar é com você: já dizia o Tio Hermes. "Você tem que se preocupar com você, preocupe-se com você que é o melhor que você faz."
- Mas e os outros ?
- Os outros se cuidam deles mesmos. Tu não é tão necessário para a existência das outras pessoas, criatura.
- É mesmo...
- Dã, lógico. O melhor que tu pode fazer é sem gentil e caridoso com os teus amigos. E a vossa amada. Ela, acima de tudo.
- Sim, com certeza.
- Acima de ti até.
- Acima de mim ? Mas eu não tenho que me preocupar comigo mesmo ?
- Sim, mas ela é tua maior influência sentimental: cuidar dela é o mais próximo que tu vais chegar de cuidar de ti mesmo, cuidando de outro.
- Boa...
- Humrum.
- Ufa...Me sinto melhor. Mas a gente nem discutiu a minha universidade.
- Cara, tu vais terminar este teu curso, pra - que nem disse a Dona Lourdes - arranjar o primeiro emprego, e depois tu fazes o que tu quiseres, especializa-te em qualquer coisa aí.
- Nem tenho mais certeza se quero fazer faculdade de filosofia.
- Vala minha nossa senhora, criatura, se decide ! Vai fazer mestrado em quê ?
- Putz, acredito que em lingüística textual.
- Mas só pra ter aula da Irandé ? Tu sabes qual é o objetivo do mestrado ?
- Acho que não...
- Afirma, porra ! "Sei não, caralho ! E daí ?"
- SEI NÃO, PORRA, BUCETA ! QUAL É ESSE CARALHO DE MERDA DE OBEJTIVO, HEIN ?
- Ah, assim sim, porra. O objetivo do fucking caralho do mestrado é sei lá.
- Arriégua.
- Pois é, mas eu sei que tu não pode se basear só em ter aulas com a Irandé Antunes.
- Pois é, me toco, me toco. Talvez em sociologia.
- Sociologia é lega, sociologia é legal.
- Muito provavelmente algo ligado à educação, cara. Disso eu tenho certeza.
- Que bom, que bom.

Beijos a todos e a mim e ao meu bebê. É que faz tempos que não mando beijos, e eu preciso como parte do meu tratamento auto-estabelecido.

Até o próximo post.

1.12.05

Déficits

1.Antes de tudo, tenho que me entender. Conhece-te a ti mesmo. Onde houvera o Id, haverá o Ego. Sujeito pós-moderno: pedaços. Pre-potência: potência antes de tudo. Capacidade minha, que não desejo nada.

2.Imagine um oceano todo azul, sem sujeiras. E alguém que não nada, mas entende um pouco de boiar, um pouco de remar, um pouco de olhar para cima e um pouco de lingüística - ou metafísica, como queiram.

3.Eu acho que perdi meus anseios. Cadê a minha busca ? O que eu devo procurar: preciso de mestres: os livros não me servem mais. Aliás, nem nunca me serviram: eu preciso de um mestre e de um abraço e de uma casa.

4.Onde está o meu Outro ? Deus do céu, em quem eu vou me fucking perder ? Eu preciso de um chocolate. E de alguém que arrume meus pensamentos. E de um ouvido agudo para os silêncios do meu infinito, que é bem pouquinho e fácil de ser entendido. O negócio é saber que ele está lá, para todo sempre, dentro de mim, quase pra fora: problema meu e dos meus dispositivos de defesa psíquicas.

5.Acho que vou surtar. Não gostaria de surtar, amigos. Não me deixem surtar.

E 6.Não me deixa surtar.

30.11.05

Nós

Nós somos somente isto, acima de tudo e nada mais: os mecânicos da língua. Não adianta espernear.

28.11.05

O Drummond entendeu

Quero

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Carlos Drummond de Andrade

Sei que já disse que era do Drummond, mas esse nome do poeta é coisa linda de deus.

27.11.05

Meu porquê da monogamia

Diz que que ela voltava com o ex, mas não terminava comigo, certo ? Daí, só ficava mais ele, mas ambos éramos namorados seus, em teoria. Só sei que, numa certa hora, chegava eu no quarto e perguntava:

- Oi, bebê.
- Oi...A gente já tá saindo pra beber vinho e whisky.
- Que que vocês tavam fazendo ?
- Não, a gente tava debaixo das cobertas.
- Ah, tá bom.

E hoje ainda amanheceu chovendo: casamento da raposa.

25.11.05

Deculpem pela preguiça

Leiam o poema abaixo, mas saibam que não tive saco de remoê-lo e melhorá-lo. Não estou com saco para trabalhar tristezas minhas que não nascem em mim, mas se originam em eu.

[]'s

Quando bebê, quando eu

Tem algumas luzes de natal pela cidade, mas isso não importa.
Tem alguns carros parando, parados no meio da rua,

mas isso não importa.

E existem aqueles que não acreditam em deus, mas isso
não importa.
Aqueles que supõem a vida como uma brincadeira de mau gosto, mas
isso também não
importa.

O que importa ?
Aquela lágrima, o silêncio e o motivo.

Canto as minhas angústias, minhas tristezas, meus cálculos, minhas teorias.
Canto aquilo que possuo, canto meu destino
...canto meu amor.
Não canto somente porque o amanhã vai chegar:
canto porque acredito no destino que vem de dentro,
porque acredito em Rainer Rilke,
porque acredito em Rubem Alves,
porque acredito na solidão,
na interação, nas ideologias, na intuição,
na subjetividade.

Acima de tudo, conheço minha prioridade: canto porque acredito.
E por causa daquelas melenas que derramaram um poço de angústia
dentro do meu. Da minha.

24.11.05

Uma citação

Quanto mais estivermos pacientes, silenciosos e entregues à nossa mágoa, tanto mais profunda e imperturbável entra a novidade em nós, tanto melhor a conquistamos, tanto mais ela se tornará nosso destino e quando, num dia ulterior, vier a "acontecer" - isto é, quando sair de nós para se chegar a outros -, senti-la-emos familiar e próxima.

Rainer Maria Rilke

Uma coisa só que aprendi

De noite, as palavras acordam.

