14.3.07

doze contos de dez palavras

Vende-se restos de batom - vermelho - paixão - já - esmorecida - pelo - tempo. Tratar com Ricardo. // Acendeu duas luzes: a da cozinha e a outra da faísca do disparo seco. O bife queimou. // Tirei os óculos, um momento, para enxugar as lágrimas e acabei entrando no ônibus errado novamente. // Meu coração era tão pequenino: conseguiu tomá-lo num golé só. // As luzes eram intermitentes, a respiração era intermitente: angústia constante. // Conheceram-se: casaram-se dois meses depois sem nunca terem se beijado. // Encheu o saco daquele lugar: foi-se pra França ser michê. // Sou o primeiro conto dessa página e vou acabar agora. // Acertou o alarme em oito horas: às nove, ia amar. // Carmem estremeceu: só ouviu o som do seu próprio orgasmo. // A peça havia chegado ao fim e Mauro não gozou. // Eu sou o último conto da página: a aula acabou.

Produto da aula hoje de Estilística: a professora falando de fono-meus-ovos-estilística e nós brincando dissaí.

12.3.07

shake it all, baby!


You know you twist so fine!
Come on and twist a little closer, now,
and let me know that you're mine!

5.3.07

minicontos, nanotales

Jules Horne, blogueira do The Guardian, falando sobre nanotales, escreveu:

These distinguished writers, often at the maverick outer edges of their art, weren't interested in offering up quick fixes for us to absorb between tube stops. They were drawn to its special challenges: the distilled essence of storytelling, the condensed emotion, the perception shift, the power of the unexpressed.

E também que estes microcontos fit beautifully into a blog. E ela está certa: os parágrafos quadradamente posicionados na tela, as linhas duplas formando retângulos: tudo geometricamente estetizado.

Contudo, claro que não tem somente coisa boa: Jules também fala da aflição que sente ao ouvir que os nanotales são perfeitos para estes nossos tempos globalizados, na qual tudo é em pílulas, em doses homeopáticas e o DDA corre solto. Em inglês.

4.3.07

prosa boa é que nem vidraça

Good prose is like a windowpane, diz George Orwell, no ensaio Why I write, referindo-se ao apagamento de personalidade do qual o escritor necessita para escrever algo, no mínimo, legível. Também estabelece four great motives for writing, sendo os ditos cujos:

1. Egoísmo puro e simples
2. Enlevo estético
3. Impulso histórico
4. E propósito político

Não termina nem começa por aí: o escritor inglês também fala de suas poesias, da guerra civil espanhola e de suas esquisitices infantis. Em inglês, com bigodinho e tudo.

!

De repente! Ela não avista, entre a calçada e o asfalto, o pequeno lago pluvial: o pé vai na lama, um quase escorregão se dá e a havaiana foge-lhe dos dedos, sailing away, em busca de aventuras. Ela, em resgate, corre atrás, acompanhando cada curva e desvio, conseguindo desvencilhar-se dos reclamantes e dos transeuntes, pois é tarde e só faltava mais essa agora.

1.3.07

Blogosferiando

O hermeneuta alexandrino não se limitou a inventar pontuação: ele quis forjar palavras que tornassem significantes os silêncios que pressentia nos textos e lhe permitissem, mais do que perceber o que lia, compreender o que lia. A decisão de as fazer invisíveis é apenas um indício de quão místicos eram os dias que então se viviam. Sabemos que as palavras estão lá – o resto, o resto é arte na distribuição das vírgulas.

Do ótimo Bandeira ao Vento, blog português, o qual o autor teve o pau-no-cuzismo de retirar os comentários. Good still, as you can see.

27.2.07

Good point

If all the world's a stage, where does the audience sit?

26.2.07

Chega a mãe pro filho.

- Tiraste a barba e deixaste essa barbicha pra fazer uma moldura?
- Moldura?
- É: de rosto.
A vocação literária dos dois pontos é fora-de-série.

25.2.07

uma personagem

A minha personagem seria uma mulher morena e surpreendentemente entendiada. Ela estaria ali, especificamente naquela hora, por tédio. Com sua mão direita no queixo, a coluna em L e as pernas em X, observaria, do alto de sua varanda, os transeuntes daquela tardinha amarela.

