8.6.06
7.6.06
1.6.06
30.5.06
17.5.06
Não sobreviveria sendo assim, vivo sendo assado, e me estrepando quase masoquisticamente.
Por quê? Quem se importa com coisas importantes? Todo mundo - e quando eu digo todo mundo, eu não quero dizer todo mundo - só quer saber dos problemas que o olho pode ver - e problema é uma definição subjetiva e completamente guiada por uma moral construída e aceita.
Aí, quando eu tento ajudar, abusam da boa vontade, e derrubam os problemas em cima da minha caçambinha míuda - afinal, não tenho problemas, e se tenho, não são tão gigantescos e não merecem a mesma primazia e a mesma gravidade que estes daqui. Passei a minha vida inteira sem poder fazer o que eu queria, sem poder falar direito com a minha mãe.
- Ave maria, menino, pára! Tu tá parecendo o teu pai!
- Affe, caio, tá ficando igual teu pai!
- Isso aí é coisa do teu pai! Olha a besteira!
E eu? Será, porra, que eu, nenhuma vez na vida, posso ser parecido comigo mesmo? Será que eu vou sempre ter que viver em função do meu pai, ou do Leonel, ou de qualquer outro que chegou primeiro e arruinou tudo? Por que quando eu tento ajeitar as coisas, todo mundo reclama? Por que quando eu falo o que eu penso, ninguém aguenta e joga o meu discurso no boca de quem não presta? Eu não sou uma pessoa legal? Cadê eu?
14.5.06
I
Saiu correndo: que nada na sala era dela.
É como xadrez, olhares tornam-se peões; os reis são o seu orgulho; as rainhas são as músicas e o os mitos que guiam. E nossos atalhos:
- Atalho é falácia.
Mas não vou discutir a existência de atalhos. Aqui não. Aqui, ela fugiu.
Deixou a porta quase aberta, e atravessou o corredor verde amarronzado. Não cito a luz vermelha por medo de cegá-lo ou pra ficar mais difícil de misturar o verde com o marrom e depois com o vermelho. Pode imaginar só com o verde amarronzado, ou verde-marrom, como era de primeiro. Eu não me importo. Me importo com o fato dela ter saído correndo, feito louca.
Ela saiu, e eu pude ver a lâmpada redonda quase caindo do teto. Ela continua a ir mais longe daqui, mas ainda quero falar da luz:
Era bem solta. Piscava. Inter. Mitente. Mente. Todo dia, toda hora, toda entrega, toda saída, toda porta semicerrada. Todo mundo tinha medo de chegar de madrugada para aquela luz piscando e cegando e piscando junto com o olho da gente como se lâmpada também lacrimejasse. A esclerosada do andar de cima jurou que, uma madrugada dessas, viu uma gota avermelhada no chão do corredor.
Da mulher: ela, que agora já está bem longe do corredor e da porta entreaberta; que está entrando no carro com alarme eletrônico e constatando que não havia gasolina pra chegar em casa.
Não vou contar o motivo de tanta correria: esta estória de mentira não se faz de porquês. Os porquês estão atrasados e o pensamento não pára pra eu ficar catalogando tudo que já aconteceu. Se for fazer flashback, quando chegar na parte boa, tudo já terá acabado e os dois que estavam na sala com a porta que agora já fechei, já terão se ido fazer sexo-pra-fazer-as-pazes.
8.5.06
Comentário.
Paz. [Do latim pace] S. f. 1.Ausência de lutas, violências ou perturbações sociais; tranqüilidade pública; concórdia, harmonia. 2.Ausência de conflitos entre pessoas; bom entendimento; entendimento, harmonia. 3.Ausência de conflitos íntimos; tranqüilidade de alma; sossego. 4.Situação de um país que não está em guerra com outro. 5.Restabelecimento de relações amigáveis entre países beligerantes; cessação de hostilidades. 6.Tratado de paz. 7.Ausência de agitação ou ruído; repouso, silêncio, sossego.
Não simpatizo com a idéia de me forçarem tudo isso aí em cima goela abaixo. Não que seja algo ruim, mas não sejamos fanáticos. Deve haver melhores meios de se chegar – se é que há um caminho - lá – se é que é um lugar - do que por alguma ditadura com poderes hipertrofiados.
Não é à toa que paz é feminino. Como a verdade, ou a beleza.
5.5.06
Impressionismo.
Estávamos de pé, na varanda da casa. Final de tarde. O céu arroxeado, que eu sempre acreditei ser uma cor alegre. E minha mãe não segurava minha mão, como era costume; sem conselhos ou sermões, nem das coisas que deviam ser feitas. Não mais. Duas mulheres de pé numa varanda, frente para a praia, tentando enxergar as ondas entre as espumas brancas. O céu roxo.
Foram chamar. Era hora, mas nunca a que eu queria.
- Vamos, filha.
- Vamos sim.
Ela foi logo, mas eu tinha que ficar um pouco mais ali, observando o que o mar e o mundo me davam, que talvez eu nunca ganhasse de mais ninguém. Nem mesmo do meu noivo. E nunca ganhei realmente. Nem haverei de ganhar, sem a menor dose de pessimismo. Pensava essas coisas, porque ainda não havia, com vinte e dois anos, descoberto o péssimo do mundo. Desconhecendo-o, fui-me pelo corredor de paredes rosadas.
2.5.06
29.4.06
24.4.06
Gostaria de ficar cego pras minhas palavras; observar o vôo delas, bem longe daqui, no barbante do horizonte, depois do mar, antes do sol, que é pra não se queimarem - palavra não tem protetor solar. Elas queimam, e só quem lê sabe como queima. Quem bota no papel é só um botador, um colocador de coisas nos lugares certos: eu gosto mesmo é de ler.
Mas sou injusto conosco. Nós temos um pouquinho de trabalho - ou labor, ou ação, que o valha - temos que sentar, olhar o caderninho de anotações, procurar o sentimento pra emendar nas palavras, desembestar, parar, tomar um copo d'água - alguns tomam Coca-cola com creme craquérs - olhar, ver a merda que saiu, tentar encontrar algum valor e sair futricando até conseguir ficar só com uma carta na mão.
Escrever é jogar mexe-mexe. Mas isso sou eu.
E queimam porque acendem o fósforo de dentro da gente.
20.4.06
19.4.06
Filosofia da Burrice: um adendo.
Um pós-cartesianismo, para colocar o prefixo da moda. Uma filosofia das certezas, dotada de dúvida saudável e consciente de seu próprio nariz de palhaço. Além do espírito de gravidade. Esta burrice encontra-se embasada no si-mesmo de nós-todos.
Como direi? Disse-me, e ouvi:
Uma Burrice pragmática, pois não, que renuncia, sempre que o é devido, à infinita capacidade de abstração intelectual humana com o intuito de, mui humildemente, prognosticar as coisas com o que há de mais réles no pensar.
Burrice, além de tudo.
16.4.06
porque todas as coisas
já terminaram.
o término eu consigo enxergar:
ele chega bufando, batendo o pé,
gritando que acabou.
O fim é um silvo da floresta noturna,
é um sopro na lagoa parada,
é uma jangada em alto-mar.
...mulher...
As coisas acabam
depois que enxergo no horizonte
um sorriso de criança
e um suco de maracujá gelado.
15.4.06
Poesia kamikaze e arregaçada.
Chega de tanta babaquice.
Eu quero é que o mundo se exploda
Numa implosão de sem-vergonhice.
14.4.06
Já parou para pensar que talvez a vontade de escrever e a inspiração não sejam tão amiguinhas quanto a gente pense? Quantos textos devem ter sido escritos como se o escritor estivesse empurrando um carrinho de mão cheio de areia vermelha? E chegasse lá, ainda tivesse que remexer na areia, misturar com água, fazer um buraco - não nessa ordem - pra só depois levantar o muro. Já pensou num negócio desses?
10.4.06
9.4.06
Quero ver como a Clarice.
Quero almas tão grandes
que não caibam nelas nem toda a estória
da história.
Quero um pouco do mar Egeu
nas minhas lágrimas européias.
Eu quero um pouco da Amazônia
no meu sovaco fedorento.
Eu quero pensar na minha terrinha
como um lugarzinho bom de viver e fazer poesia.
Mas quem escolhe não sou eu:
são elas, que fazem isso daqui.
Tenho que me cegar,
e me privar de toda sanidade,
de todo bom senso,
de toda razão,
de toda lucidez
e,
então,
deste modo,
com todas as forças,
finalmente,
Poderei ser quem eu quero ser.
Nem que seja só por uma
verdade inventada.
7.4.06
A minha roupa é verde com vinho. Não tenho queixo, o nariz é empinado e os olhos fechados. Anuncio, a criatura entro e ou fico - de olhos fechados - parado, ou me retiro e espero alguém mais chegar. Um anunciador, de calças apertadas e olhar lunático, quase de bobo, mas o bobo é outra coisa, que eu já explico.