Infelizmente existe final de semana.
Todo dia deveria ser amor.
Amor é um só.
Estar só é uma dádiva para poucos.
São os poucos que nos dão muito.
O muito está na natureza.
Eu estou tentando me voltar para a natureza, viu, Rilke ?

A angústia, descobri-a dentro do meu coração, mais sólida que nunca.
Interpretação é tudo.
Por isso que estou me voltando para as coisas que importam, pois elas que importam, dentro do meu coração.

As palavras não chegam no meu coração.
E é daí que vem a poesia.
Não sou capaz de escrever poesia.
Posso interpretar poesia.
Minha poesia é sem palavras. Está nos silêncios.
Nos interstícios.
Na música.
Na noite.

Tenho que adormecer e sonhar meu coração.
Porque é de noite que todas as palavras acordam.

23.11.05

e eu odeio me sentir inútil, no termo mais utilitarista possível.

Sobre as desculpas, notei que é um baita egoísmo pedir a alguém para tirar a culpa do seu ombro. Mas não gosto de estar certo quando o assunto sou eu.

(não sei porque os parênteses: me parecem necessários)
(when you get what you want but not what you need)
(infelizmente, eu preciso de um abraço do meu bebê 24 horas por dia)
(eu sou um bebê)
(será que quando alguém chora e encolhe as pernas pra perto do peito, é porque quer voltar pra dentro do útero da mãe ?)
(hoje eu conheci a Irandé Antunes. Gente fina.)
(as falas dentro desses parênteses são minhas frustrações.)
(quanto mais eu leio sobre psicanálise, mais triste eu me fico)
(mas mais eu conheço sobre mim e sobre os outros...ou o Outro)
(Kramer x Kramer)
(acho que vou parar de colocar tantas frases intercaladas com aqueles dois tracinhos)
(não sei mais se quero ser entendido)
(eu não quero mais fazer faculdade de letras)
(eu ainda preciso de um abraço)
(eu queria estar dormindo)
(não quero mais ter sonhos ruins)
(blé)
(a fricativa chê do meu ânus é uma variante do vai-tomar-no-tchia de Cametá)
(já falei que não quero mais fazer letras)
(e do abraço ?)
(Eu vi um filme do Woody Allen: Trapaceiros ou Small Time Crooks)
(eu decidi que quero fazer mestrado em lingüística textual na UECE e faculdade de filosofia ao mesmo tempo, depois de terminar o cu-rso)

São várias suspiros: toda palavra é crueldade: nenhuma me deixa dizer como é estar triste assim Eleanorrigbyamente. Nem gesticular pra dizer como foi a emoção inominável de conhecer a poderosíssima Irandé Antunes.

Mais importante de tudo, porque me considero uma pessoa que sabe sua prioridade:

(tomara que meu bb tenha ouvido eu dar ciao pra ela)

20.11.05

http://www.leomartins.com

Calendário semanal

Amanhã haverá prova de fonologia do português.
Dois dias depois, prova de morfossintaxe
e dois dias depois, de sociolingüística.

Tinha algo muito bom para colocar aqui.

Tenho que voltar a escrever com mais freqüência: porque sim. Sinto falta das sílabas. Estou com abuso do meu curso de letras, com abuso das letras, dos professores, enfim. Mas as palavras, estas quero-as bem, muito bem. É quase amor (amor mesmo só pro meu bebê), e eu sinto como esse amor não me fosse mais tão necessário.

E isso é um crime. Creio junto com o Rainer Rilke: "basta achar que se pode passar sem escrever uma única vez para não ter mais o direito de fazê-lo."

As palavras me raptam, e o cativeiro é eterno, como de todo bom poeta. Não quero escapar da poesia ou do amor, e meu curso de letras está vestindo minhas palavras com teorias cinzas, idiotas e malcheirosas. Onde estão os lindos e macios seios das dissílabas ? Céus, o que aconteceu com o pescoço cheiroso das proparoxítonas ? Acredito na lingüística e minha crença na ciência está mais dilacerada que um McGould na casa dum Bullock, mas as palavras é antes de tudo poesia, meu caro. E se a ciência não se dá com a poesia por isso ou por assado, o problema não é da poesia mas de jeito maneira.

[]'s curtos, por voltarei num segundo.

16.11.05

Este lado para cima.

A marca da fase anal-retentiva, a segunda, é ao contrário uma espécie de cautela excessiva, timidez, respeitoso temor por ordens e hierarquia, meticulosamente exagerada.

Dito assim, parecerá talvez que se trate de doenças. Não. São feitios de caráter normais, ou quase, onde os desvalores apontados comportam igualmente certas boas qualidades.

Fábio Herrmann, O que é psicanálise, Abril Cultural/Brasiliense, 1983

Tenho e tive problemas na fase anal-retentiva, está comprovado. Seguro bosta como ninguém: literalmente e socialmente falando. Não sou doente: me chamaria de inseguro. Chamei-me de covarde e continuo com minha convicção de que sou covarde. Meu ego é frágil. Tenham cuidado comigo, por favor.

E eu tenho consciência de que todo pedido é egoísta. Mas tenho de fazê-lo, desculpe-me.

[]'s

15.11.05

Mas chega de falar de mim

Falando sobre o narcisismo.

Existe o primário e o secundário, mas isso não é o mais importante.

Seguinte:

partindo do princípio de que somos receptáculos de energia,
e de que esta energia nos a colocamos nas coisas que nós gostamos,
e de que esta energia é finita,
e de que ela se origina de dentro da nossa cabeça,
e de que a nossa cabeça é subdivida em regiões,
e de que estas regiões são duas: o eu e o isso,
e de que é o isso que bombeia libido - a tal energia - pro eu,
e de que essa energia libidinal é bombeada por um motivo: para ser colocada em coisas das quais o eu goste,
e de que o eu não nasce completamente desenvolvido - nasce como um bebê, completamente indefeso e que precisa de cuidados e atenção,
e de que o eu, depois que fica com uma boa quantidade de energia, coloca essa energia nas coisas de que ele gosta,
e de que essa energia colocada nas coisas gostadas tem de voltar pro eu, porque ele cresceu e precisa dessa energia para colocar em outras coisas gostadas,
e de que o isso agora irá mandar libido para o eu por outro motivo: para que essa libido fique no eu, se acumulando,

partindo desses princípios, entendo o narcisismo como sendo esse acúmulo de energia no eu.