Seria uma tardinha excepcional, já que minha personagem não se entediaria com freqüência: seria dona-de-casa, enquanto o marido que eu lhe daria seria médico - clínico geral - e, neste momento inexplicável de tédio de minha personagem, estaria ele no consultório, consultando. Seus três filhos, todos de idades distantes, seriam uma menina, um rapaz e um jovem homem, estudante de medicina. Quanto aos afazeres domésticos de minha personagem, estes comeriam, se não inteira, uma bela fatia de suas horas, não sobrando migalha que fosse para ocupar com aquele inesperável tédio de agora.

Prontinho: com minha personagem localizada numa varanda, com três filhos, um marido médico e um tédio ensandecedor, posso deixá-la existindo, perscrutando a calçada inflamada com a cacofonia dos passos, naquela tarde amarela, tão, inexplicavelmente, tediosa.

A idéia eu roubei daqui. Com todo respeito.

24.2.07

De dentro do Aurelinho

O quanto sexo (ou amor) e morte (ou morbidez) são contígüos.

lân.gui.do adj. 1. Sem forças; fraco, debilitado, langoroso. 2. Mórbido, doentio [Antôn. (de 1): enérgico, robusto; (de 2): saudável; sadio.] 3. Voluptuoso, sensual, langoroso.

Fantástico, não?

23.2.07

Te quiero infinito, honey baby

Em meus passeios matinais pela blogosfera, caí de boca neste poema. O poeta chama Jaime Sabines, mexicano. Quem gostar levanta a mão.

Yo no lo sé de cierto

Yo no lo sé de cierto, pero supongo
que una mujer y un hombre
algún día se quieren,
se van quedando solos poco a poco,
algo en su corazón les dice que están solos,
solos sobre la tierra se penetran,
se van matando el uno al otro.

Todo se hace en silencio. Como
se hace la luz dentro del ojo.
El amor une cuerpos.
En silencio se van llenando el uno al otro.

Cualquier día despiertan, sobre brazos;
piensan entonces que lo saben todo.
Se ven desnudos y lo saben todo.

(Yo no lo sé de cierto. Lo supongo)

22.2.07

True story

- Eu conheço essa música. É Coldplay?
- Isso é Imagine, doido.

apreciação descompromissada

Texto de quatro movimentos, intercalando observação, divagações literárias, divagações sexuais, escavação mental das personagens, retorno - pela curva - à observação. Sempre com o ser-humano capturado na situação real e momentânea, passando pela crivo da palavra e pelas escolhas - e pulos - do autor.

Garoto-esfíncter
ga.ro.to (ô) adj. 1. Que brinca ou vadia pels ruas. - sm. 2. Rapaz que vadia pelas ruas 3. Bras. V. menino.

es.fínc.ter sm. Anat. Faixa anular de fibras musculares que, ao relaxarem-se ou contraírem-se, regulam o trânsito de vários ductos naturais de corpo. [Pl.: esfíncteres.] - es.finc.te.ria.no adj.
Que barriga grande, de curva. Desquebrante demais da conta. De dar vontade de falar mal. Um mal de século, coisa de nêgo mau.
E o menino de barriga com raio infinito. Surge-me uma vontade de falar mal, tão normal, tão automática, imiscue-se no canto do meu olho, o qual vê a barriga preenchendo a cena: o menino com o dedo na boca. Olha para um lado. Ao outro. Encontra-me. Fita-me e percebe sua barriga capturada na minha íris, no branco dos meus olhos, em posição de combate, guerra que não quero e fujo, para meus livros. Volto meu olhar para dentro do ônibus. Tento mudar o de dentro outra vez e continuo sem entender.
Me endiabro de não lhe entender, de querer e não conseguir ser como aquela escritora que falou denso. Ou aquela que falou, maria-homem como só de cabelos curtos, e não daquele jeito meio Marisa Monte. Que afirmou sua originalidade da forma mais sensacional, já nos ensinada. Putismo de primeiro grau. É onda. É parisismo. O bem do nosso século. Falar de si mesmo, achar isso bonito, pular essa e achar mais bonito ainda. Imagina você sendo entrevistado? Que lindo. Falar de você mesmo. Sorrir e achar sua excentricidade um máximo. Se pula. Pula-se. Escolhe.