Vou explicar o bobo, mas primeiro vou dizer porque não me considero um: é que bobo é chamado pelo Rei quando não tem mais nada pra fazer; quando o Rei reina, mas quem governa é o imperioso tédio. O Bobo diverte e subverte, que a loucura dá à ironia uma máscara de sorriso de criança, e toda criança é louca: louco pode tudo. Lacan dizia ter cinco anos. Abirobado.
Pois bem, acabei dizendo o que era o bobo antes de me justificar. Faço-o agora: não sou bobo - bobos também são anunciados. Eu sou aquele que deposita a presença e sai de fininho. Eu sou aquele que a qualquer momento pode ser esquecido numa viagem à outro castelo estrangeiro. Quando a Corte precisa cortar gastos, adivinha quem vai primeiro? Vós sois as palavras, passíveis de anunciação; eu, os outros. E os outros são vazios e tão pequenos que.
5.4.06
Pergunta cavalar.
Eu quero uma história. Alô? Tem alguma história aí? Só de pepperoni. Calabresa? Não, calabresa tem não; tem pepperoni. Que que tem na de pepperoni?
Um bocado de silêncios e vazios e personagens desagregadas, que herdaram uma tradição ensaística dantesca e que não preza pelo sentido. Nem sei praquê o dantesca.
3.4.06
O Biquíni Rosa.
Aquela pecinha foi de uma jovem, que agora já é adulta, e que não tinha mais utilidade pro biquíni. Dentro do ônibus, com uma sacola velha, indo pra casa do terceiro namorado, encontrei, já perdido, o biquininho no meio do batom vermelho, do perfume, da calcinha, do sutiã. Não se lembrava a quem pertencia. De ninguém. Fora. Pra rua, é encontrado pelo escritor, aprisionado nas palavrinhas rosadas com bordas brancas.
Mentira tudo isso: o biquíni era é de um menino. Menino homem, macho, viril, que com doze anos já havia perdido o cabaço, como diz um amigo meu eu não vejo faz um tempo. Perdido o cabaço, ele saiu correndo da casa da menina, tropeçou na vestimenta, ouviu o ranger da porta, correu, saltou pela janela saiu correndo, enquanto sua companheira de putaria ajeitava, pra ficar tudo direito.
Depois, o menino bateu uma punheta pensando na já experimentada situação, que tantos morrem sem nem saber o que é, gozou, jogou fora a última lembrancinha inoportuna daquele evento memorável.
Cinco dias depois, a mãe descobriu, a menina ficou grávida e o pai matou o moleque de peia.
31.3.06
Tentativa de mini-peça.
(Entra um homem.)
Homem: Sou um marinheiro! E não navego pelo mar! Não fiquem assustados, meus caros: é de praxe nessas peças modernas - esta mesma, uma delas - estar permeada de paradoxos. Não navego pelo mar: nem pela vida: há muito perdi esta ao cruzar a esquina, ao atravessar a rua, ao bater a primeira tecla no teclado. Perdi minha vida para a vida: o mundo me fagocitou, eu, que nem corpo estranho era. Isso só prova minha teoria de que o mundo é um corpo que tem ódio de tudo e mais um pouco.
(Sai. Entra um marinheiro.)
Marinheiro: Não sou um marinheiro! Sou um poeta! Estou aqui, num teatro escuro, sem poder enxergar meus conterrâneos, sem poder realizar meu sonho. De querer ser quem eu realmente nunca fui, nem poderei nunca ser. Quero ser um marinheiro, como vocês, que navegam, como, como a criança que navega. Viver sempre me pareceu mais necessário do que velejar, por razão tão clara, estou aqui, prostrado, à frente de tantos olhares quanto possível; esmiuçado pela íris de um autor sádico. Não sou marinheiro, sou um covarde que necessita viver.
(Sai. Entra o autor da peça.)
Autor da peça: Boa-noite, meus caros poucos e parcos. Que bom vê-los e não vê-los. Que bom enxergá-los como a mosca, com meus mil olhos oniscientes. Vejo o medo, e os medos, de todos os olhares, vejo o casal que utiliza a verdadeira aptidão da escuridão, vejo o senhora antiga, esquecida pela família, vejo as paredes do teatro, vejo o intelectual criticando o que não entende, vejo a criança coçando a cabeça. E volto para mim, com o intento de lhes dizer o que é preciso. Todos deveríamos, meus caros, coçar a cabeça como a criança que vejo: coçar a cabeça é, antes de tudo, navegar.
29.3.06
O Caroço da Lagartixa.
Eu pensava que para eu escrever tinha que trabalhar, e sentar, e pensar, e pesquisar e ir atrás das palavras. Mas comigo não dá e eu sei porque eu tentei. O que eu tento agora é outra coisa parecida, mas dessa vez as palavras me escolhem e eu não faço censura, a não ser aqui e acolá, quando der e vier. E o viés que esses meus textos tomam, esses meus textos noturnos com pontos finais em lugar de frases subordinadas, essas minhas sílabas que querem, quando pouco e muito e ruim, ser um Água Viva da vida, ficar atrás do pensamento, onde tudo é azul, onde tudo é mar e só olhar pra cima e ver o céu brilhando no horizonte aquático do universo, onde tudo o mais é por demais impreciso.
Olho, presto atenção em meus dedos, e percebo que nunca escrevi tão rápido, tão perto do caroço das coisas como quando de agora, dos meus anulares martelarem as teclinhas deste computador que já perdeu tantas musiquinhas em sua vidinha que me deixa muito, muito triste. Mas não estou me falando pra falar do meu computador; estou falando de mim para ver se eu encontro algo além de uma dor nas costas, algumas angústias insolúveis em água, e um pouco de mar que, eu sei, todo cearense tem.
Todo mundo tem água dentro de si; talvez por isso o Água Viva tenha me acordado tantas vermelhas, tantas palavras, tanta coisa que eu não sei o que é e não procuro saber porque é tarde demais quando se está amando as palavras; e é falta de educação - crianças, aprendam isso - sair da cama no meio do sexo. e também é importante que o outro parceiro sinta prazer na hora. E pode ser em qualquer lugar, e também pode utilizar o Halls preto: tudo pelo prazer e pelo regojizo, porque o meu tempo, como o da Clarice, é o agora. O negócio é que eu sou bem mais medroso e deixo meus esqueletos me persuadirem a ficar observando a perscrutação que realizo de minhas fantasias antigas, de meus pecados originais, de minhas gafes anedóticas, de tudo que já aconteceu, que é causa do que é hoje e que não importa mais porque está no passado e passado é aqui dentro, fora de mim, tentando entrar pela porta trancada que eu acabei de fechar com a chave e passar o ferrolhinho.
Talvez algum dia eu escreva um romance. É o meu desejo de agora. E tem uma lagartixa em cima da minha cômoda: nunca estive mais próximo da natureza.
26.3.06
Apanhado semi-mexido e retirado do orkut de depoimentos sobre o que alguém que se odeia vê quando olha no espelho.
desnecessária,
desperdício: poderia ter saído alguém mais útil do que eu.
Somos todos inúteis?
Me olho
E não vejo nada.
Vejo uma pessoa fraca e sem motivação,
vejo alguém que não é para esta existência
e por isso vive a procura de outras.
Vejo um caso perdido,
uma sombra das pessoas, algo que não era pra existir.
Vejo um ser imprestável,
um ser imprestável.
Não me enxergo no espelho.
Claro que se vê: só vampiros não têm reflexo.
Acho que fantasmas também não.
Vejo um zero à esquerda que nem deveria existir.
Vejo um nada.
Um patético apenas,
sem graça.
Vejo uma pessoa fadada ao fracasso.
Me olham, já me disseram,
um ser patético enxergam.
Eu
vejo
um ser inútil, sem nada para acrescentar para ninguém,
uma completa idiota,
burra,
etc.
Uma pessoa
completamente na solidão.
25.3.06
22.3.06
Um post muito paia
Foi assim com o Macbeth - essa citação aí embaixo - no outro post - é do one and only Chico Pires.
Foi assim com o Machado, na cadeira de conto.
Foi assim com a Sra. Lispector, também na cadeira de conto.
Lendo a Moreninha também.
Ouvindo Beatles.
Escutando meu antiquíssimo álbum William Shakespeare's Hamlet.
Lendo Rubem Alves. Principalmente lendo Rubem Alves.
É bem possível que toda a minha ética e toda a minha moral tenham vindo das croniquinhas do Sr. Alves. Dele, o do Maria Rilke, com as carténhas. Meus respaldos morais: quando alguém pergunta, mas porque tu acha isso? Porque eles disseram! replico.
Ah, e o Zaratustra também, muita, muita coisa do Zaratustra. E do Caeiro.
