Produto da aula hoje de Estilística: a professora falando de fono-meus-ovos-estilística e nós brincando dissaí.
14.3.07
doze contos de dez palavras
Produto da aula hoje de Estilística: a professora falando de fono-meus-ovos-estilística e nós brincando dissaí.
12.3.07
shake it all, baby!
5.3.07
minicontos, nanotales
E também que estes microcontos fit beautifully into a blog. E ela está certa: os parágrafos quadradamente posicionados na tela, as linhas duplas formando retângulos: tudo geometricamente estetizado.
Contudo, claro que não tem somente coisa boa: Jules também fala da aflição que sente ao ouvir que os nanotales são perfeitos para estes nossos tempos globalizados, na qual tudo é em pílulas, em doses homeopáticas e o DDA corre solto. Em inglês.
4.3.07
prosa boa é que nem vidraça
1. Egoísmo puro e simples
2. Enlevo estético
3. Impulso histórico
4. E propósito político
Não termina nem começa por aí: o escritor inglês também fala de suas poesias, da guerra civil espanhola e de suas esquisitices infantis. Em inglês, com bigodinho e tudo.
!
1.3.07
Blogosferiando
Do ótimo Bandeira ao Vento, blog português, o qual o autor teve o pau-no-cuzismo de retirar os comentários. Good still, as you can see.
27.2.07
26.2.07
25.2.07
uma personagem
Seria uma tardinha excepcional, já que minha personagem não se entediaria com freqüência: seria dona-de-casa, enquanto o marido que eu lhe daria seria médico - clínico geral - e, neste momento inexplicável de tédio de minha personagem, estaria ele no consultório, consultando. Seus três filhos, todos de idades distantes, seriam uma menina, um rapaz e um jovem homem, estudante de medicina. Quanto aos afazeres domésticos de minha personagem, estes comeriam, se não inteira, uma bela fatia de suas horas, não sobrando migalha que fosse para ocupar com aquele inesperável tédio de agora.
Prontinho: com minha personagem localizada numa varanda, com três filhos, um marido médico e um tédio ensandecedor, posso deixá-la existindo, perscrutando a calçada inflamada com a cacofonia dos passos, naquela tarde amarela, tão, inexplicavelmente, tediosa.
A idéia eu roubei daqui. Com todo respeito.
24.2.07
De dentro do Aurelinho
lân.gui.do adj. 1. Sem forças; fraco, debilitado, langoroso. 2. Mórbido, doentio [Antôn. (de 1): enérgico, robusto; (de 2): saudável; sadio.] 3. Voluptuoso, sensual, langoroso.
Fantástico, não?
23.2.07
Te quiero infinito, honey baby
Yo no lo sé de cierto
Yo no lo sé de cierto, pero supongo
que una mujer y un hombre
algún día se quieren,
se van quedando solos poco a poco,
algo en su corazón les dice que están solos,
solos sobre la tierra se penetran,
se van matando el uno al otro.
Todo se hace en silencio. Como
se hace la luz dentro del ojo.
El amor une cuerpos.
En silencio se van llenando el uno al otro.
Cualquier día despiertan, sobre brazos;
piensan entonces que lo saben todo.
Se ven desnudos y lo saben todo.
(Yo no lo sé de cierto. Lo supongo)
22.2.07
apreciação descompromissada
ga.ro.to (ô) adj. 1. Que brinca ou vadia pels ruas. - sm. 2. Rapaz que vadia pelas ruas 3. Bras. V. menino.
es.fínc.ter sm. Anat. Faixa anular de fibras musculares que, ao relaxarem-se ou contraírem-se, regulam o trânsito de vários ductos naturais de corpo. [Pl.: esfíncteres.] - es.finc.te.ria.no adj.
E o menino de barriga com raio infinito. Surge-me uma vontade de falar mal, tão normal, tão automática, imiscue-se no canto do meu olho, o qual vê a barriga preenchendo a cena: o menino com o dedo na boca. Olha para um lado. Ao outro. Encontra-me. Fita-me e percebe sua barriga capturada na minha íris, no branco dos meus olhos, em posição de combate, guerra que não quero e fujo, para meus livros. Volto meu olhar para dentro do ônibus. Tento mudar o de dentro outra vez e continuo sem entender.