Ele, de nome grande, alemão-meio, nome de touro da Disney. Corno manso, desajeitado. Falável. Nem quer saber da vida. E muito menos da flexibilidade dela. Agora, ela, de roupas até agradáveis, de boca esporrante, quer mesmo é do outro.
Sexo em flexibilidade esporrante, atrás de véus: sexo de soslaio: voyeurismo acidental. O nome fálico, meio-alemão, grande, como um touro: da disney, porque corno manso e desajeitado: ômi mole réi.
Do minino de ouro. Quer o mundo, faz marmita por esse mundo. Só pra ele. Ele, bem longe do mundo e da Linha Amarela.
Um garoto-abertura, esse de ouro: abre-me - abre para mim. É um pórtico, no meio da rua, fora dessa realidade, fora dessa rua, longe da Linha Amarela. Seria divino, não fosse sua barriga grande, de curva, o dedo na boca; a distância do mundo - não pela santidade: pela fome. Esse meu minimo, de ouro, não quer-se porta, não deseja abrir a minha mente para o tudo do mundo: capturei sua curvatura no meu olho - quer, como eu, um pedaço de Terra só pra ele, longe daqui, onde ninguém pode nos pertubar, onde ele vai poder comer em paz. Comida de marmita mesmo, que self-service é chique demais pra traição e miséria. Presse mundo aqui. Só nos livros, longe daqui, da Linha Amarela.

21.2.07

volta do carnaval

Esse negócio de ler Maiakóvski na loja de conveniência não está com a menor nada.

O sentido, meu povo. Não a música.

12.2.07

faz-se unhas

- É fazem-se, tia.
- Elas ficam lindas do mesmo jeito, meu filho.

outra brincadeira: mexendo com o dos outros

Não se inserem no percurso da vida as grandes ocasiões em que estamos velejando sós.

Sempre lamentei muito essa lacuna dos navios: tão navios que são masculinos e terminam em O, que só não são maiúsculos por falta de regra, mas não deixam de ser belos e bonitos, e até encontram-se traços e laivos femininos: brinco na orelha, cílio arrebitado, radiando como uma manhã: lindas são todas as manhãs femininas em que acredito na lealdade das pedras, nos meios dos caminhos, tropeçando em espelhos, em mins-mesmos; trezentos e cincoenta mins procurando cola e fio-condutor - ou pára-raio. Parte de mim, para chegar em mim, navegando no meu navio, a procura de mim, sem saber que estou atrás de mim mesmo. Meu amor por mim, nas últimas profundezas do galeão, é-me incognoscível. Minhas tristes noções de honra são o amor que tenho a meus espelhos.

Quanto ao resto, o resto é (silêncio? não, não) canção e música, longe de apreciação, crítica, pitaco.

11.2.07

brincadeiras, exercícios

E um microuniverso, onde cada passo é pisar em ovos, forma-se ao redor de cada palavra. E como se tudo não fosse tão errado; como se cada coisa tivesse seu sentido mais uma vez; como se o abismo não perscrutasse-me de volta nos olhos, sub-repticiamente, aproximei-me.

E o vermelho e o negro abarcaram toda a imensidão daquilo que podiam abarcar: acabei-me invisível, como a linha do horizonte, existindo por oposição.

***

início (+ - 23:50h)

Sangue da boca é
sangue na boca sangrenta
da bocarra sanguinolenta.

Sangue bucal
no sangue bucólico.

Bucolismo venéreo é
verdade de sangue.

Da boca, de sangue,
sai verdade, mentira
tudo de sangue.

Sangue, na boca de sangue,
é sangue da boca
do mesmo jeito.

término (+- 23:59h)

7.2.07

Bad Religion


A brutal sun is rising
on our sick horizon.