Sim, mas tá bom; esse post tá muito pretensioso, chei de nome de gente; nada meu, nada novo, sem literatura, arriégua. Diabo é isso?
20.3.06
O caio que eu quero pra mim.
com mar,
com carnaúba,
com céu de estrelas
e essa frescuragem toda.
Mas eu sou é outra coisa:
sou um caio de cidade,
um caio classe-média, um caio de Beatles,
que não sabe pra onde tá indo
nem o que quer.
E esse caio aqui,
que tá escrito em tantos versos
- poeta longo é um problema -
não consegue entender como é.
Esse caio de vocês,
não é o meu caio, meu povo.
O caio que eu quero é um caio de Fortaleza,
um caio verde,
menor do que um limão,
maior do que lagoa do Pici,
de onde escapou uma cobra que veio parar no portão daqui de casa, mas isso faz é tempo.
O caio que eu quero
tá lá longe,
na terceira margem,
onde eu não consigo pegar.
O caio que eu quero
é pequenininho assim,
que nem unha roída.
16.3.06
Decifra-me ou devoro-te!
Carro da auto-escola. Terceira tentativa deste de tirar a famigerada prova de que é bitolado o suficiente pra não pagar mais auto-escola. Primeiro carro a chegar no DETRAN, almoço gorduroso, com biscoito de chocolate sobre um toldo multicolorido e uma tia gente fina que me desejou boa-sorte.
13 e pouco
O instrutor fez o que tinha que fazer para testar o carro: freio, pra frente, pra trás, luzes, tudo bom com o esfregador de carvão nas nossas caras. Entramos no Local. Do lado de fora, é engraçado, ele parece um lugar bem menos assustador. Que bom, acho que dessa vez vou passar. Ah, a mente jovem! Ah, a esperança!
13 e 0,5 segundos depois de entrarmos
O outro aluno que viera comigo fizera o percurso, tirara a carteira, pegara a ressalva e chispou pra viver a vida dele. Quanto a mim, restou ficar esperando enquanto o outro candidato a doido da minha auto-escola não chegava.
Final das 13 horas
Chega a criatura. Espera mil anos, faz o teste antes de eu. Bufu, bomba. Só vejo ele andando para a luz, como se andasse para o portão azul escuro e carcomido pela ferrugem do DETRAN.
14:47
Depois de permancer a última uma hora e quarenta e sete minutos em posição fetal, com a bunda sendo horizontalizada pelo banco de pedra, vendo pessoas mortas de alegres por terem passado na primeira tentativa - fodam-se - dando pitacos nos que ainda lutavam contra a embreagem e o freio, a loira de dentro da cabine chama meu nome, pede minha identidade e me manda sentar na cadeira. Saio da cabine, sento, espero, endoido, falo com o sujeito do meu lado, ele tenta pela segunda vez. Me desespero. Peço a Deus por uma juíza mulher, peço que não me mande o bigodudo que fora meu julgador da primeira vez. Ele me manda um homem careca dos olhos verdes e rosto cansado. Brigado, Senhor.
14:50
Banco, espelhos, cinto, ponto morto, recobro a consciência, saio com o carro. Sinalizo. Beleza: garagem de frente, no começo! Obrigado, Senhor! Lembrei da sinaleira! Valeu, Senhor! O examinador é gentil! Brigado, Senhor!
14:51
Poste, freio, inércia filha de uma cadela sarnenta, BUFU!
.
.
.
O resto do dia
Me assoitando por ser estúpido o suficiente para não aproveitar a chancérrima que o cara me deu de evitar fazer a pior manobra já inventada pelo DETRAN logo no começo do exame.
15.3.06
O DETRAN é o Vale Da Sombra da Morte
Caio: Embreagem, Freio.
E no comercial da Sessão da Tarde:
Venha acompanhar as aventuras iradas dessa galerinha da pesada que vão se meter em enrascadas do barulho!
14.3.06
13.3.06
Acabou de me ocorrer
8.3.06
7.3.06
A gente, assim.
A gente tem que ser quem a gente é.
A vida da gente é de tentar ser quem a gente é.
Então a gente não é quem a gente é.
A gente é quem a gente quer ser.
Mas a gente quer ser quem a gente é.
E de repente minhas personagens ganharam nomes e empregos. Bé isso?
6.3.06
Assisti dois filmes dos que concorreram. O Jon Stewart foi engraçado. O Dustin Hoffman foi muito legal com o pessoal lá da frente. O Jack Nicholson foi o Jack Nicholson. Tudo vai bem em Hollywood. Agora é retornar ao passado e alugar "E o Vento Levou", "Casablanca" e qualquer um outro que queira ser assistido.
2.3.06
Abraço,
1.3.06
Conversinha.
- E o que é ser namorado?
- Ser namorado é cuidar dela, é lembrar o horário do remédio, é dar cheiro na bochecha, é pentear o cabelo, é mandar ela tomar banho, é pegar bolo, é assistir filme, é sair junto, é beijar lascivamente, é ter piadas internas que ninguém entende de tão esdrúxulas, é falar dexe xeito axim. E mais um bocado de coisas. É ter um estacionamento privativo no colo de cada um.
- Não, não. - disse ele: É um amigo a toda hora. É um beijo a toda hora para confortar. É esquecer os problemas
Ao que o amigo perguntou, do fundo da sua ignorância, sabendo que o outro havia avistado algo que ele não havia:
- ...Porque esquecer os problemas?
E o outro falou com a verdade mais verdadeira que já existiu na face da terra inteirinha:
- Para as pessoas terem mais motivos felizes do que tristes. E com isso serem mais felizes.
28.2.06
Havia viajado eu
Estou de volta, graças aos céus, às palavras: obrigado por me receberem de volta, minhas queridas, também tive saudades de vocês.. E à minha cidadezinhazona, com seu calor nosso de cada dia, muito mais suportável que o calor de lá. Talvez pela familiaridade.
24.2.06
A metalinguagem nossa de cada dia.
Does whatever a spider can
22.2.06
20.2.06
As time goes by
Mas ninguém ama pedras, então não continuei pedra. Mas essa parte ficou. E voltei a ser mulher. Mas foi rápido: vi Casablanca; virei música.
you must remember this
a kiss is just a kiss
a sigh is just a sigh
the fundamental thing apply
as time goes by
E percebi o quanto tudo é sem sentido, e como a vida é péssima, acima de tudo. Fiquei muito triste, e não continuei música. Mas essa parte ficou.
Decidi voltar a ser mulher, porque agora sabia o valor das escolhas que a gente faz. Mas ainda não tinha descoberto que o destino estava aqui dentro, e que não se pode escolher quem a gente ama. E ainda havia duas partes dentro de mim, separadas, que a vida tentou me ensinar a juntar, mas eu nunca fui boa aluna. Então, teve que o Paulo esmiuçar pra mim.
la vie en close
c'est une autre chose
c'est lui
c'est moi
c'est ça
c'est la vie des choses
qui n'ont pas
un autre choix
E eu chorei e aprendi: a parte de verdade de mim é aquela parte que ama.
19.2.06
Control Room.
- Fatos?! Deixe-me lhe dizer algo sobre fatos: não existem fatos, assim como não existem razões, nem justificativas!
- Mas, se você fala isso, então está dizendo que não existem fatos e que todos nós estamos condenados à uma vida de incertezas e dúvidas.
- Justamente, é isso que eu estou dizendo.
- Mas não é isso que acontece, porque, veja bem, há fatos, eu sei que está é minha mão, sei qual o seu nome, sei quem eu sou, então você está, infelizmente, errado.
- Mas entenda que esta é a sua mão porque você diz que ela é sua mão. A identidade dela como sua mão se baseia na sua fé de que ela seja a sua mão.
- Quer dizer a guerra no Iraque, Na Bosnia-Herzergovina, no Kosovo, na Somália, tudo não passou de fé: se alguém disser que não existiu, então eles nunca existiram?
- Bem, seres humanos tem memória curta. Se toda a documentação desparecer, quem serei eu para dizer que houve um conflito a muito tempo onde milhares de pessoas foram mortas por uma causa que nunca existiu?
- Mas então se há documentação, então há fatos que são documentados.
- Mas a documentação também é um ponto de vista.
- E o conflito em si, sem a documentação?
- O conflito existe, e pronto. Tudo o mais, todas as propagandas, todas as palavras escritas sobre ele, todo que for dito de qualquer guerra, de qualquer assunto é pura cosmovisão.
- Mas e a objetividade? Como colocar os preconceitos, o senso comum, as idéias mais simples que nós temos de algo de lado para alcançar a neutralidade num assunto?