Sexo em flexibilidade esporrante, atrás de véus: sexo de soslaio: voyeurismo acidental. O nome fálico, meio-alemão, grande, como um touro: da disney, porque corno manso e desajeitado: ômi mole réi.
Um garoto-abertura, esse de ouro: abre-me - abre para mim. É um pórtico, no meio da rua, fora dessa realidade, fora dessa rua, longe da Linha Amarela. Seria divino, não fosse sua barriga grande, de curva, o dedo na boca; a distância do mundo - não pela santidade: pela fome. Esse meu minimo, de ouro, não quer-se porta, não deseja abrir a minha mente para o tudo do mundo: capturei sua curvatura no meu olho - quer, como eu, um pedaço de Terra só pra ele, longe daqui, onde ninguém pode nos pertubar, onde ele vai poder comer em paz. Comida de marmita mesmo, que self-service é chique demais pra traição e miséria. Presse mundo aqui. Só nos livros, longe daqui, da Linha Amarela.
21.2.07
volta do carnaval
O sentido, meu povo. Não a música.
12.2.07
outra brincadeira: mexendo com o dos outros
Sempre lamentei muito essa lacuna dos navios: tão navios que são masculinos e terminam em O, que só não são maiúsculos por falta de regra, mas não deixam de ser belos e bonitos, e até encontram-se traços e laivos femininos: brinco na orelha, cílio arrebitado, radiando como uma manhã: lindas são todas as manhãs femininas em que acredito na lealdade das pedras, nos meios dos caminhos, tropeçando em espelhos, em mins-mesmos; trezentos e cincoenta mins procurando cola e fio-condutor - ou pára-raio. Parte de mim, para chegar em mim, navegando no meu navio, a procura de mim, sem saber que estou atrás de mim mesmo. Meu amor por mim, nas últimas profundezas do galeão, é-me incognoscível. Minhas tristes noções de honra são o amor que tenho a meus espelhos.
Quanto ao resto, o resto é (silêncio? não, não) canção e música, longe de apreciação, crítica, pitaco.
11.2.07
brincadeiras, exercícios
E o vermelho e o negro abarcaram toda a imensidão daquilo que podiam abarcar: acabei-me invisível, como a linha do horizonte, existindo por oposição.
***
início (+ - 23:50h)
Sangue da boca é
sangue na boca sangrenta
da bocarra sanguinolenta.
Sangue bucal
no sangue bucólico.
Bucolismo venéreo é
verdade de sangue.
Da boca, de sangue,
sai verdade, mentira
tudo de sangue.
Sangue, na boca de sangue,
é sangue da boca
do mesmo jeito.
término (+- 23:59h)
7.2.07
4.2.07
1.2.07
31.1.07
28.1.07
Era manhã, mas havia ido dormir somente às três da madrugada do mesmo dia. Não havia escovado os dentes ou tomado banho. Não tirara as calças. Os cabelos pregados nos lábios. Era manhã, mas ainda não queria se levantar.
Tenho um arquivo que chama "doodles", só de coisas jogadas, palavras perdidas e frases tentando formar um texto; tem uns que mexo pouco, tem outros que mexo muito. Tem uns também que eu não tenho paciência de mexer: posto logo.
Oi? Ah, sim: também te amo. Outro.
21.1.07
estorieta
20.1.07
18.1.07
14.1.07
A Legião Estrangeira
Uma pequena patrulha comandada pelo Capitão Danjou, formada por 62 soldados e 3 oficiais, foi atacada por 3 batalhões mexicanos, compostos por infantaria e cavalaria, forçando-os a se defender na Hacienda Camerone. Apesar de estarem em completa desvantagem, lutaram até o fim. Danjou foi mortalmente ferido durante a batalha, e seus últimos homens executaram um último ataque com suas baionetas.
Restando apenas três legionários, os soldados mexicanos ofereceram a eles uma oportunidade de rendição, que eles só aceitariam se pudessem voltar para sua base com sua bandeira e o corpo de Danjou.