Metáfora:

Imagine que, todo dia, a tua mãe te desse dinheiro pra tu voltar de ônibus do colégio. Pois bem, depois que você fica grandinho e sabe, mais ou menos, o que quer da vida, ela decide fazer uma poupança pra você. E pára com o dinheiro do ônibus. Pois bem, todo o vosso dinheiro agora está se acumulando na conta da poupança - que é sua, mas quem fez foi sua mãe.

Isso tudo psicanaliticamente falando.

[]'s

13.11.05

Sobre o futuro

Falo do meu, não de outrem. Mas que não lhe seja, leitor, privado de me tomar como padrão para sua vida, o que não recomendo. Sugestões para outros, imperativos para mim: objetivo encontrar direções para minha vida intelectual e acadêmica. Não se engane: estou inventando a medida que escrevo, não refleti sobre a questão anteriormente, a não ser por este ponto:

Vou terminar meu curso de merda de letras.

Sim: quero ser professor de português. Se me é necessário ter o fucking diploma para entrar na sala, que seja: terei o diploma, não terei o curso. Pois as letras, as minhas pelo menos, não ensinam porra nenhuma. Ou o conhecimento não me é relevante, nem válido.

Isso está decidido na minha cabeça, depois de muita elucubração. Vou terminar o curso de letras. O depois é o busílis. Que fazer ?

A primeira vista, decidi nem sair da UECE e entrar nas aulas de filosofia, mas o chamado do mestrado, tão valorizado no mercado educacional, me é forte também.

Depois de pensar sobre, vi que um mestrado nas letras me seria impossível de fazer: matar-me-ia antes de terminá-lo. Um pé nas bolas, deus me livre. Talvez um em lingüística aplicada, para ter o dulcíssimo prazer de uma aula com a Irandé Antunes. Talvez, sim. Mas é-me muito mais atraente uma pós em filosofia. Não sei a quantas pernas - bambas, presumo - anda o mestrado filosófico em Fortaleza, mas definitivamente filosofia; não letras. Ou até em educação, mas está parece-me mais prazerosa estudar sozinho, com os amigos.

E me vem à cabeça a psicanálise. Céus, alguém coloque rédeas no meu cérebro !

Um pensamento, último, não meu, sobre o conhecimento, que me norteia em minha querela particular.

Sapientia: nenhum poder,
Um pouco de saber,
o máximo de sabor...

Roland Barthes

9.11.05

Longo.

(estou no curso errado)

Toda essa minha inquietação é porque não aguento mais meu curso, ou minha faculdade.

Mas gosto das pessoas. Elas são legais.

O prédio, contudo, me lembra um presídio, os professores se perdem em questões irrelevantes. Ou não questionam coisa alguma.

Não entendo, sinceramente as palavras que aparentemente se deslocam para fora da boca do meu professor de morfossintaxe. E hoje ele pediu-nos para redigir sobre o mistério. Não fiz um texto de acordo com as normas acadêmicas, e eu ficaria preocupado, caso tal texto contasse como nota. Não contará, graças.

A cada dia que passa, entendo mais a relevância da forma do texto. Seria este o sentimento que o Olavo Bilac tinha quando decidiu escrever como escrevia ? Eu redijo estas palavras neste blog, mas morro de medo de ser interpretado negativamente. Sim, porque positivamente, todo comentário é válido.

Minha maior frustração - exagero; mas sem dúvida ocupa uma posição no Top 5 - é não saber me expressar claramente. Além de não conseguir entender textos filosóficos, justamente por esta minha burreza de cabeça de bagre. Desisti de ler "O Sofrimento Humano", do Sören Kierkegaard, por não entender o que ele falava quando dizia que o ser humano é a relação voltando-se para si mesma, em sua análise enquanto um sistema dialético ciente de sua existência, mas não só desta; ciente de que só existe enquanto relação de relação.

Ou algo assim, mas definitivamente não estava escrito desse jeito. Eu que passei para vocês como eu percebi o texto. E isso tudo nas primeiras três páginas.

Desisti também, hoje, do "Além do Bem e do Mal", do Niezsche. Novamente, por não entender o que seria uma "coisa em si" - apesar de ouvir várias vezes essa expressão na faculdade - e como ela seria uma contradição da nossa sociedade neoplatônica, que não é neo coisa nenhuma, é só platônica: aliás, nem platônica é, pois o Platão era um filho de uma gaita.

Contudo, o Nietzsche não é tão ignorante quanto eu achava que fosse; é, contudo, bem mais complicado do que eu pensava. "O Anticristo", outro livro que tenho dele, e que li inteiro, mas não entendi, é bem mais simples: consegui terminá-lo, ao menos. Entendê-lo são outros quinhentos.

A culpa, admito, é minha, por ter escolhido um curso tão chato. Um amigo meu do curso de Ciências Sociais - Paulo Massey, fantástico intelectual - disse-me, certa vez, que meu curso estava me limitando.

Com certeza. Mais do que certo.

Durante meu ócio criativo de hoje à tarde, percebi que entenderia Nietzche se estivesse fazendo uma cadeira de História da Filosofia, ou então se pudesse compará-lo com algum sociólogo em alguma cadeira das Ciências Sociais. Que me fossem dados os conceitos básicos, pelo menos.

Percebi, para meu sincero e profundo desespero, que o curso de letras é irrelevante.

Não me serve, não gosto dele, ele não gosta de mim, nos odiamos, somos incompatíveis.

Odeio os professores,
odeio a imagem do curso,
odeio a imagem que tenho por ser das letras,
odeio ter de me adequar as ubíquas "normas acadêmicas",
odeio ter de "escrever como se o leitor não soubesse de nada."

Sinto saudades da Jesus. Como sobreviver a um semestre em que não se espera por nenhuma cadeira ? Sabe aquela aflição, aquela ansiedade de "amanhã é aula do fulano ! Graças a deus, finalmente", sabe ? Pois é: neste semestre, ela fugiu da minha pessoa, escondeu-se nos cafundós do meu inconsciente e ficou por lá, plantando bananeiras e eucaliptos.