- A neutralidade, acredito eu, seja um dom inalcançável, ao mesmo tempo que inócuo. Para quê ser neutro? Para que essa informação seja usada por alguém preconceituoso? E quem não é preconceituoso? Quem nasceu sem sangue? A neutralidade é uma ilusão do século XIX, ainda forte neste século. Infelizmente. Há coisas mais importantes do que a neutralidade. Mas aqueles que tentam sair deste estágio do senso comum, das percepçõs gastam muito mais energia quando poderiam estar aprendendo a cozinhar ou transando ou cheirando ou escrevendo.
- Eu não acredito nisso.
- Não era uma argumentação: não estava tentando convecê-lo: é o que eu acredito, é onde a minha fé está. Se a sua fé está nas fatos, que fique nos fatos, mas não perca a fé para perder os fatos.
16.2.06
14.2.06
Na rua, uma vez
encontrei
uma silabazinha
vira-lata.
Amei, peguei, adotei:
trouxe pra dentro
de casa.
Lá em casa,
Ela latia, miava
E significava pra mim.
O meu amor
pela silabazinha
era grandão,
grande assim:
|___o___|
Mas, um dia,
porque Deus embriagou
e pro seu filhinho chorou
lá em casa encheu de água
e tudo que tinha alagou.
Hoje eu lembro
e dá saudade.
A silabazinha vira-lata
que eu demais amava
não aguentou
e morreu afogada.
"Isto será um símbolo para mim"
Fellini. Não entendi. Não precisa: o filme é bonito demais.
Alguém sabe um jogo que a Morte ainda não tenha jogado? Talvez Naruto Adventure Heroes. Aposto como Ela deve se garantir na hora de confrontar os especial.
Todas as referências ao Ingmar Bergman neste post foram premeditadas.
9.2.06
6.2.06
i am sam
- All you need is love.
5.2.06
Eu ia escrever algo triste, juro que ia, mas como não dá, não vou colocar. Não dá porque o sentimento melancólico já foi embora. Foi como um passarinho que pousou no meu ombro e chispou-se pra lá-pra-lá.
Foi-se junto com meus diminutivos. E os adjetivos. As substantivas formas nominais.
É que todos eles sabiam: tudo mais é por demais impreciso.
2.2.06
Lembranças
O vovô Rocino - filho dela - também morreu.
A Blunsh, cadela daqui de casa - também morreu. E foi uma morte muito feia.
Nasceram a Marina, filha da Dedéia.
A Júlia, também filha da Dedéia.
Nasceu a Gabriela, filha do Daniel.
Nada disso aconteceu hoje. Faz alguns poucos anos que essas pessoas morreram. Os bebês nasceram quase juntos, nesses dois últimos anos.
É que eu estou doente, e quando fico doente eu penso mais. Não que eu esteja em estado de calamidade pública, apenas com o estômago frouxo, algumas cefaléias pequenas e cattarro, onipresente.
[]'s.
29.1.06
Outra conversa séria com o caio.
- É, meu caro.
- Mas por quê?
- Porque o sexo é ruim. Pra mim, isto é. Me faz fazer coisas que depois fico me mordendo de ódio. O sexo me tira de mim mesmo.
- Sério? Vala me deus.
- Humrum. Tenho que parar de bater punheta, de puxar bronha - seja lá qual for o verbo - de baixar vídeos pornôs, de tudo relacionado a atos libidinosos. Nem mais piada indecente eu solto.
- Só pra mijar agora.
- Só pra mijar. É que sexo me faz mal, sabe. Qualquer atitude, qualquer decisão que eu tomo de pau duro dá errado. Vai ser na base da repressão mesmo. Me controlar, contar até dez.
- Deves pensar com a outra cabeça então.
- Humrum. Vou direcionar minha libido pra outro canto: vou ler, vou estudar, vou escrever, vou me preparar pro outro semestre mixuruca, vou amar mais.
- Epa!
- Que foi?
- E esse amor aí?
- Ah, meu caro, mas amar é transar são coisas diferentes. Vou me concentrar na minha amação pra parar de magoar e depois não ter palavras pra reparar quem eu amo.
- Me toooco. Porque a Orides Fontela falou que "toda palavra é crueldade."
- Justamente. E aquele professor de administração do MIT, o Jay W. Forrester disse que "em situações complicadas, esforços para melhorar as coisas entedem a piorá-las, freqüentemente a piorá-las muito, e ocasionalmente a torná-las uma calamidade."
- Putz. Podis crer então. Já é. Que Deus e o Bb estejam comigo.
- Ámem.
(E, sim, eu sei que deveria ter deixado um cheiro, ou te acordado e esperado mais tu, ou nem ter ido, ou qualquer outra coisa, e agora eu não posso me desculpar porque desculpa não ajeita nada. Eu, contudo, te ofereço atos, ações, cheiros, carinhos, amor e djows: é tudo que eu tenho. :*)
28.1.06
H(e)stória.
Quando o asfalto parecia azul demais pela água que escorria, levantei a cabeça do livro, pois dizem que ler em movimento desloca as retinas. E eu acredito em dizeres curtos e simples. Levantei minhas retinas então. Levantei-as, mas a que preço, meu caro. Ergui meu olhar: meus olhos, sabe-se lá onde estavam, mas meu olhar encontrou algo que estupendo.
O banquinho devia passar, pelo menos, a metade do dia sob a luz causticante do sol. A água levava o lixo transeunte pelos riachos borbulhantes e cinzas da rua. Cinzas eram as águas: cinza era sua barba.
Era uma barba cinza e preta. E grande. Tocava o princípio do tronco. Caminhava ela para como na Grécia, quando a barba era sabedoria. Contudo, ali não. Ali não havia sabedoria coisíssima nenhuma: havia sim um sorvete de morango, uma colher prateada com cabo azul escuro e uma barba grande, preta e cinzenta.
E como aquela barba comia, meu caro, ah! Como comia! Comia, mas comia como em tempos remotos, quando comer era próximo da felicidade, não quando agora, que comer é martírio, é gordura, é algo que deve-se evitar. Deus.
Comia, engolia.
Sorvete não se mastiga, todo mundo sabe. Sorvete deixa-se engolir. Também sorvete não se bebe, embora certos indivíduos quebrem esta regra, mas ela não. Ele fazia tudo certo, certinho. Quase nem sujava a barba. Mais limpo do que o semicórrego fora de lugar. Quase um amor.
E quanta beleza em cada olhadela ao lado, de soslaio, de cabeça inteira. O pote cheio, os cabelos arrupiados, o rosto, que rosto? Escondido entre a barba, o sorvete e alguns poucos olhos, que, talvez fosse a água, seriam azuis se não fosse a tristeza do mundo, de torná-los negros como uma falta. Um branco ali não haveria, branco é conjunção, sincretismo: não: ali, havia, sobretudo, falta.
O pote, cheio. Os olhos, vazios.
Quem, então, comia a sobremesa? Quem saboreava? Eu? Meu olhar engolia o momento. Ainda me recuperava da levantada brusca de olhar – tanto tempo com a alma embotada – que onde estava pouco me importava. Procurava equilíbrio. Encontrei: meus cinco anos naquele mendigo vazio e o seu potinho de sorvete de morango da pardal.
23.1.06
Coisas
Moacyr Scliar
Não sei a citação de cor, mas foi o Foucault - "Fucô" - quem disse que a palavra é a morte da coisa. Não me lembro qual era a conexão entre os dois pensamentos, mas sei que havia uma.
Enfim, cu no pau há.
Há, lembrei. É que se a gente mata as coisas nomeando elas, quem tem coragem de ser coveiro para ficar exumando significados?
17.1.06
Máximas
Comadante mexicano contra os últimos três homens da Legião Francesa
O diabo não existe: por isso ele é tão forte.
Dito mineiro
15.1.06
Suor da Morte
Chegou, ficou: enfiaram no quarto da empregada, no meio das roupas sujas, de umas chinelas velhas: colocaram um colchão ali, uns lençóis, cobriram as roupas sujas com toalhas cinzas e velhas e deram o quarto para o velho. Deus do céu.
Na mesma hora, piorou. Ah, velho safado, sem vergonha! Justo agora, filho da puta! Não quero filho meu doente, que deus o livre, não! Pode entrar no carro!
Hospital, maca, pressão, luz nos olhos, dentro do nariz, coração, pulmões, exames, cheiro de remédio, luzes brancas, passos curtos, pesados. Silêncios pouquíssimos, tão poucos, nem se ouvia as árvores balançando lá fora: janelas fechadas. Nem se ouvia os bem-te-vis. Nem a luz do sol. Cortinas fechadas.
(...Ainda bem que a vida não é um teatro)
Dois dias de cama e a família indignada: cadê o dinheiro para manter o velho no hospital? Não tinha plano? Arriégua! Nem, deus me livre: tenho conta demais pra pagar!
O mais velho foi lá acertar com o doutor a conta. Médico nenhum: só a enfermeira, tirando a pressão.
- Como ele tá ?
- Tá bem...Tá bem.
Nenhum vento, nenhum pássaro.
- Ele tá suando tanto...Melhor da febre?