Ao ver sua bravura, o comandante mexicano comentou: "Eles não são homens: são demônios". E concordou com as condições dos franceses.
***
Ele morava nos túmulos e ninguém podia prendê-lo, nem sequer com uma corrente. Pois fora muitas vezes preso com peias e correntes, mas rompera as correntes e arrebentara as peias; ninguém tinha força para subjugá-lo. Noite e dia, ele andava incessantemente pelos túmulos e montanhas, soltando gritos e dilacerando-se com pedras. Ao ver Jesus ao longe, ele correu e prostrou-se diante dele. Com voz forte, ele clama: "Que tens a ver comigo, Jesus, Filho do Altíssimo? Conjuro-te por Deus, não me atormentes". Pois Jesus lhe dizia: "Sai deste homem, espírito impuro!" Ele o interrogava: "Qual é o teu nome?" Ele lhe respondeu: "Meu nome é Legião, pois somos numerosos". E ele lhe suplicava com insistência que não o expulsasse da região.
***
Se me perguntassem sobre Ofélia e seus pais, teria respondido com o decoro da honestidade: mal os conheci. Diante do mesmo júri ao qual responderia: mal me conheço - e para cada cara de jurado diria com o mesmo límpido olhar de quem se hipnotiza para a obediência: mal vos conheço.
13.1.07
Vermelhismo: mais ainda.
- Desde quê.
- Não foi uma pergunta.
- Não respondi.
- E o desde quê?
- Depende.
- Depende de quê?
- Quer que responda?
- Já perguntei.
- Depende de você.
- Que tenho de fazer?
- Abrir com as mãos, caminhos... nos meus cabelos.
10.1.07
Na verdade, todos os versos são uma desculpa pra chegar no último, que não é meu.
pegou a bolsa vermelha;
a calcinha vermelha;
as luvas vermelhas
e o batom vermelho.
Não me disse até mais,
nem obrigado,
nem volte sempre,
nem vai te fuder, seu pervertido suburbano:
ficou perdida pelas esquinas luminosas,
pelos carros importados.
Ou usados.
Fiquei no chão,
com o braço direito dormente,
a coxa direita com câibra;
fedendo a sexo,
olhando o quarto minguante pela janela semicerrada:
perdido entre o orgasmo e o sono;
entre meus reais ausentes
e o pagamento do motel;
enfim:
entreanoitequevaieodiaquevem.
8.1.07
Meu lado nérdico.
6.1.07
Aqui dentro tem cachorro bravo
Leu de novo: Cuidado. Cachorro. Bravo. Bravo. Cachorro. Cuidado.
Intrigou-se. Não havia cachorro bravo com o qual deveria tomar cuidado. Nem no quintal, ou dentro da casa, ou aos pés de alguém se balançando na cadeira de balançar, para lá e para cá. Nada. Só o aviso. Cuidado, meu caro, que aqui dentro tem um cachorro muito bravo! Olhou de novo. Zero, só o cuidado cachorro bravo. Mas não tinha cachorro, e nem ele era bravo. Talvez nem aviso tivesse, no final das contas.
Então piscou os olhos, coçou a nuca, e quando despiscou e descoçou, tinha quatro patas, um belo pêlo marrom, caninos afiados e era bem bravo.
4.1.07
- Vou nada, Lara: vou dormir.
- Mas por que? A senhora num queria o pc?
- Quero mais não. Tô com sono.
- Mas por que?
- Porque ora, não quero mais.
- Mas eu já fechei as coisas lá, pra senhora usar.
- Mas se eu fosse usar, não era pra ter fechado.
- Eu fechei a net, mãe.
- Eu ia usar justamente a net.
- Era só logar de novo, grande merda.
- Não quero mais o computador: pode usar.
- Mas por que?
O pai se intromete:
- Porque ela não quer mais, Lara, ora! E feche essa luz!
- A senhora tem certeza?
- Tenho. Feche a luz.
- Tá bom. Não diga que eu não colaborei depois.
E a menina Lara retornou ao seu papinho madrugal pela net relogada.