4.2.07

Assustou-se com o volume da própria voz: muito barulhenta para a hora silenciosa, para o livro fechado, para o parágrafo deixado de lado: o sono lhe dominara e esquecera-o de controlar a passagem de ar, vibrando-lhe as cordas vocais além da conta: muito perceptivo para a hora, demais.
Lá na escola, viu, tem um menino, que ele vai todo maquiado, vestindo aquelas saias longas até aqui. Ele leva a caixa de maquiagem, e fica maquiando as meninas, quero que tu veja. Também tem uns menino lá que desmunheca, e com esses os garotos implicam, mas com esse, de jeito nenhum: num tem um que diga esse tantim com ele, viu?

1.2.07

... Mas também tu não precisas sentir tudo de uma vez, ou uma coisa de cada vez, nem precisa se preocupar tanto com tudo ao mesmo tempo, nem se preocupar por não estar se preocupando com outras coisas que talvez merecessem preocupação.

Fica calmo, baby.

31.1.07

Encontrou uma fotografia - amarelada, bordas tortas, retangular - no meio da calçada. Tinha algumas poucas com sua família: todos longe ou esquecidos; lembrou-se de que ainda estava sozinho, sem ajuda, e percebeu a obviedade da situação: não lhe pertencia aquela fotografia, imiscuíra-se no destino de outra pessoa. Abaixou-se, então, e depositou a foto no mesmo quadrante da calçada onde a havia encontrado. Levantou-se, estralou as costas, parou um pouco ... e seguiu um caminho, rezando para que desse, logo, com uma foto só dele.

28.1.07

Somente depois de fechar os olhos e respirar o mormaço do quarto escuro, percebeu os finos raios amarelos escorrendo pelas frestas da persiana; não deitou a cabeça outra vez no travesseiro; sentou-se com o lençol ainda cobrindo suas pernas, coçou um dos olhos e com o outro olhou para a mancha de suor na cama.

Era manhã, mas havia ido dormir somente às três da madrugada do mesmo dia. Não havia escovado os dentes ou tomado banho. Não tirara as calças. Os cabelos pregados nos lábios. Era manhã, mas ainda não queria se levantar.

Tenho um arquivo que chama "doodles", só de coisas jogadas, palavras perdidas e frases tentando formar um texto; tem uns que mexo pouco, tem outros que mexo muito. Tem uns também que eu não tenho paciência de mexer: posto logo.

Não, não sabia: soube agora que tu me disseste, mas antes, não, não; nem cogitei. E agora que tu me disseste parece. Não esperava de maneira nenhuma. Quanto tempo? Ah, sim; pois então, está certo: obrigada por ter avisado, viu? Ia já fazer uma besteirada. Era. Pois é. Então, ó, a gente se fala depois? Está certo. Tchau.

Oi? Ah, sim: também te amo. Outro.
- Sabe o que é foda? É que amanhã eu vou acordar e vai estar tudo do mesmo jeito.
- É, cara, tem muita merda que vem sem a gente querer.

21.1.07

estorieta

Ela morava numa casa de bonecas, casa pequena. Disse já, várias vezes, que deveria se mudar, mas ela havia apaixonado seus olhinhos negros e redondos: como iria expulsar as duas dali, só por estranheza? Deixe-lhes e fui tomar um café.

20.1.07


Que vaidosos cata-ventos somos nós! Eu, que resolvera libertar-me de todo trato social e que abençoava minha boa estrêla, que, afinal, me fizera descobrir um lugar onde êle era quase impossível, eu, fraca criatura, depois de ter mantido até a noitinha uma luta contra o abatimento e solidão, vi-me finalmente compelido a arriar bandeira.

18.1.07

Vira o rosto: não me deixas lembrar que são meus, aqueles olhos; perscrutam e dissecam: viajo para a beira, defronte da fenda; aquele vento que começa em lugar nenhum ensurdece meus ouvidos... sopra; saio do chão, e sob meus pés, dança a areia: braços abertos. Ninguém na linha do horizonte, nenhum sinal de resgate; o vento vem dos lados, abraça e enleva: oferece-se como um mar: nadamos. Não há uma gota d'água em quilômetros. Nenhum sinal de resgaste: vira o rosto mais outra vez: enfia o nariz no travesseiro, não me deixas. Lembrar.

14.1.07

A Legião Estrangeira

A Legião é envolta por uma aura quase mítica graças a eventos ocorridos no México, mais precisamente em 30 de Abril de 1863.