- Nada...Isso aqui é o suor da morte.
O filho não conseguiu falar, e, fazia tanto tempo, chorou na barriga do já, já falecido papai.
13.1.06
12.1.06
Haloscan
Tem que postar coisa nova para funcionar.
Agora quem não é cadastrado no blogger pode comentar também.
Essa mensagem se autodestruirá em cinco segundos...
...quatro segundos...
...três segundos...
...dois segundos...
...um segundo...
.
.
.
Ficou com medo, hein ?
9.1.06
3.1.06
Ghost Story
Julio Cortázar
O meu medo da morte é outro. Talvez fosse mais fácil fazendo análise, mas como não sou feito de dinheiro - sou de amor - elucubrações é o ponto limírofe que a minha mediocridade permite chegar.
Aliás, todos os fantasmas tem medo da morte: mas o nosso medo da morte é outro. É o medo do Quintana. Não é morrer, morrer não dói: o negócio é deixar de viver. E eu escrevo por causa disso, pra que possa viver pelas palavras, embora elas não sejam eu, nem nunca serão e é uma ilusão achar que viver por meio das palavras vai me servir de algo depois da morte. Quem me interessa o que acontece depois da miséria humana ?
Não morro de medo de ser esquecido: já senti isso, mas notei que, para tanto, seria preciso que um número razoável de pessoas se lembrasse de mim, mas eu sou aquele eterno "menino que é tão bonzim, né ?"
Tão bonzim é eufemismo dos piores pra fantasma existencial. Sou um ser de baixa densidade sêmica. Uma criatura sem essência significativa. Um dos pontos no sudário da humanidade. O que me resta além de ser uma mancha preta num mar de manchas pretas ? Tento me convecer de que a mediocridade e o esquecimento que nunca me foram dados são meus verdadeiros territórios, onde devo habitar, viver, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer. Mas tudo isso não passam de elucubrações do meu corpo.
30.12.05
A epígrafe é do Valéry
Como vivi durante
quase
duas décadas ?
Pergunto-me por vergonha.
Não vergonha vergonhosa,
daquelas que avermelham as bochechas:
não essa, mas
vergonha de viver fantasmagoricamente,
que reluz e fulgura
como algo transparente
como um fogo sem lenha,
como uma cabeça de fósforo,
como um lume de lua nova:
quase apagando-se.
Fogo sem carvão para lhe confirmar a ausência.
Minha ausência, onde ela está ?
De onde engendrarei meu carvão ?
Uma ausência contida
em meio ao tudo e tudos e todos existentes
na minha rua,
na penúltima casa da rua,
que muitos nem sabem que ainda faz parte da vida
e do bairro.
29.12.05
Airton Monte
Você já escreveu pra algum escritor que gostasse?
26.12.05
Stanley Kubrick
24.12.05
Meia-carta
Agora, que chegamos no final do ano - nós dois, só, viu ? Não se inclua nisso não - estamos com o quê ? Fazendo as contas, dá uns quatro meses e...catorze dias. Quatro meses e duas semanas de não-sei-o-quê que começou numa quarta-feira do mês do cachorro louco. Quem começa algo em agosto tem de ler aquela crônica do Caio Fernando Abreu sobre como sobreviver ao agosto. Eu li, o bubê leu.
Não-sei-o-quê porque existem coisas que só funcionam se não forem ditas. Se você me entende, que bom; se não, não se desespere: menos dia, alguém vai lhe enfiar uma epifania nessa sua cabecinha e você vai regredir ao estágio de dez, cinco anos, quando tudo é belo e nossa capacidade de se comover com a tragédia da vida tá lá nas alturas, limítrofe com o céu e as ciências naturais. Mas tudo é limítrofe com as ciências naturais, então não fique tão feliz.
Falando em feliz, então é natal. E hanukah também, acho. Acredito que ambos sejam comemorados na mesma data, o que me deixa muito feliz, visto que o povo judeu e a religião judaica são coisas as quais admiro desdo hoje, quando assisti como muito prazer e dor ao preto-e-branquíssimo A Lista de Schindler. Uma tragédia, das gregas, e isso é um elogio.
E onde foi parar aquele meu sentimento de como se a gente subisse a escada com trezentos e sessenta e cinco degrais de uma vez, só pra descer tudo de novo, ãh ? Aquele sentimento de subir: cadê ele ?
E prometo que um dia te salvo, tá, bb ?
19.12.05
E a verdade é um negócio muito escorregadio mesmo, que nem comida quente demais, que a gente coloca na língua já querendo tirar pra não se queimar. Na verdade, acredito ter a verdade o maior muro de Berlim já construído entre ela e nossa humanidade. Um muro infinito, que é tão grande, mas tão grande, que nem parece que está lá: o mundo acaba ali.
Mas o mundo não acaba ali: ali começa a verdade. E agora, José ? Somente a humildade mesmo para deixar a gente se aperceber disso. Mas não é a humildade que faz a gente não deixar essa incapacidade de conhecer abalar os nervos da gente.
Acredito que essa força venha do amor Não amor pela verdade, que verdade num é bicho pra ser amado - ou conhecido. A gente ama pessoas, bichos, comidas, lugares, memórias, cheiros, o bubê. A gente ama uma poesia, um quadro, uma palavra, um nariz, algum dente, uma rua, um bar, uma árvore, um livro - vários livros. E do amor a gente não duvida. Ele mexe com o corpo da gente de uma forma tão assim que não se precisa de certeza pra amar: basta amar, intransitivamente.
Diria o filósofo: "amor é uma coisa-em-si."
15.12.05
14.12.05
Toda palavra é o que não está ali.
Use todo o seu poder de abstração agora e imagine algum motivo qualquer para dar essa caixa a alguém. Qualquer motivo, não importa qual: importa ter o motivo.
Pois é: essa caixa é a palavra, que não tem nada dentro, e que a gente dá a alguém, daí esse alguém vai devolver a caixa pra gente, com alguma coisa dentro, e a gente vai ver o que é, e vai dizer "oh, muito obrigado" e vai colocar outra coisa na caixa, ou ainda pegar outra caixa - a gente usa muitas caixas, em verdade - e colocar alguma coisa dentro e esperar que a pessoa goste e entenda o que a gente quis fazer e dizer com aquele presente dentro da caixa.
Toda palavra é uma ausência.
Sei que isso é uma citação, mas não lembro quem disse. É uma ausência porque não tem nada dentro da caixa-palavra: quem vai colocar alguma coisa dentro da nossa caixa é a outra pessoa pra quem a gente vai dar a caixa.
Mas se a gente deu uma caixa, é porque espera que a pessoa coloque uma coisa que caiba na caixa: ninguém quer ver sua caixa rasgada.
Será que deu pra entender ?
12.12.05
Conversa outra
- Qual a importância da fonologia ?
- Descrever a língua.
- Mas pra quê descrever a língua ?
- Pra saber como ela funciona.
- Mas de que me serve saber como minha língua funciona ?
- Para aliviar a sua miséria da existência.
- Como disse o Brecht ?
- É.
- Mas isso não alivia a minha angústia de existir.
- Então a fonologia não lhe serve de nada.
- Mas será que para alguém ela é importante ?
- Talvez... Acredito que sim. A professora parece bastante interessada nas alofonias alveolares e dentais.
- Mas porque ela está tão interessada num assunto tão besta ?
- Deve ser porque pra ela não é besta: é interessante, faz sentido.
- Alivia o peso de existir dela.
- Isso.
- Céus, mas que tipo de existência estúpida pode ser aliviada pela fonologia ?
- Ela não deve ter só a fonologia.
- Mas ela tem a fonologia. Se esta não lhe soprasse um laivo de luz em sua obscura existência, ela a descartaria.
- Assim como eu descartei a fonologia.
- É.
- Então porque assisto a aula que me é irrelevante ?
- ...Porque precisas passar na cadeira, pra conseguir teu diploma e poder ensinar português.
- A fonologia está no caminho do meu prazer.
- É. Isso.
- Vão ser bem angustiantes os próximos três anos.
- É...Vão sim.
O mesmo vale pra sociolingüística.
11.12.05
Luis Dolhnikoff
por si mesmo
(o horror é a mente entregue
a si mesma)
mas não em si mesmo:
o cérebro em si nada sente
(cérebros são operados
sem anestésicos)
10.12.05
Texto colado
Porque ser escritor é todo o processo de respirar: inalar o aroma do mundo, e escolher as partes mais cheirosas para prender dentro das palavras.
Prender ? Sim.
O Roland Barthes não disse que a língua era fascista ? Sim, ela se destaca mais pelo que não deixa dizer do que pelas suas possibilidades de expressão. Ora, ora, afinal, encontrava-me preso dentro de minhas palavras, sem saber em qual significante acreditar, havendo perdido completa fé nos significados, em meu curso e na humanidade. E eu sou um dos otimistas, não se engane.