The End.
1.1.07
Primeiro post do ano
Mas isso não importa. Não importa que aqui você encontrará o primeiro post do ano, e todas as outras que você quiser encontrar, além do primeiro post do ano; não importa se você não se encontrar aqui, ou em outro lugar; também não importa se você não encontrar aqui o primeiro post do ano: o que importa é que você tem que se decidir, you've got to let me know, should I stay or should I go?
23.12.06
Três temas, dois meus.
Palavra. Não me vejo na carne; transparente, me confudo no reflexo da lua cheia. Meu sangue são versos inacabados: é nele que sinto, que me sinto real.
Solidão. Sou um lobo noturno, silencioso, deslocado. Sinto o cheiro de sangue, largo-me aos instintos, caço minha presa, arranco-lhe a pele do pescoço, vampirizo-lhe. Faço minha parte.
21.12.06
20.12.06
8.12.06
20.11.06
20.9.06
1.9.06
Caio.
ri.bei.ro sm. Rio pequeno; córrego; regato, riacho.
Ele disse que ia curar todo mundo. Ele disse que ia curar todos. Acreditem, e conseguirei, ele disse. Tenham fé, ele disse, tenham fé em mim, e conseguirei, ele disse. Ele disse que ia andar sobre as águas, ele disse. Ele disse que ia nos curar a todos, ele disse. Ele falou da visão que tivera, da cura que lhe fora dada de presente, como antes, ele disse. Ele disse, ele prometeu que ia andar sobre as águas salgadas da praia, ele prometeu. Ele me disse que ia voltar, ele disse. Ele me prometeu que ia voltar. Ele me olhou nos olhos, beijou minha testa e foi-se embora, sem cura, sem volta.
28.8.06
Nevava fora da sala; as janelas haviam sido trancadas; as cortinas ainda estavam abertas; as paredes do quarto eram da cor de musgo; não havia luz no teto; não havia enfeites na mesa. Retangular e marrom, bastante prática. Algumas cadeiras igualmente simples; uma estante escassa de livros e um criado-mudo com um abajur desligado.
Começam a chegar homens bem vestidos, de ternos cinzas, negros e azuis. Cado um arruina o silêncio ao puxar a cadeira de modo observar todos os rostos. Ninguém nas pontas.
Todos se levantam, saúdam o último a chegar e principiam os arranjos para.
25.8.06
23.8.06
A história da minha vida
O meio seria a descida da montanha russa: tudo é muito rápido e tem que reler aquela parte pra entender quem comeu quem e quem dispensou quem e da onde veio aquele telefonema e com que propósito.
Quero uma história fantástica, baseada em fatos reais.
Infelizmente, tenha somente um começo fraco, um nascimento; uma infância inócua, e uma adolescência sem altos nem baixos. Posso esperar por uma maturidade anódina e seca, sem grandes doenças, sem grandes conquistas. Finalmente, uma morte fraca e previsível. Nada de continuação depois: seria um fracasso de bilheteria.
E não se engane: eu sou o vilão. O fétido e verruguento vilão de nariz adunco.
10.8.06
8.8.06
6.8.06
Depois de muita deliberação...
2.8.06
Um cachorro reclama do que não viu; alguém dorme coberto por jornais, nas escadarias da universidade. Os portões negros do prédio rosa fecham às seis horas da noite. O centro da cidade demora mais para calar-se. O vento abre caminho pelas frestas, procurando quebrar o muro da conivência; o vento quer nos mostrar o homem por debaixo dos jornais, quer que ouçamos os portões negros trancados, guardando o quê? O vento soa pelas frestas da cidade, mas ninguém o ouve. Somente as nuvens são testemunhas do calafrio de alguém.
...Um grito rouco.
1.8.06
31.7.06
25.7.06
Credo em cruz
something wicked this way comes.
***
Os dedões de meus pés estão formigando.
Algo de muito ruim está nos alcançando.