Uma pequena patrulha comandada pelo Capitão Danjou, formada por 62 soldados e 3 oficiais, foi atacada por 3 batalhões mexicanos, compostos por infantaria e cavalaria, forçando-os a se defender na Hacienda Camerone. Apesar de estarem em completa desvantagem, lutaram até o fim. Danjou foi mortalmente ferido durante a batalha, e seus últimos homens executaram um último ataque com suas baionetas.

Restando apenas três legionários, os soldados mexicanos ofereceram a eles uma oportunidade de rendição, que eles só aceitariam se pudessem voltar para sua base com sua bandeira e o corpo de Danjou.

Ao ver sua bravura, o comandante mexicano comentou: "Eles não são homens: são demônios". E concordou com as condições dos franceses.

***

Ele morava nos túmulos e ninguém podia prendê-lo, nem sequer com uma corrente. Pois fora muitas vezes preso com peias e correntes, mas rompera as correntes e arrebentara as peias; ninguém tinha força para subjugá-lo. Noite e dia, ele andava incessantemente pelos túmulos e montanhas, soltando gritos e dilacerando-se com pedras. Ao ver Jesus ao longe, ele correu e prostrou-se diante dele. Com voz forte, ele clama: "Que tens a ver comigo, Jesus, Filho do Altíssimo? Conjuro-te por Deus, não me atormentes". Pois Jesus lhe dizia: "Sai deste homem, espírito impuro!" Ele o interrogava: "Qual é o teu nome?" Ele lhe respondeu: "Meu nome é Legião, pois somos numerosos". E ele lhe suplicava com insistência que não o expulsasse da região.

***

Se me perguntassem sobre Ofélia e seus pais, teria respondido com o decoro da honestidade: mal os conheci. Diante do mesmo júri ao qual responderia: mal me conheço - e para cada cara de jurado diria com o mesmo límpido olhar de quem se hipnotiza para a obediência: mal vos conheço.

13.1.07

Vermelhismo: mais ainda.

- Você me acha bonita.
- Desde quê.
- Não foi uma pergunta.
- Não respondi.
- E o desde quê?
- Depende.
- Depende de quê?
- Quer que responda?
- Já perguntei.
- Depende de você.
- Que tenho de fazer?
- Abrir com as mãos, caminhos... nos meus cabelos.

10.1.07

Na verdade, todos os versos são uma desculpa pra chegar no último, que não é meu.

A mulher subiu a saia vermelha,
pegou a bolsa vermelha;
a calcinha vermelha;
as luvas vermelhas
e o batom vermelho.

Não me disse até mais,
nem obrigado,
nem volte sempre,
nem vai te fuder, seu pervertido suburbano:

ficou perdida pelas esquinas luminosas,
pelos carros importados.
Ou usados.

Fiquei no chão,
com o braço direito dormente,
a coxa direita com câibra;
fedendo a sexo,
olhando o quarto minguante pela janela semicerrada:

perdido entre o orgasmo e o sono;
entre meus reais ausentes
e o pagamento do motel;
enfim:
entreanoitequevaieodiaquevem.

8.1.07

Meu lado nérdico.


Depois de aeons acompanhando Megatokyo, finalmente parece que o relacionamento da Nanasawa com o Piro vai engrenar. Para quem não conhece a webcomic, uma previazinha logo aí em cima.

6.1.07

Nunca mais, pense. Só conversando, só conversando, isso e aquilo, nada demais, nada demais, sabe? Quatro besteiras e a gente nem se toca, nem percebe e a língua dela abrindo caminhos na minha nuca; os dentes procurando tesão no meu pescoço, com força, mordendo cada nervo, sem atenção, sem covardia, sem vergonha, sem controle, tudo à noite, de noite, fora da batida da música, seguindo o baixo do funk que começou a tocar, um beijo, outro, pelo lóbulo da orelha, ela tem cócegas no ouvido, não me lembro e assopro. Ela ri, eu rio e dançamos de novo e novamente outra vez.

Aqui dentro tem cachorro bravo

Cuidado: Cachorro Bravo.

Leu de novo: Cuidado. Cachorro. Bravo. Bravo. Cachorro. Cuidado.