Quem me acalentou e acalenta durante minha(s) crise(s) são dois: meu amor - não a entidade, mas a pessoa de verdade, meu bebê, boca de luar - e o Rubem Alves, ou os livros que ele escreveu e o nível econômico da minha classe social média permitiu adquirir.
Acredito ter pegado o Sr. Alves num momento muito fecundo e adequado da minha vida. Bem na hora - quase como que por feitiçaria - ele chegou me expondo os paradoxos da educação, da ciência, do pensamento científico, do meu próprio pensamento, e de tantas outras coisas que eu não entendia. E ainda não entendo, mas isto se resolverá, eu me prometo.
Quanto ao meu amor, que mais posso falar. O amor é silêncio, se disser estraga.
Um amigo disse-me que a conclusão do Aristóteles ao fim do Ética a Nicômaco era a seguinte: que você só precisa de si mesmo para ser feliz. Ao que outro amigo retrucou, sabiamente, que ele chegara num nível de alienação muito grande para pensar isso. Acredito que nós realmente precisamos de alguém para abraçar e sermos abraçados:
vida boa é solidão a dois.
Até. []'s
8.12.05
Googlada
Nossa senhora. Jesus, Maria, José. O documento é de 1998, e eu acredito que tenha sido algo que o meu colégio tenha mandado-nos responder.
Name/Age/Gender: Caio Marinho Ribeiro, 11, Boy
E-Mail Address: [log in to unmask]
City/Place: Fortaleze,ceará
Country: Brazil
School: Colégio 7 De Setembro
Format: WWW
question1: Na verdade eu não tenho nenhum Hobbi,mas,eu tenho muitas preocuações uma delas é com o meio ambiente
porque todo mundo tem que jogar papel na rua sabendo que tem um lixeria perto de você?
question2: Eu sempre tive um sonho que é quando eu crescer eu quero ser jornalista
de um jornal importate.Eu acho que ser jornalista é uma profissão aventureira
e eu gosto de aventuras e coisas perigosas
question3: Bom eu gostaria que nínguem jogasse papel na rua e muito menos nas matas,parques ecológicos,etc.
question4: Para que eu seja no futuro um bom jornalista eu tenho que estudar,ler bastante e me esforçar para que no futuro eu seja um bom jornalista.
- Submitted via the KIDLINK WWW - 98.02.01 18:06:24 GMT -
-------> http://www.kidlink.org/RESPONSE/4Q.html <-------
Caralho, tem até a hora !
Notem os erros crassos e o desleixo com a ortografia.
5.12.05
Não, porque, pra mim, o educador é aquele que faz o aluno gostar da matéria. O professor é aquele que faz o aluno detestar a matéria.
George Polya, um matemático húngaro, disse:
É tolo tentar responder uma questão que você não entende. É triste ter de trabalhar para um fim que você não deseja. Coisas tristes e tolas como estas freqüentemente acontecem, dentro e fora da escola, mas o professor deve evitar que ocorram em classe. O estudante deve entender o problema. Mas não basta que ele o entenda. É necessário que ele deseje sua solução.
Levante a mão quem está interessado em saber da variação do fonema /r/ em Itaituba ?
Tá vendo ? Não dá nem pra entender, quanto mais querer solucionar um djábo desses.
[]'s
2.12.05
Conversa
- Como assim ?
- "Caio": um verbo e tal, já começa caindo...
- É redondo...
- Pois é. A imagem que aparece na minha cabeça é de alguém caindo num poço sem fundo, desesperado, esperando alguém jogar uma corda, mas ninguém ouve o socorro do caio.
- Porque eu sou a queda, não é que eu esteja caindo.
- Justamente.
- Então não tem salvação.
- Realmente: fudeu.
- Mas e agora que tu percebeste isso, como é que fica ?
- Putz, sei lá, vou ter que continuar amando e acreditando nas melhores pessoas.
- Hoje foi foda, né ?
- Foi, deus do céu. Eu me esqueci até de como sentir dor.
- A queda aumentou de velocidade e as paredes do poço foram mais para longe.
- Isso. Mas o que eu tenho medo é de ter chegado num nível de alienação sentimental tão grande que...
- Que o quê ?
- Que eu não consiga mais chorar pra mim. Sentir dor pra mim. Escrever pra mim. Amar pra mim. Creio que tenha perdido completamente meu sentido narcísico.
- E a auto-estima, ó.
- Com certeza. Se me pedires para parar de chorar, eu paro na mesma hora, mas fica quase um coágulo no meu coração. Engraçado que eu não consigo voltar a chorar.
- É o teu armário das dores e angústias.
- A maior de todas foi hoje.
- Me toco, me toco.
- Vive trancado: só se abre pra colocar coisas novas dentro, depois que entrou, tenha zé pra abrir e tirar algo lá de dentro. É muito escuro, além do mais.
- Deus do céu, mas isso é horrível. Pra mim e pra quem tá perto de mim.
- Vala, por que ? Num é só tu que se fode não ?
- Não: um bebê completamente desprotegido, sem soldados nem forças para lutar, fica mais do que vulnerável a qualquer ataque, por mais frágil e insignificante que seja.
- Putz, é mesmo. Então fodeu.
- Fodeu. Que que eu faço ?
- Escreve e ama, criatura.
- Fácil falar. Eu preciso é de atenção agora. Mas devo ter muito pouca coragem pra pedir alguém ajuda. Não sei o que fazer.
- Mato sem cachorro. Não vale se suicidar.
- Não, suicídio não: seria egoísmo demais para com os meus queridos.
- ...
- Que foi ?
- E além do mais TU também poderia MORRER, né ?
- É, mas isso deve ser de menos: deixem que os mortos enterrem os mortos.
- O problema sabe qual é: tu tá se vendo como empecilho, como bagulho, como obstáculo, como troço, como coisa, como bicho. Num é assim. Tu és uma pessoa, nascida da natureza, criada em sociedade, versada nos princípios básicos do entreagir humano.
- Eu preciso de um abraço.
- Preciso é de umas peas, isso sim. Precisa de amor não: amor já tem. Precisa de colhões, de bolas, precisa se levantar e sair dessa caverna escura, abrir esse armário mais alguém.
- ...
- Você tem que se preocupar é com você: já dizia o Tio Hermes. "Você tem que se preocupar com você, preocupe-se com você que é o melhor que você faz."
- Mas e os outros ?
- Os outros se cuidam deles mesmos. Tu não é tão necessário para a existência das outras pessoas, criatura.
- É mesmo...
- Dã, lógico. O melhor que tu pode fazer é sem gentil e caridoso com os teus amigos. E a vossa amada. Ela, acima de tudo.
- Sim, com certeza.
- Acima de ti até.
- Acima de mim ? Mas eu não tenho que me preocupar comigo mesmo ?
- Sim, mas ela é tua maior influência sentimental: cuidar dela é o mais próximo que tu vais chegar de cuidar de ti mesmo, cuidando de outro.
- Boa...
- Humrum.
- Ufa...Me sinto melhor. Mas a gente nem discutiu a minha universidade.
- Cara, tu vais terminar este teu curso, pra - que nem disse a Dona Lourdes - arranjar o primeiro emprego, e depois tu fazes o que tu quiseres, especializa-te em qualquer coisa aí.
- Nem tenho mais certeza se quero fazer faculdade de filosofia.
- Vala minha nossa senhora, criatura, se decide ! Vai fazer mestrado em quê ?
- Putz, acredito que em lingüística textual.
- Mas só pra ter aula da Irandé ? Tu sabes qual é o objetivo do mestrado ?
- Acho que não...
- Afirma, porra ! "Sei não, caralho ! E daí ?"
- SEI NÃO, PORRA, BUCETA ! QUAL É ESSE CARALHO DE MERDA DE OBEJTIVO, HEIN ?
- Ah, assim sim, porra. O objetivo do fucking caralho do mestrado é sei lá.
- Arriégua.
- Pois é, mas eu sei que tu não pode se basear só em ter aulas com a Irandé Antunes.
- Pois é, me toco, me toco. Talvez em sociologia.
- Sociologia é lega, sociologia é legal.
- Muito provavelmente algo ligado à educação, cara. Disso eu tenho certeza.
- Que bom, que bom.
Beijos a todos e a mim e ao meu bebê. É que faz tempos que não mando beijos, e eu preciso como parte do meu tratamento auto-estabelecido.
Até o próximo post.
1.12.05
Déficits
2.Imagine um oceano todo azul, sem sujeiras. E alguém que não nada, mas entende um pouco de boiar, um pouco de remar, um pouco de olhar para cima e um pouco de lingüística - ou metafísica, como queiram.
3.Eu acho que perdi meus anseios. Cadê a minha busca ? O que eu devo procurar: preciso de mestres: os livros não me servem mais. Aliás, nem nunca me serviram: eu preciso de um mestre e de um abraço e de uma casa.