18.7.06
Quero esse mundo bombardeado, quero parar de chorar, quero parar de sentir-me nos outros, quero a verdade que sei inominável, ou quero ao menos um paliativo, um coquetel de certezas com doses homeopáticas de tudo-bens e vamos-ver-o-que-o-futuro-aguardas. Não sei o que quero desse mundo, ou dela, ou de mim. Não sei se quero. Não sei. Não.
13.7.06
Talvez queira convencer-me, falando tão alto assim. Não há raiva. Não há nada. Há, sim, um vazio que explode por puro clichê no peito. Um nada cansadinho e entorpecido pela brancura da vida, um nada desses no qual se tropeça pela rua; um nada de nadica de nada. Não, não, não há saudade: este vazio não é saudade. Há talvez uma ausência de esperança; uma desesperança tão gritante, tão glamourosa que faz querer gritar, destrinchar uma cadeira e despejar socos em postes de luz, para ver se volto a enegrecer, para ver se o mundo cega. Desesperançado e com certezas de grossura rochosa, absurdo como qualquer pessoa, tentando nadar sempre em frente: não fenecer como um tubarão que desiste de se alimentar. Não, não há raiva, e não sei onde estou-me, se num cruzamento, se numa ladeira. Não voltei, sei disso. Por ora, contento-me em entristecer o olhar, em patentear algumas rugas, em observar a latência do corpo, esperar que esquente outra vez. Esperar o eterno retorno de uma força vinda do silêncio para realizar as pequenas coisas: colocar a comida do gatinho, ligar a televisão, passar a página, reler o parágrafo, pequenos fazeres. Nada demais. Talvez ainda haja misteres.
10.7.06
Albert Camus
Eu acreditaria somente num Deus que soubesse dançar.
Friedrich Nietzsche
Deus sem você é Deus. E você sem Deus é o quê?
Adesivo de carro
deus sm 1. Ser infinito, perfeito, criador do Universo. [Com inicial maiúscula] 2. Nas religiões politeístas, divindade masculina superior aos homens, e senhora dos destinos da vida.
4.7.06
1.7.06
28.6.06
Um texto não meu.
No segundo parágrafo, sinto-me no dever de avisá-la que ela continuará sem olhar pra mim. Aliás, ela só vai levantar o queixo quando retomarmos o começo disso daqui. Mas isso fica pro último parágrafo, que tal? Não importa, já disse que quem decide sou eu.
Neste terceiro parágrafo se dará todo um jogo de conversas e sombras, do entredito ao não dito, quase como que subir um rio com pouco diesel sobressalente. Acho bom avisar que o primeiro "Deus" que ela disser é um vocativo, foi que faltou uma vírgula. Mas isso só conta se você entendeu até aqui. Acho melhor ir logo ao diálogo, por favor. Mas antes, pelo prazer de entender melhor as coisas, queira dar uma olhadela nessas definições:
Mo.nó.li.to sm 1.Pedra de grandes dimensões. 2.Monumento feito de um bloco só de pedra.
O.dis.séi.a sf 1.Viagem cheia de peripécias e aventuras. 2.Série de complicações ou ocorrências variadas e inesperadas.
Engraçado: uma feminina e o outro masculino. E também ajuda a entender quando se vê que, embaixo de "monólito", no dicionário, tem "monólogo.
Obs. necessária: não há datas, então procure "monoliticismo e odisséia."
22.6.06
traições.
Teve a boa sorte de não encontrar na escada a senhoria, que morava no andar inferior. A cozinha, cuja porta estava quase sempre aberta, dava para a escada. Toda vez que o rapaz saía, era obrigado a passar por ali, o que fazia experimentar uma forte sensação de covardia, que o humilhava e o fazia franzir o sobrolho. Devia uma soma importante à senhoria e receava encontrá-la.¹
***
Nos começos de julho, por um tempo extremamente quente, saía um rapaz de um cubículo alugado, na travessa de S..., e, caminhando devagar, dirigia-se à ponte de K...