Achei milhares de livros do Paulo Freire aqui em casa, mas tenho de ler os textos de literatura comparada, de fonologia, de morfossintaxe - que nunca peguei, desde o começo do semestre - de sociolinguística - que há uma trabalho de campo para se fazer, e eu ainda não achei quem pudesse ser minha entrevistada.

Achei um livro que o Rubem Alves cita no "Conversas com quem gosta de ensinar". Do C. Wright Mills, é o "A Imaginação Sociológica". Depois de também desistir de ler a "Pedagogia do Oprimido", por pura fraqueza de espírito mesmo, fui dar uma olhada no índice: para aumento de minha tristeza, pareceu-me um curso de introdução às ciências sociais. Fechei o livro.

O Rainer Maria Rilke diz para gente olhar para dentro de si e fazer uma obervação: não uma análise, mas sentir o que nos faz bem, sobre o que podemos falar, o que nos faz felizes. Uma aula de poesia, uma aula de vida. Claro que ele não se expressa com essas palavras. Infelizmente, também não tenho coragem de terminar o livro - que é minúsculo.

Ah, e minha última frustração: jurei que não compraria mais livros além dos acadêmicos pedidos pelos professores. Traí-me: comprei o "Além do bem e do mal", que desisti de ler no mesmo dia.

Teria um colapso nervoso se não houvesse uma bebê na minha vida.

[]'s a quem leu o post e ouviu minhas inquietações pouco lógicas e desorganizadas.

4.11.05

Fotografia

Luz escrita e guardada na moldura.

Dois:
Ela, de melenas contra o meu rosto,
olhos curvos, sorriso largo, alegre verdadeiro.
Eu, de óculos arregalados: meus olhos não enxergam.
Fazendo careta, costume infatil e necessário,
porque não quero crescer.
Deus me livre.

Minha dona: tão bom pertecencer àlguém.

O amor é degustado como um pratão de um quilo,
daqueles que o meu pai pesa quando vai comer fora.
Muito amor, muitos meus:
pela união da primeira pessoa,
contra a dicotomia do nós, do plural,
muitos meus se amostram, se falam,
registram, até na foto-grafia,
o amor que é único porque é de dois em dois.
Ele anda de mãos dadas consigo mesmo,
e nós todos somos marias
que seguimo-lo, cegamente - de outro jeito não presta.

Amor é dois, é único, é universal.
Amor não é só um, só dois.

(é só uma)

Amor não tem forma só-um:
tem forma só-várias.
Amor é que eu quiser que seja;
é como nós vemos.

Desculpa, Bandeira,
mas alma ama, sim.
Essas janelinhas, elas é o amar quem abre,
e aí pronto.

O amor está nos olhos de quem vê.
E a foto-grafia, embora presa pela moldura,
foi escrita com libertas, harmoniosas rimadas de luz,
e só de ver o rosto do meu bebê,
já dá vontade de sorrir e mostrar os dentões.

Porque amar é olhar.

Sobre aquela propaganda

Sabe aquela que tá passando agora; da mulher falando do amor. Ela até fala hedonismo e ouras coisas massa. Quero o que ela fala: é lindo e verdadeiro.

3.11.05

Vou postar intermitentemente aqui

Sacrificar a quantidade pela qualidade. Não é uma troca tão horrenda assim.

[]'s

1.11.05

Sem paciência

Esse semestre eu tô muito sem paciência.

Não tô com saco de comprar livro. Nem de começar a ler outros diferentes do que estou lendo. Estou sem base teórica ou bibliográfica. Não tenho um mentor. Só tenho indicações de amigos. Tenho que terminar de ler os que eu comecei e cheguei no meio. Tenho que ler os textos de literatura comparada - que, infelizmente, não acrescentam nada na minha vida - e de literatura brasileira: conto: esses são mais fáceis porque são literários, não teóricos. Mas ainda assim, eu não aguento mais ler Machado.

E eu parei de comprar livros. Não compro mais livros esse semestre. Só os que os fessores mandarem. Pelo menos, eu acho que comprei todos da bibliografia da Jesus, o que já é bastante coisa.

Nada a acrescentar na vida do pobre leitor: só mero desabafo contido. Que este post seja ignorado. Amém.

31.10.05

Para me lembrar de ler

A serem lidos:
Redação e textualidade, da Costa Val. Esse a comprar.
Curso de lingüística geral, do Saussure. Comprado.

Terminar de ler o Cartas a um jovem poeta, do Maria Rilke.
Terminar de ler o Lutar com palavras, da Irandé.
Terminar de ler o Introdução aos estudos lingüísticos, do Chico Borba.

Reler muito, principalmente. Reler é o mais importante.
E discutir. E ensinar.
E amar.

[]'s

29.10.05

Mundo retangular

Do meu computador
eu vejo o mundo:
não olhando pra frente, mas
para o lado.

Porque do lado tem a porta pra fora:
pras árvores que, há dezenove anos, balançam com o vento
e, graças aos céus
e ao dono do sítio,
ninguém nunca as podou.
Junto com o vento e com a chuva de de vez em quando,
e melhor quando é chuva e vento juntos:
dá pra ver como que uma aura sobre os telhados aqui próximos,
como se as sujeiras e os espíritos maus escorrecem
pelos tetos, fugindo da purgação chuvácea.
Fogem próximos às telhas, quase se agarrando,
não querendo ir:

eles se alimentam de nós.

As montanhas, que eu não tenho certeza de onde são,
azuis, lá bem longe, lonjão,
quando tem a chuva nem dá pra ver.

As cores: vermelhos, verdes,
- muito verde -
branco das nuves, azul do céu,
e carneirinhos, quando deus decide brincar comigo
e eu presto atenção.

E eu nem noto as grades na frente:
só vejo a paisagem:
ela é quase mental. Já internalizei,
tá aqui dentro:
sou telúrico, enfim.

Brigado, senhor, pela minha porta aqui
do lado do meu computador.