4.Onde está o meu Outro ? Deus do céu, em quem eu vou me fucking perder ? Eu preciso de um chocolate. E de alguém que arrume meus pensamentos. E de um ouvido agudo para os silêncios do meu infinito, que é bem pouquinho e fácil de ser entendido. O negócio é saber que ele está lá, para todo sempre, dentro de mim, quase pra fora: problema meu e dos meus dispositivos de defesa psíquicas.
5.Acho que vou surtar. Não gostaria de surtar, amigos. Não me deixem surtar.
E 6.Não me deixa surtar.
30.11.05
Nós
28.11.05
O Drummond entendeu
Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.
Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?
Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.
Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.
Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.
Carlos Drummond de Andrade
Sei que já disse que era do Drummond, mas esse nome do poeta é coisa linda de deus.
27.11.05
Meu porquê da monogamia
- Oi, bebê.
- Oi...A gente já tá saindo pra beber vinho e whisky.
- Que que vocês tavam fazendo ?
- Não, a gente tava debaixo das cobertas.
- Ah, tá bom.
E hoje ainda amanheceu chovendo: casamento da raposa.
25.11.05
Deculpem pela preguiça
[]'s
Quando bebê, quando eu
Tem alguns carros parando, parados no meio da rua,
mas isso não importa.
E existem aqueles que não acreditam em deus, mas isso
não importa.
Aqueles que supõem a vida como uma brincadeira de mau gosto, mas
isso também não
importa.
O que importa ?
Aquela lágrima, o silêncio e o motivo.
Canto as minhas angústias, minhas tristezas, meus cálculos, minhas teorias.
Canto aquilo que possuo, canto meu destino
...canto meu amor.
Não canto somente porque o amanhã vai chegar:
canto porque acredito no destino que vem de dentro,
porque acredito em Rainer Rilke,
porque acredito em Rubem Alves,
porque acredito na solidão,
na interação, nas ideologias, na intuição,
na subjetividade.
Acima de tudo, conheço minha prioridade: canto porque acredito.
E por causa daquelas melenas que derramaram um poço de angústia
dentro do meu. Da minha.
24.11.05
Uma citação
Rainer Maria Rilke
Uma coisa só que aprendi
Infelizmente existe final de semana.
Todo dia deveria ser amor.
Amor é um só.
Estar só é uma dádiva para poucos.
São os poucos que nos dão muito.
O muito está na natureza.
Eu estou tentando me voltar para a natureza, viu, Rilke ?
A angústia, descobri-a dentro do meu coração, mais sólida que nunca.
Interpretação é tudo.
Por isso que estou me voltando para as coisas que importam, pois elas que importam, dentro do meu coração.
As palavras não chegam no meu coração.
E é daí que vem a poesia.
Não sou capaz de escrever poesia.
Posso interpretar poesia.
Minha poesia é sem palavras. Está nos silêncios.
Nos interstícios.
Na música.
Na noite.
Tenho que adormecer e sonhar meu coração.
Porque é de noite que todas as palavras acordam.
23.11.05
Sobre as desculpas, notei que é um baita egoísmo pedir a alguém para tirar a culpa do seu ombro. Mas não gosto de estar certo quando o assunto sou eu.
(when you get what you want but not what you need)
(infelizmente, eu preciso de um abraço do meu bebê 24 horas por dia)
(eu sou um bebê)
(será que quando alguém chora e encolhe as pernas pra perto do peito, é porque quer voltar pra dentro do útero da mãe ?)
(hoje eu conheci a Irandé Antunes. Gente fina.)
(as falas dentro desses parênteses são minhas frustrações.)
(quanto mais eu leio sobre psicanálise, mais triste eu me fico)
(mas mais eu conheço sobre mim e sobre os outros...ou o Outro)
(Kramer x Kramer)
(acho que vou parar de colocar tantas frases intercaladas com aqueles dois tracinhos)
(não sei mais se quero ser entendido)
(eu não quero mais fazer faculdade de letras)
(eu ainda preciso de um abraço)
(eu queria estar dormindo)
(não quero mais ter sonhos ruins)
(blé)
(a fricativa chê do meu ânus é uma variante do vai-tomar-no-tchia de Cametá)
(já falei que não quero mais fazer letras)
(e do abraço ?)
(Eu vi um filme do Woody Allen: Trapaceiros ou Small Time Crooks)
(eu decidi que quero fazer mestrado em lingüística textual na UECE e faculdade de filosofia ao mesmo tempo, depois de terminar o cu-rso)
São várias suspiros: toda palavra é crueldade: nenhuma me deixa dizer como é estar triste assim Eleanorrigbyamente. Nem gesticular pra dizer como foi a emoção inominável de conhecer a poderosíssima Irandé Antunes.
Mais importante de tudo, porque me considero uma pessoa que sabe sua prioridade:
(tomara que meu bb tenha ouvido eu dar ciao pra ela)
20.11.05
http://www.leomartins.com
Amanhã haverá prova de fonologia do português.
Dois dias depois, prova de morfossintaxe
e dois dias depois, de sociolingüística.
Tinha algo muito bom para colocar aqui.
Tenho que voltar a escrever com mais freqüência: porque sim. Sinto falta das sílabas. Estou com abuso do meu curso de letras, com abuso das letras, dos professores, enfim. Mas as palavras, estas quero-as bem, muito bem. É quase amor (amor mesmo só pro meu bebê), e eu sinto como esse amor não me fosse mais tão necessário.
E isso é um crime. Creio junto com o Rainer Rilke: "basta achar que se pode passar sem escrever uma única vez para não ter mais o direito de fazê-lo."
As palavras me raptam, e o cativeiro é eterno, como de todo bom poeta. Não quero escapar da poesia ou do amor, e meu curso de letras está vestindo minhas palavras com teorias cinzas, idiotas e malcheirosas. Onde estão os lindos e macios seios das dissílabas ? Céus, o que aconteceu com o pescoço cheiroso das proparoxítonas ? Acredito na lingüística e minha crença na ciência está mais dilacerada que um McGould na casa dum Bullock, mas as palavras é antes de tudo poesia, meu caro. E se a ciência não se dá com a poesia por isso ou por assado, o problema não é da poesia mas de jeito maneira.
[]'s curtos, por voltarei num segundo.
16.11.05
Este lado para cima.
Dito assim, parecerá talvez que se trate de doenças. Não. São feitios de caráter normais, ou quase, onde os desvalores apontados comportam igualmente certas boas qualidades.
Fábio Herrmann, O que é psicanálise, Abril Cultural/Brasiliense, 1983
Tenho e tive problemas na fase anal-retentiva, está comprovado. Seguro bosta como ninguém: literalmente e socialmente falando. Não sou doente: me chamaria de inseguro. Chamei-me de covarde e continuo com minha convicção de que sou covarde. Meu ego é frágil. Tenham cuidado comigo, por favor.
E eu tenho consciência de que todo pedido é egoísta. Mas tenho de fazê-lo, desculpe-me.
[]'s
15.11.05
Mas chega de falar de mim
Existe o primário e o secundário, mas isso não é o mais importante.
Seguinte:
partindo do princípio de que somos receptáculos de energia,
e de que esta energia nos a colocamos nas coisas que nós gostamos,
e de que esta energia é finita,
e de que ela se origina de dentro da nossa cabeça,
e de que a nossa cabeça é subdivida em regiões,
e de que estas regiões são duas: o eu e o isso,
e de que é o isso que bombeia libido - a tal energia - pro eu,
e de que essa energia libidinal é bombeada por um motivo: para ser colocada em coisas das quais o eu goste,
e de que o eu não nasce completamente desenvolvido - nasce como um bebê, completamente indefeso e que precisa de cuidados e atenção,
e de que o eu, depois que fica com uma boa quantidade de energia, coloca essa energia nas coisas de que ele gosta,
e de que essa energia colocada nas coisas gostadas tem de voltar pro eu, porque ele cresceu e precisa dessa energia para colocar em outras coisas gostadas,
e de que o isso agora irá mandar libido para o eu por outro motivo: para que essa libido fique no eu, se acumulando,
partindo desses princípios, entendo o narcisismo como sendo esse acúmulo de energia no eu.
Metáfora:
Imagine que, todo dia, a tua mãe te desse dinheiro pra tu voltar de ônibus do colégio. Pois bem, depois que você fica grandinho e sabe, mais ou menos, o que quer da vida, ela decide fazer uma poupança pra você. E pára com o dinheiro do ônibus. Pois bem, todo o vosso dinheiro agora está se acumulando na conta da poupança - que é sua, mas quem fez foi sua mãe.
Isso tudo psicanaliticamente falando.
[]'s
13.11.05
Sobre o futuro
Vou terminar meu curso de merda de letras.