Discretamente, evitou encontrar-se com a dona da casa na escada. O túgurio em que vivia ficava precisamente debaixo do telhado de uma alta casa de cinco andares e parecia mais um armário do que um quarto. A mulher que lho alugara, com refeição completa, vivia no andar logo abaixo, e, por isso, quando o rapaz saía tinha de passar fatalmente diante da porta da cozinha, quase sempre aberta de par em par sobre o patamar. E todas as vezes que procedia assim sentia uma mórbida impressão de covardia, que o envergonhava e fazia franzir o sobrolho. Estava zangado com a dona da casa e tinha medo de encontrá-la.²
1. Tradução de Ivan Petrovitch e Irina Wisnik Ribeiro.
2. Tradução de Natália Nunes.
Dois primeiros parágrafos de Crime e Castigo. Batidos me esforçando para não olhar pro teclado.
9.6.06
Diálogo construtivo.
- Dá pra todo mundo, mulher!
- Todo mundo é pouca gente.
8.6.06
7.6.06
1.6.06
30.5.06
17.5.06
Não sobreviveria sendo assim, vivo sendo assado, e me estrepando quase masoquisticamente.
Por quê? Quem se importa com coisas importantes? Todo mundo - e quando eu digo todo mundo, eu não quero dizer todo mundo - só quer saber dos problemas que o olho pode ver - e problema é uma definição subjetiva e completamente guiada por uma moral construída e aceita.
Aí, quando eu tento ajudar, abusam da boa vontade, e derrubam os problemas em cima da minha caçambinha míuda - afinal, não tenho problemas, e se tenho, não são tão gigantescos e não merecem a mesma primazia e a mesma gravidade que estes daqui. Passei a minha vida inteira sem poder fazer o que eu queria, sem poder falar direito com a minha mãe.
- Ave maria, menino, pára! Tu tá parecendo o teu pai!
- Affe, caio, tá ficando igual teu pai!
- Isso aí é coisa do teu pai! Olha a besteira!
E eu? Será, porra, que eu, nenhuma vez na vida, posso ser parecido comigo mesmo? Será que eu vou sempre ter que viver em função do meu pai, ou do Leonel, ou de qualquer outro que chegou primeiro e arruinou tudo? Por que quando eu tento ajeitar as coisas, todo mundo reclama? Por que quando eu falo o que eu penso, ninguém aguenta e joga o meu discurso no boca de quem não presta? Eu não sou uma pessoa legal? Cadê eu?
14.5.06
I
Saiu correndo: que nada na sala era dela.
É como xadrez, olhares tornam-se peões; os reis são o seu orgulho; as rainhas são as músicas e o os mitos que guiam. E nossos atalhos:
- Atalho é falácia.
Mas não vou discutir a existência de atalhos. Aqui não. Aqui, ela fugiu.
Deixou a porta quase aberta, e atravessou o corredor verde amarronzado. Não cito a luz vermelha por medo de cegá-lo ou pra ficar mais difícil de misturar o verde com o marrom e depois com o vermelho. Pode imaginar só com o verde amarronzado, ou verde-marrom, como era de primeiro. Eu não me importo. Me importo com o fato dela ter saído correndo, feito louca.
Ela saiu, e eu pude ver a lâmpada redonda quase caindo do teto. Ela continua a ir mais longe daqui, mas ainda quero falar da luz:
Era bem solta. Piscava. Inter. Mitente. Mente. Todo dia, toda hora, toda entrega, toda saída, toda porta semicerrada. Todo mundo tinha medo de chegar de madrugada para aquela luz piscando e cegando e piscando junto com o olho da gente como se lâmpada também lacrimejasse. A esclerosada do andar de cima jurou que, uma madrugada dessas, viu uma gota avermelhada no chão do corredor.
Da mulher: ela, que agora já está bem longe do corredor e da porta entreaberta; que está entrando no carro com alarme eletrônico e constatando que não havia gasolina pra chegar em casa.
Não vou contar o motivo de tanta correria: esta estória de mentira não se faz de porquês. Os porquês estão atrasados e o pensamento não pára pra eu ficar catalogando tudo que já aconteceu. Se for fazer flashback, quando chegar na parte boa, tudo já terá acabado e os dois que estavam na sala com a porta que agora já fechei, já terão se ido fazer sexo-pra-fazer-as-pazes.
8.5.06
Comentário.