O preço da arte

Olhar para dentro: descobrir-se. Angústia. Porque infância, mas não só ela, é desastre. Calamidades psicológicas. Crateras existenciais. Seria melhor esquecer. Mas esse é o preço da arte: olhar para dentro, perder-se, encontrar-se e encontrar aos outros e dizer-lhes: comem de meu pão e bebem de meu vinho, no sentido mais carnal quanto necessário: comem de minha carne e bebem de minha alma. O artista, nu, se entrega ao outro, pronto ao fuzilamento. Ou abraço fraternal. Encontra-se na obra: todo poeta é lírico. Cosmovisão é tudo. Não sou aquilo fora de mim, eu sou eu, assim como a arte é arte, mas a arte - e eu - se nutre do real, do mundo, das pessoas.

Como diz essa lindíssima capa da Gal:

todas as coisas
e eu

[]'s

28.10.05

O poder das palavras

Nunca tinha acreditado ou entendido direito aquela história do "as palavras ferem muito mais do que não sei o quê". Odeio palavras.

Se pudesse, nunca mais falava.

[]'s.





ps: desculpa.

O começo do meu dia.

pesadelo.

Depois da maior parte do sonho, que eu não me lembro como foi, a gente - eu, um cara lá e outro cara fortão - sentou nos pés de uma casa lá, quase uma catedral, com a fachada grande. Daí, não sei porque motivo, eles foram pra num sei aonde que era longe da onde a gente tava, e eu segui eles. Só que depois a rua onde a gente tava ficou cheia de pessoas - muitas mesmo - e eu fui me embora, sem eles.

Isso já tinha acabado a aventura principal do sonho, que acho tinha algo a ver com fantasmas.

Sim, aí. Aí, eu me toquei que tava sem chinelas. "Porra, esqueci minhas chinelas lá." Daí voltei aquela construção da fachada grande, mas quando ia entrando, a rua não tinha ninguém andando por ela, ninguém gastando asfalto, só um cara lá na puta que pariu e outro que tava vindo na minha direção, mas não olhava pra mim. Entrei duma vez. Peguei as duas chinelas.

Adentrei mais um pouco na igreja - chamemos de igreja: imaginem um galpão bem grandão, com o teto alto, as paredes pintadas de amarelo e nada dentro - e quando eu virei a cara, o cara num tava com uma arma cinza na mão ? Eu me caguei todim. "Puta merda: e agora ?"

Fui falar com o vigia, mas ele, quase que me expulsando, disse que eu tinha que ir mais é embora que ele não ia me ajudar não. "Não, não, num quero gente desse tipo aqui não. Vá simbora."

"Desse tipo" era o cara com a arma lá.

Eu num fui embora, lógico, e o cara viu nós dois e correu mostrando a arma. Eu saí correndo, e não sei porque: sempre nos meus sonhos eu corro estranhamente devagar ou quase escorregando. Daí eu e guarda fugimos prum canto lá que tinha uma escada estreitíssima e subiu o guarda e o ladrão - chamemos de ladrão - passou por mim, mesmo com as insistências do guarda. "Olha ele ali embaixo ! Olha ele ali embaixo !"

Eu saí correndo pro outro lado, só que daí o ladrão apareceu atrás de mim justo quando eu saía da igreja. Deu um tiro, eu segurei a arma, fiz com que ele desse mais dois tiros pra cima, mas aparentemente, as balas não acabavam. Eu corri para dentro da igreja, ele atrás de mim.

Não me lembro como aconteceu, só que depois de mais alguma perseguição, um outro ladrão colocou uma arma na minha cabeça. Daquelas 9mm, preta.

Daí, do nada, surgiu uma pequena esteira de fabricação de balas atrás do segundo ladrão. Eles pegaram as balas, e o vigia implorou pela minha vida. Naquela hora, ele conseguiu: os ladrões saíram falando em inglês: "Okay." Mas não foi só isso, eles disseram mais coisa, não me lembro porém.

Eu sabia, contudo, que quando saísse da igreja, eles iriam me tacar as balas. Não saí.

Nesse momento, acordei.

Culinária amorosa.

Amor é sal e açúcar ao mesmo tempo.

Explico: amor é a única coisa que, em demasia, não estraga. Partindo do princípio de o amor torna a vida mais doce, o amor é açúcar. Mas açúcar demais enjoa, então o amor não é só açúcar; é também outra coisa: sal.

Para que a vida não fique insossa. Temperada e açucarada.

Deu para entender?

27.10.05

Sim, eu sei.

Minhã é meu niver, estou ligado. Não precisam me lembrar. Não gosto de parabéns.

Mas não te preocupe: não vou matar que me desejar felicidades.

[]'s

26.10.05

sem maiúsculas.

diz que o conto entrou no bar, certo ? e no bar estavam bebendo o romance, a poesia. o barman era o escritor. o leitor mexia no jukebox, enquanto o chomksy discutia amigavelmente com o sausurre; o labov já tinha se cansando e fora para casa.

meus pensamentos não consigo convergi-los. esses aí tão sendo os meus dias: lingüísticos; não que seja ruim, mas está-se criando uma rotina. e tá começando a cansar.

24.10.05

Dia improdutivo.

Mas tirei questionamentos mais o A.D., lá na palestra mó mentira no Banco do Nordeste.

1.O que é capacidade textual?
2.Qual a diferença entre contextualização e situacionalidade?

Na verdade, essa ele explicou, mas o cara lá tava falando e eu num ouvi nem entendi direito.

3.O autor pode ser leitor?

Questione e POSTE!

23.10.05

É ou não é?

Toda demanda é uma demanda de amor.

Jacques Lacan

E a quem interessar possa: está em inglês.

Quando lemos ou escrevemos.

Leitura e escrita são atividades solitárias apenas aparentemente: há sempre um alguém do outro lado, disse a Irandé Antunes. Escreve-se para alguém e lê-se para alguém.

E o homem é um animal muito interesseiro mesmo. No bom sentido. O melhor possível.

Abraxas, babies.

22.10.05

Rubem Braga e James Joyce: dois homizão.

Não que o título tenha a ver com o post.

Oh, well.

Subi a porta e fechei a escada.
Tirei minhas orações e recitei meus sapatos.
Desliguei a cama e deitei-me na luz.