Sim: quero ser professor de português. Se me é necessário ter o fucking diploma para entrar na sala, que seja: terei o diploma, não terei o curso. Pois as letras, as minhas pelo menos, não ensinam porra nenhuma. Ou o conhecimento não me é relevante, nem válido.
Isso está decidido na minha cabeça, depois de muita elucubração. Vou terminar o curso de letras. O depois é o busílis. Que fazer ?
A primeira vista, decidi nem sair da UECE e entrar nas aulas de filosofia, mas o chamado do mestrado, tão valorizado no mercado educacional, me é forte também.
Depois de pensar sobre, vi que um mestrado nas letras me seria impossível de fazer: matar-me-ia antes de terminá-lo. Um pé nas bolas, deus me livre. Talvez um em lingüística aplicada, para ter o dulcíssimo prazer de uma aula com a Irandé Antunes. Talvez, sim. Mas é-me muito mais atraente uma pós em filosofia. Não sei a quantas pernas - bambas, presumo - anda o mestrado filosófico em Fortaleza, mas definitivamente filosofia; não letras. Ou até em educação, mas está parece-me mais prazerosa estudar sozinho, com os amigos.
E me vem à cabeça a psicanálise. Céus, alguém coloque rédeas no meu cérebro !
Um pensamento, último, não meu, sobre o conhecimento, que me norteia em minha querela particular.
Sapientia: nenhum poder,
Um pouco de saber,
o máximo de sabor...
Roland Barthes
9.11.05
Longo.
Toda essa minha inquietação é porque não aguento mais meu curso, ou minha faculdade.
Mas gosto das pessoas. Elas são legais.
O prédio, contudo, me lembra um presídio, os professores se perdem em questões irrelevantes. Ou não questionam coisa alguma.
Não entendo, sinceramente as palavras que aparentemente se deslocam para fora da boca do meu professor de morfossintaxe. E hoje ele pediu-nos para redigir sobre o mistério. Não fiz um texto de acordo com as normas acadêmicas, e eu ficaria preocupado, caso tal texto contasse como nota. Não contará, graças.
A cada dia que passa, entendo mais a relevância da forma do texto. Seria este o sentimento que o Olavo Bilac tinha quando decidiu escrever como escrevia ? Eu redijo estas palavras neste blog, mas morro de medo de ser interpretado negativamente. Sim, porque positivamente, todo comentário é válido.
Minha maior frustração - exagero; mas sem dúvida ocupa uma posição no Top 5 - é não saber me expressar claramente. Além de não conseguir entender textos filosóficos, justamente por esta minha burreza de cabeça de bagre. Desisti de ler "O Sofrimento Humano", do Sören Kierkegaard, por não entender o que ele falava quando dizia que o ser humano é a relação voltando-se para si mesma, em sua análise enquanto um sistema dialético ciente de sua existência, mas não só desta; ciente de que só existe enquanto relação de relação.
Ou algo assim, mas definitivamente não estava escrito desse jeito. Eu que passei para vocês como eu percebi o texto. E isso tudo nas primeiras três páginas.
Desisti também, hoje, do "Além do Bem e do Mal", do Niezsche. Novamente, por não entender o que seria uma "coisa em si" - apesar de ouvir várias vezes essa expressão na faculdade - e como ela seria uma contradição da nossa sociedade neoplatônica, que não é neo coisa nenhuma, é só platônica: aliás, nem platônica é, pois o Platão era um filho de uma gaita.
Contudo, o Nietzsche não é tão ignorante quanto eu achava que fosse; é, contudo, bem mais complicado do que eu pensava. "O Anticristo", outro livro que tenho dele, e que li inteiro, mas não entendi, é bem mais simples: consegui terminá-lo, ao menos. Entendê-lo são outros quinhentos.
A culpa, admito, é minha, por ter escolhido um curso tão chato. Um amigo meu do curso de Ciências Sociais - Paulo Massey, fantástico intelectual - disse-me, certa vez, que meu curso estava me limitando.
Com certeza. Mais do que certo.
Durante meu ócio criativo de hoje à tarde, percebi que entenderia Nietzche se estivesse fazendo uma cadeira de História da Filosofia, ou então se pudesse compará-lo com algum sociólogo em alguma cadeira das Ciências Sociais. Que me fossem dados os conceitos básicos, pelo menos.
Percebi, para meu sincero e profundo desespero, que o curso de letras é irrelevante.
Não me serve, não gosto dele, ele não gosta de mim, nos odiamos, somos incompatíveis.
Odeio os professores,
odeio a imagem do curso,
odeio a imagem que tenho por ser das letras,
odeio ter de me adequar as ubíquas "normas acadêmicas",
odeio ter de "escrever como se o leitor não soubesse de nada."
Sinto saudades da Jesus. Como sobreviver a um semestre em que não se espera por nenhuma cadeira ? Sabe aquela aflição, aquela ansiedade de "amanhã é aula do fulano ! Graças a deus, finalmente", sabe ? Pois é: neste semestre, ela fugiu da minha pessoa, escondeu-se nos cafundós do meu inconsciente e ficou por lá, plantando bananeiras e eucaliptos.
Achei milhares de livros do Paulo Freire aqui em casa, mas tenho de ler os textos de literatura comparada, de fonologia, de morfossintaxe - que nunca peguei, desde o começo do semestre - de sociolinguística - que há uma trabalho de campo para se fazer, e eu ainda não achei quem pudesse ser minha entrevistada.
Achei um livro que o Rubem Alves cita no "Conversas com quem gosta de ensinar". Do C. Wright Mills, é o "A Imaginação Sociológica". Depois de também desistir de ler a "Pedagogia do Oprimido", por pura fraqueza de espírito mesmo, fui dar uma olhada no índice: para aumento de minha tristeza, pareceu-me um curso de introdução às ciências sociais. Fechei o livro.
O Rainer Maria Rilke diz para gente olhar para dentro de si e fazer uma obervação: não uma análise, mas sentir o que nos faz bem, sobre o que podemos falar, o que nos faz felizes. Uma aula de poesia, uma aula de vida. Claro que ele não se expressa com essas palavras. Infelizmente, também não tenho coragem de terminar o livro - que é minúsculo.
Ah, e minha última frustração: jurei que não compraria mais livros além dos acadêmicos pedidos pelos professores. Traí-me: comprei o "Além do bem e do mal", que desisti de ler no mesmo dia.
Teria um colapso nervoso se não houvesse uma bebê na minha vida.
[]'s a quem leu o post e ouviu minhas inquietações pouco lógicas e desorganizadas.
4.11.05
Fotografia
Dois:
Ela, de melenas contra o meu rosto,
olhos curvos, sorriso largo, alegre verdadeiro.
Eu, de óculos arregalados: meus olhos não enxergam.
Fazendo careta, costume infatil e necessário,
porque não quero crescer.
Deus me livre.
Minha dona: tão bom pertecencer àlguém.
O amor é degustado como um pratão de um quilo,
daqueles que o meu pai pesa quando vai comer fora.
Muito amor, muitos meus:
pela união da primeira pessoa,
contra a dicotomia do nós, do plural,
muitos meus se amostram, se falam,
registram, até na foto-grafia,
o amor que é único porque é de dois em dois.
Ele anda de mãos dadas consigo mesmo,
e nós todos somos marias
que seguimo-lo, cegamente - de outro jeito não presta.
Amor é dois, é único, é universal.
Amor não é só um, só dois.
(é só uma)
Amor não tem forma só-um:
tem forma só-várias.
Amor é que eu quiser que seja;
é como nós vemos.
Desculpa, Bandeira,
mas alma ama, sim.
Essas janelinhas, elas é o amar quem abre,
e aí pronto.
O amor está nos olhos de quem vê.
E a foto-grafia, embora presa pela moldura,
foi escrita com libertas, harmoniosas rimadas de luz,
e só de ver o rosto do meu bebê,
já dá vontade de sorrir e mostrar os dentões.
Porque amar é olhar.
Sobre aquela propaganda
3.11.05
Vou postar intermitentemente aqui
[]'s
1.11.05
Sem paciência
Não tô com saco de comprar livro. Nem de começar a ler outros diferentes do que estou lendo. Estou sem base teórica ou bibliográfica. Não tenho um mentor. Só tenho indicações de amigos. Tenho que terminar de ler os que eu comecei e cheguei no meio. Tenho que ler os textos de literatura comparada - que, infelizmente, não acrescentam nada na minha vida - e de literatura brasileira: conto: esses são mais fáceis porque são literários, não teóricos. Mas ainda assim, eu não aguento mais ler Machado.
E eu parei de comprar livros. Não compro mais livros esse semestre. Só os que os fessores mandarem. Pelo menos, eu acho que comprei todos da bibliografia da Jesus, o que já é bastante coisa.
Nada a acrescentar na vida do pobre leitor: só mero desabafo contido. Que este post seja ignorado. Amém.