Paz. [Do latim pace] S. f. 1.Ausência de lutas, violências ou perturbações sociais; tranqüilidade pública; concórdia, harmonia. 2.Ausência de conflitos entre pessoas; bom entendimento; entendimento, harmonia. 3.Ausência de conflitos íntimos; tranqüilidade de alma; sossego. 4.Situação de um país que não está em guerra com outro. 5.Restabelecimento de relações amigáveis entre países beligerantes; cessação de hostilidades. 6.Tratado de paz. 7.Ausência de agitação ou ruído; repouso, silêncio, sossego.
Não simpatizo com a idéia de me forçarem tudo isso aí em cima goela abaixo. Não que seja algo ruim, mas não sejamos fanáticos. Deve haver melhores meios de se chegar – se é que há um caminho - lá – se é que é um lugar - do que por alguma ditadura com poderes hipertrofiados.
Não é à toa que paz é feminino. Como a verdade, ou a beleza.
5.5.06
Impressionismo.
Estávamos de pé, na varanda da casa. Final de tarde. O céu arroxeado, que eu sempre acreditei ser uma cor alegre. E minha mãe não segurava minha mão, como era costume; sem conselhos ou sermões, nem das coisas que deviam ser feitas. Não mais. Duas mulheres de pé numa varanda, frente para a praia, tentando enxergar as ondas entre as espumas brancas. O céu roxo.
Foram chamar. Era hora, mas nunca a que eu queria.
- Vamos, filha.
- Vamos sim.
Ela foi logo, mas eu tinha que ficar um pouco mais ali, observando o que o mar e o mundo me davam, que talvez eu nunca ganhasse de mais ninguém. Nem mesmo do meu noivo. E nunca ganhei realmente. Nem haverei de ganhar, sem a menor dose de pessimismo. Pensava essas coisas, porque ainda não havia, com vinte e dois anos, descoberto o péssimo do mundo. Desconhecendo-o, fui-me pelo corredor de paredes rosadas.
2.5.06
29.4.06
24.4.06
Gostaria de ficar cego pras minhas palavras; observar o vôo delas, bem longe daqui, no barbante do horizonte, depois do mar, antes do sol, que é pra não se queimarem - palavra não tem protetor solar. Elas queimam, e só quem lê sabe como queima. Quem bota no papel é só um botador, um colocador de coisas nos lugares certos: eu gosto mesmo é de ler.
Mas sou injusto conosco. Nós temos um pouquinho de trabalho - ou labor, ou ação, que o valha - temos que sentar, olhar o caderninho de anotações, procurar o sentimento pra emendar nas palavras, desembestar, parar, tomar um copo d'água - alguns tomam Coca-cola com creme craquérs - olhar, ver a merda que saiu, tentar encontrar algum valor e sair futricando até conseguir ficar só com uma carta na mão.
Escrever é jogar mexe-mexe. Mas isso sou eu.
E queimam porque acendem o fósforo de dentro da gente.
20.4.06
19.4.06
Filosofia da Burrice: um adendo.
Um pós-cartesianismo, para colocar o prefixo da moda. Uma filosofia das certezas, dotada de dúvida saudável e consciente de seu próprio nariz de palhaço. Além do espírito de gravidade. Esta burrice encontra-se embasada no si-mesmo de nós-todos.
Como direi? Disse-me, e ouvi:
Uma Burrice pragmática, pois não, que renuncia, sempre que o é devido, à infinita capacidade de abstração intelectual humana com o intuito de, mui humildemente, prognosticar as coisas com o que há de mais réles no pensar.
Burrice, além de tudo.
16.4.06
porque todas as coisas
já terminaram.
o término eu consigo enxergar:
ele chega bufando, batendo o pé,
gritando que acabou.
O fim é um silvo da floresta noturna,
é um sopro na lagoa parada,
é uma jangada em alto-mar.
...mulher...
As coisas acabam
depois que enxergo no horizonte
um sorriso de criança
e um suco de maracujá gelado.
15.4.06
Poesia kamikaze e arregaçada.
Chega de tanta babaquice.
Eu quero é que o mundo se exploda
Numa implosão de sem-vergonhice.