Tudo porque
Ele me deu um beijo de boa noite...

Autor anônimo

Este texto é coerente porque a gente entende, depois de ler a última frase. Nós podemos recuperar uma unidade de sentido, justamente porque sabemos o efeito arrebatador do beijo enamorado. Lingüística textual rocks.

[]'s.

Perdi duas idéias.

Eram tão legais. Acho que foi hoje de manhã. Bem feito: não anda com cadernim, nisso que dá.

Comentem, porra! Pelo bigode de Joyce!

20.10.05

Do fim do tempo.

No dia 10 de agosto, quando ainda chovia no fundo do quintal, abri meu guarda-chuva esperando que o sol aparecesse. Mas isso não acontecera, então tive de voltar a dormir. A grama lá fora estava tão macia que decidi dormir ali mesmo. Puxei uma cadeira, sentei-me: adormeci estirado na madeira dura. Nunca tive muita carne nas nádegas, e isto me incomodou um bocado: demorei a pegar no sono. Após acordar, com o sol, fui-me para dentro de casa. Lembrei-me de que quando o sol nasce, a lua se fecha: tem de se abri-la: esse é o meu trabalho. Guardo a lua dentro de minha casa e todo dia espero que a chuva cesse para que possa tirar o astro de sua caixinha pequenina. É um erro pensar que ela se abre, muito comum: quem se abre é a caixa. E, a quem interessar, também há outra caixinha, onde guardo a luz da lua, que deve ser aberta junto quando se abre a da lua. Abrindo a lua, abre-se a luz: inevitável. Impossível fazer de outro jeito, abri as caixas, e senti minha pele queimar: deveria escolher um sucessor. Nessa hora, senti o céu se fechar, o sol desaparecer e o paraíso inteiro se voltou para mim, esperando uma decisão, ansioso. Não pestanejei: designei meu filho, que também dormia lá fora, na grama já seca pelo pouco sol.

- Filho, acordai! És o novo abridor da lua!
- Agora não, pai.
- Sim, agora! Vamos, o mundo, a noite, o tempo espera-te! Anda!
- Você passou a chuva inteira dormindo, me deixe por algum tempo aqui.
- Não! Sua família mundial depende de você! Anda! Ide! Abri-a!

O filho se levantou, resignado e bufando, mas o pai havia trancado a porta pelo lado de fora, sem querer. Com eles, só restava o guarda-chuva, o paraíso, a cadeira e todo o resto.

Olhar para cima.

Nunca tinha olhado para cima: não no banheiro. Naqueles cubículos pequenininhos, que o fedor da bosta sobe e se instala nas paredes. O enxofre inebriante me obrigou a subir o olhar, fugindo da tontura: percebi: não havia teto nas paredes; eram como aqueles chuveiros militares sem divisões. Nesse, havia divisas entre as cabinas mal-cheirosas. Atrás de mim, em cima, olhava-me um daqueles negócios onde se enroscam as lâmpadas: sem lâmpada. Notei que em nenhum havia lâmpada. Sem luz: sem ver a merda nadando na água que quase salta do vaso.

Mas haviam colocado água na caixa naquele manhã.

Na rua.

Adeus. Ele também. As mãos cumprimentaram-se, cordialmente. Não que tanta formalidade fosse necessária.

Os pneus do ônibus rugiam na rua. Mãos dadas. A água tentado atingir o calçadão novamente. Mãos dadas. Sol queimando: mãos dadas.

Dadas não: concedidas, apertadas, porque o amor - havia amor - era fraternal. Não que não houvesse o sexual ali: havia. Mas ouçam o amor quando ele fala pela pele. Tudo fica mais apertado, mais junto. Amor é um colo macio, é uma rede no alpendre de tarde.

Mãos dadas. Desfazem-se em rotina, novamente, mas sempre lembrando dos dedos entrelaçados naquela rua, apressados.

19.10.05

De Uns Passarinhos.

Os passarinhos batem na portinhola do banheiro, aquela que fica em cima do chuveiro, para o sol entrar, sabe? Eles bicam a janela, como fazem aqui em casa; lá, é na hora que ela toma banho: aqui, é no levantar, lá pelas seis. E não são poucos os penados, não. Vem de bando de três, ou dupla, ou mesmo um. É: de quando em vez, unzinho vem, só, bater na janela, estranhando a imagem refletida do vidro fumê. Aliás. Isso era o que eu achava: depois qu'ela me falou dessa história, descobri que tão bicando mesmo é a gente: são gentis demais para fazê-lo de uma vez: fazem por tabela, cutucando o vidro. Bicando a gente, como faz aquele final de tarde, que parece com o domingo todim e as noites de chuvas - estas últimas nem tanto. Bicam, cutucam, nos colocam para pensar, refletir, mas é reflexão esparsa, jogada, sem fundamentos filosóficos, o pensamento se embolando nele mesmo, tentando entender-se sem se desemaranhar. A mulher procura um motivo para ficar triste, sem tê nem porquê - porque ficamos tristes naquelas outonais: as amarelas, de comunhão com todo o resto que não a gente, os finais de tarde, começos da semana. Nessas horas, a nossa gaveta - porque a mente é uma gaveta - se abre e despenca no pé: de repente, percebo novamente que existo de novo. Esses passarinhos estão aqui e ali, lá e cá, para lembrar todo mundo - eu e ela, ao menos - que aquela sincronia do Jung existe: o universo, simplesmente, faz sentido; não faz porque alguém disse ou deixou de dizer: só por causa dos passarinhos mesmo. Culpa deles.

18.10.05

Muitas murissocas.

Tem muitas murissocas no meu quarto. Céus. Céus. E céus.

Da Igreja do Diabo.

1. A metáfora principal do conto é a das capas de veludo com franjas de algodão. O veludo é a nossa máscara social, metade que mostramos a outrem; as franjas de algodão são a parte nossa mais vulnerável a desvios.

2. Dito isto, posso repetir a frase do próprio Diabo, ao ter a idéia da sua igreja:

"Há muitos modos de afirmar; há só um modo de negar tudo."