14.4.06
Já parou para pensar que talvez a vontade de escrever e a inspiração não sejam tão amiguinhas quanto a gente pense? Quantos textos devem ter sido escritos como se o escritor estivesse empurrando um carrinho de mão cheio de areia vermelha? E chegasse lá, ainda tivesse que remexer na areia, misturar com água, fazer um buraco - não nessa ordem - pra só depois levantar o muro. Já pensou num negócio desses?
10.4.06
9.4.06
Quero ver como a Clarice.
Quero almas tão grandes
que não caibam nelas nem toda a estória
da história.
Quero um pouco do mar Egeu
nas minhas lágrimas européias.
Eu quero um pouco da Amazônia
no meu sovaco fedorento.
Eu quero pensar na minha terrinha
como um lugarzinho bom de viver e fazer poesia.
Mas quem escolhe não sou eu:
são elas, que fazem isso daqui.
Tenho que me cegar,
e me privar de toda sanidade,
de todo bom senso,
de toda razão,
de toda lucidez
e,
então,
deste modo,
com todas as forças,
finalmente,
Poderei ser quem eu quero ser.
Nem que seja só por uma
verdade inventada.
7.4.06
A minha roupa é verde com vinho. Não tenho queixo, o nariz é empinado e os olhos fechados. Anuncio, a criatura entro e ou fico - de olhos fechados - parado, ou me retiro e espero alguém mais chegar. Um anunciador, de calças apertadas e olhar lunático, quase de bobo, mas o bobo é outra coisa, que eu já explico.
Vou explicar o bobo, mas primeiro vou dizer porque não me considero um: é que bobo é chamado pelo Rei quando não tem mais nada pra fazer; quando o Rei reina, mas quem governa é o imperioso tédio. O Bobo diverte e subverte, que a loucura dá à ironia uma máscara de sorriso de criança, e toda criança é louca: louco pode tudo. Lacan dizia ter cinco anos. Abirobado.
Pois bem, acabei dizendo o que era o bobo antes de me justificar. Faço-o agora: não sou bobo - bobos também são anunciados. Eu sou aquele que deposita a presença e sai de fininho. Eu sou aquele que a qualquer momento pode ser esquecido numa viagem à outro castelo estrangeiro. Quando a Corte precisa cortar gastos, adivinha quem vai primeiro? Vós sois as palavras, passíveis de anunciação; eu, os outros. E os outros são vazios e tão pequenos que.
5.4.06
Pergunta cavalar.
Eu quero uma história. Alô? Tem alguma história aí? Só de pepperoni. Calabresa? Não, calabresa tem não; tem pepperoni. Que que tem na de pepperoni?
Um bocado de silêncios e vazios e personagens desagregadas, que herdaram uma tradição ensaística dantesca e que não preza pelo sentido. Nem sei praquê o dantesca.
3.4.06
O Biquíni Rosa.
Aquela pecinha foi de uma jovem, que agora já é adulta, e que não tinha mais utilidade pro biquíni. Dentro do ônibus, com uma sacola velha, indo pra casa do terceiro namorado, encontrei, já perdido, o biquininho no meio do batom vermelho, do perfume, da calcinha, do sutiã. Não se lembrava a quem pertencia. De ninguém. Fora. Pra rua, é encontrado pelo escritor, aprisionado nas palavrinhas rosadas com bordas brancas.
Mentira tudo isso: o biquíni era é de um menino. Menino homem, macho, viril, que com doze anos já havia perdido o cabaço, como diz um amigo meu eu não vejo faz um tempo. Perdido o cabaço, ele saiu correndo da casa da menina, tropeçou na vestimenta, ouviu o ranger da porta, correu, saltou pela janela saiu correndo, enquanto sua companheira de putaria ajeitava, pra ficar tudo direito.
Depois, o menino bateu uma punheta pensando na já experimentada situação, que tantos morrem sem nem saber o que é, gozou, jogou fora a última lembrancinha inoportuna daquele evento memorável.
Cinco dias depois, a mãe descobriu, a menina ficou grávida e o pai matou o moleque de peia.