A transgressão das preceitos diabianos, ao final do conto, ilustram bem essa afirmação. As pessoas, na sua eterna contradição humana, quebram as regras - negam-nas - justamente por serem regras.

Depreende-se - deduz-se, compreende-se, percebe-se, infere-se - então a natureza humana pela ótica de Machado de Assis: o ser humano é um animal transgressor, desobediente, quebrador de regras, contraditório.

Interessante que as trangressões são realizadas sub-repticiamente, às escondidas. A manutenção das máscaras sociais é importante; está entre uma das máximas da boa interação social pelos olhos de Machado: não importam os paradigmas que regem as interações das pessoas: o que importa é que estes devem ser mantidos, para que o indivíduo não caiam em desgraça social.

E, como sempre, Machado retira de si a responsabilidade pela veracidade da história: entrega-a à um "velho manuscrito beneditino." Bicho fulerage.

Sumando: capas de veludo, franjas de algodão; capas de algodão, franjas de seda, não importam: a gente rasga tudo mesmo.

Deu pra captar ?

17.10.05

16.10.05

Erich Maria Remarque.

Em guerra, os soldados não pensam ou sentem: os instintos dominam.

A guerra é feia, é covarde. Sua única utilidade é nos mostrar o como ela nos serve para coisa alguma.

É vírus que não mata por fora; corrói por dentro, e a luta do soldado não acaba à paz; dura até a morte. Talvez além.

Da estrutura da língua.

Se você que me lê entende o que quero dizer, então é porque entre nós existe um acordo de como nós vamos nos comunicar. Nós concordamos que o melhor modo de expressar idéias é através destas letras aqui que formam palavras. E estas palavras nos lembram de certas coisas do mundo com as quais nós vamos construindo toda a informação, até que nos entendemos.

Então, este acordo, que implica regras, chama-se estrutura ou sistema. E cada palavra é chamada de unidade. Um conjunto de unidades é o que forma o sistema.

Se eu escrevo a palavra eu, o caro leitor pensará justo em quem escreve estas linhas. Mesmo que não conheça meu rosto, saberá que esse eu se refere - lembra, evoca, representa - ao escritor do post.

Se escrevo boi, o caro leitor não pensará num disco voador ou no Freddie Mercury; com efeito, pensará naquele animal com dois chifres, de quatro patas, mamífero, macho, o marido da vaca, essas coisas. Isso porque o nosso cérebro trabalha por um método muito interessante: nós ouvimos boi, e essa palavra irá nos lembrar da imagem do animal, mas não antes de comparar esta com TODAS as outras imagens - todas mesmo: de gato, de ganso, de gente, de livro - que temos armazenadas na nossa memória.

Assim, nós fazemos a escolha pela imagem socialmente estabelecida, aquele que todo mundo diz que é. Se você me pedir para apontar um boi, eu não vou lhe mostrar os meus órgãos genitais: vou lhe mostrar o boi, se houver algum por perto.

Então as palavras só nos lembram de certas coisas porque nós fazemos uma escolha baseada em critérios sociais. Os significados das palavras se constroem por diferenciação: uma palavra só significa uma coisa comparada com algo que não for essa coisa.

Assim, o sistema da língua é o conjunto de unidades que se relacionam por diferenciação.

Isso baseando-me nos meus conhecimentos esparsos e parcos.

Será que deu pra entender ?

15.10.05

Lembretes.

Ainda não: estou instalando mil coisas no PC renovado pelo enésima vez. Acho que vou desistir de mexer em computador. Sempre dá problema.

Rapaz, eu sou muito sensível. E tudo que eu posso fazer é me desculpar.

Desculpe-me.

Agora, aos lembretes.

Redirecionar minha libido para atividades intelectuais.
Ficar menos desastrado.
E tantas outras coisas, meu deus. Tantas outras coisas.

14.10.05

INFP.

Introvertido.
Intuitivo.
Sentimental.
Perceptivo.

Não que seja redutível a isso, nem que esteja fora, mas nos é inevitável categorizar a realidade. Culpa dessa nossa aptidão lingüística, meu caro. Culpem deus.

Ámem.

Ah, e perdi toda a minha produção literária (literária?) quando meu HD queimou. Não vou me desesperar: ainda não fiquei sem palavras.

Alguém ainda lê essa porra ?

9.10.05

Aleatório.

Meu
Seu
Não
É
Porque.

Sobre a pós-modernidade (não que necessariamente tenha algo a ver como poema acima)

Somos seres em pedaços. Não que algum dia tenhamos estado inteiros e só agora a gente se partiu, mas é que antes já tava tudo quebrado e não tínhamos nos tocado. Somos um bando de quebra-cabeças ambulantes, com um bocado de peças faltando. E, pelo que eu pude entender até agora, juntar todas essas peças não é possível. Que é o que a psicanálise diz: tranformar uma neurose fuderosa numa infelicidade banal. Ou sejal, a gente não pode ser feliz completamente, sem ter problema na vida.

Mas a gente pode/deve tentar.

E se alguém ainda ler esse blog, e tiver algum fio de paciência e força nas falanges dos dedos, poste uma interpretação daquele poema ali em cima, por favor. Não precisa ser grande, mas escreva.

E, segundo o livro "Arte e Psicanálise" daquela coleção passo-a-passo, a arte moderna e a psicanálise surgiram na mesma época. Se não me falha a memória, lá em 1900 e pouco, no começo do século/milênio passado. Com o Paul Cezánne - pintor - e Sigmund Freud - psicanalista.

Ciao.

8.10.05

Fortíssimo.

Meu computador não voltou do conserto. Arriégua.

Nada a dizer. Só que eu também nunca guardei rebanhos. E minhas ovelhas são parcas.

[]'s.

5.10.05

Leçon.

Le-la-ei hoje de novo. Roland Barthes fala da linguagem e sua tradutora é competente.

Meus posts estão concisos, sim. Meu computador retorna do rapto sexta-feira. A escritura retornará ao seu fluxo normal a partir do dia acima citado.

Sinto saudade de escrever. Segundo o Maria Rilke, eu teria o direito - mínimo, mas isso quem diz sou eu - de ser escritor. Algo assim, mal transcrito:

- Mas há de ser o caso do senhor não ser escritor. Basta pensar que poderia passar a vida sem escrever para não ter mais o direito de fazê-lo.

Abraxas (que é abraço, além de do deus tal lá que conjuga em sua coisa o Bem e o Mal).

3.10.05

Concisão.

Sem computador. Vírus. Conserto.
Faculdade. Literatura. Lingüística. Textos. Vários. Muitos.

E um amigo meu, ao sair do elevador e me encontrar, indaga, feliz:

- Aê, cara ! Como vai a vida ?
- Manústica.

Abraxas.

29.9.05

Metamorfose estanque.

Não gosto de me definir como uma metamorforse ambulante. Tenho abuso. Além da rotina ser inevitável. E quem não acredita, é burro. Com todo o respeito.

E adoro sebos. ^.^

Abraxas.

28.9.05

Cartier-Bresson.

É um cara tentando pular por uma enorme poça d'água.
Ou é a gente, parado no ar,
sem poder pular por cima dessa poça
tão pequenina, mas que volta sempre,
apelidada vida ?

De dentro de um livreto.

"VI Definição de Paraíso

Mas o difícil, na sua descoberta,
é saber para onde, ler na sombra
a hora de nos apaixonar."

Marcos Konder Reis

Esse cara bota muito quente. Muito quente mesmo. Que nem gelo.

Abraxas.

Centésimo Sexagésimo - Dos direitos e além um pouco deles.

Vou votar contra o desarmamento.

Significa que eu não quero que a venda legal de armas no Brasil seja proibida. Além de mim, meu antigo professor de física do sete, Ulisses, também vai votar contra, e o que, afinal, o Ulisses não sabe ?

O meu pensamento não se desenrola em termos práticos, pragmáticos, úteis ou elaborados. Muito menos simples e rápidos. Ele se desenvolve a partir dele mesmo, depois ele sai, depois ele volta de novo, depois ele vai na cabeça de outra pessoa, depois ele volta, depois ele decide. Eu não decido nada. Só as palavras nos versos e as linhas mal-escritas. O resto ? Que me importa o resto ? O egoísmo me poupa de muitas angústias de noites mal-dormidas, o orgulho me salva do ter que me explicar para outrem e as dúvidas cansam depois de certo tempo.

Só mesmo a eternidade de um instante e o desejo de que deus exista.

Abraxas.

27.9.05

Centésimo Qüinquagésimo Nono - Do modelo.

Depois de uma batalha hercúlea contra o HTML do template do malito, conseguir deixar o blog do jeito que eu queria. Ou quase.

Incrível como sou perfeccionista apenas com as coisas mais bestas.

Abraxas.

Centésimo Qüinquagésimo Oitavo - Ah !

Para quem quiser ver, hás contos no Jornal do Conto. Ide ! Lê !

Minhas bibliografias desse semestre são enormes. Céus. E ainda nem vi todas as cadeiras.

26.9.05

Centésimo Qüinquagésimo Sétimo - Tarde demais.

É que não tem problema. O problema é justamente esse. Mas, falando mais do que especificamente de mim, o que não exclui os outros de modo algum: tá tudo acontecendo tarde. Não que o comigo seja diferente - longe de mim: isso seria especial. O povo sabe como isso já aconteceu com o Saramago, no Saramago.

O autoconhecimento, a automartirização, a revolta sem causa, com causa cega, surda e muda e todas essas frescuras que só acontecem quando a gente é mais novo, e é resolvido quando a gente é mais novo.

As poucas vidas que a gente tem, meu deus do céu ! Só me conta agora dessas coisas, senhor ? Então não tem mais jeito pra. Até pra copiar coisas dos outros ! Pra não copiar, tem que acontecer cedo, pra gente se definir cedo, pra saber quem são seus amigos cedo, pra andar nos lugares certos cedo, pra fazer as coisas que gosta e evitar as coisas que não gosta. Tudo cedo, cedíssimo.

É aquela caixa preta do behaviorismo: só estímulos e respostas. Estímulos e respostas. Estímulos vorazes, ávidos de alguém, e respostas medíocres, cegas, ou pior, que não querem nem ver ou não tão nem vendo.

E tudo me parece tão inútil, meu deus. Será que não dava pra pular essa parte não ? Não: isso seria especial.

Centésimo Qüinquagésimo Sexto - Arriégua !

- Tem o Caio Cid, o Caio Porfírio Carneiro, o Caio Negreiros, o Caio Fernando Abreu...
- É ! É sim !
- E tem um agora que chama Caio...Marinho ? Acho que é assim... Esqueci o resto.
- OUTRO ?!
- Ééé...
- Ave maria. Deus me livre. Tá bom.


Não me perdoem: eu já aconteci.

Centésimo Qüinquagésimo Quinto - Você mia ?

Se não, comece. É bom.

Eu peço a você que me lê que arranje um tempim para comentar. Me desculpe. Não queria ficar implorando por comentários. Mas rendo-me a imposição da própria natureza do universo bloguista. Comente, e, no comentário, coloque o endereço do seu blog. Eu, como bom viciado, irei no seu, le-lo-ei, não linka-lo-ei, provavelmente não comentarei, mas, considere-se lido, que é o que mais importa lá debaixo da terra.

Obrigado.

Meu primeiro dia de aula foi sacal. Descobri que tenho cinco cadeiras e três professores. E o pior é que as cadeiras com o mesmo professor são todas no mesmo dia. Raios, mas não seria de outro jeito. Tomara que essa tal de Sarah num-sei-oquê ensine fucking bem.

Eu sinto que a partir de agora - e até as próximas férias - meus posts vão ser bem "como foi o meu dia." Céus. Deus nos livre.

Acho que vou fazer dessa: posto o post em prosa, e no final meto o poema. Meu ou de quem eu quiser colocar. Conhecido ou não. Ilustre ou não.

Aliás, procuro, sim, soluções

Eu trabalho com problemas.
Não tenho soluções.
Não procuro soluções.
Minhas palavras não falam do que eu sei:
falam do desconhecido, mistério.

Minhas palavras são areia movediça
e vou me afogando
de pouquim em pouquim.

CMR

Beijos.