Intrigou-se. Não havia cachorro bravo com o qual deveria tomar cuidado. Nem no quintal, ou dentro da casa, ou aos pés de alguém se balançando na cadeira de balançar, para lá e para cá. Nada. Só o aviso. Cuidado, meu caro, que aqui dentro tem um cachorro muito bravo! Olhou de novo. Zero, só o cuidado cachorro bravo. Mas não tinha cachorro, e nem ele era bravo. Talvez nem aviso tivesse, no final das contas.

Então piscou os olhos, coçou a nuca, e quando despiscou e descoçou, tinha quatro patas, um belo pêlo marrom, caninos afiados e era bem bravo.

4.1.07

- Tá lá, mãe. O pc. Vai usar?
- Vou nada, Lara: vou dormir.
- Mas por que? A senhora num queria o pc?
- Quero mais não. Tô com sono.
- Mas por que?
- Porque ora, não quero mais.
- Mas eu já fechei as coisas lá, pra senhora usar.
- Mas se eu fosse usar, não era pra ter fechado.
- Eu fechei a net, mãe.
- Eu ia usar justamente a net.
- Era só logar de novo, grande merda.
- Não quero mais o computador: pode usar.
- Mas por que?
O pai se intromete:
- Porque ela não quer mais, Lara, ora! E feche essa luz!
- A senhora tem certeza?
- Tenho. Feche a luz.
- Tá bom. Não diga que eu não colaborei depois.

E a menina Lara retornou ao seu papinho madrugal pela net relogada.

The End.

1.1.07

Primeiro post do ano


Este é o primeiro post do ano; aqui, você não encontrará resoluções de ano-novo, nem instruções sobre como viver a sua vida em dois mil e sete: aqui, você encontrará o primeiro post do ano. E todas as outras coisas que você quiser encontrar aqui, além do primeiro post do ano.

Mas isso não importa. Não importa que aqui você encontrará o primeiro post do ano, e todas as outras que você quiser encontrar, além do primeiro post do ano; não importa se você não se encontrar aqui, ou em outro lugar; também não importa se você não encontrar aqui o primeiro post do ano: o que importa é que você tem que se decidir, you've got to let me know, should I stay or should I go?

23.12.06

Três temas, dois meus.

Verbalismo. Não me encontro nos atos. Sou pálida, estática, um espelho, um lago sem vento. Estou nas palavras, é lá que vivo, respiro, faço a minha parte.

Palavra. Não me vejo na carne; transparente, me confudo no reflexo da lua cheia. Meu sangue são versos inacabados: é nele que sinto, que me sinto real.

Solidão. Sou um lobo noturno, silencioso, deslocado. Sinto o cheiro de sangue, largo-me aos instintos, caço minha presa, arranco-lhe a pele do pescoço, vampirizo-lhe. Faço minha parte.

21.12.06

20.12.06

Dessa vez

O natal cai numa segunda-feira, quarto dia de capricórnio e a lua está nova.

17.12.06

We would sing and dance around
because we know we can't be found

8.12.06

Costumo dizer que ela me queixou com um cigarro. Esse negócio de cigarro existe pra testar os fracos.

20.11.06

A palavra silêncio é um paradoxo; silêncio não é silêncio, silêncio é outra coisa. Silêncio é ciência. Silêncio é silêncio, meu povo.

18.10.06

O que vai acontecer com as crianças desse mundo.

5.10.06

Uma bebida e um amor sem gelo, por favor.

3.10.06

O mais difícil é o dia-a-dia.

20.9.06

And yet, one must wander what kind of strength it takes to give up what you want more than anything -- to avoid becoming the thing you hate the most.

10.9.06

- Que vai ocorrer amanhã?
- Não me ocorre nada.

1.9.06

Enough is enough!

Caio.

ma.ri.nho adj. Relativo ao mar, ou que o habita ou dele provém; marítimo.

ri.bei.ro sm. Rio pequeno; córrego; regato, riacho.
África.

Ele disse que ia curar todo mundo. Ele disse que ia curar todos. Acreditem, e conseguirei, ele disse. Tenham fé, ele disse, tenham fé em mim, e conseguirei, ele disse. Ele disse que ia andar sobre as águas, ele disse. Ele disse que ia nos curar a todos, ele disse. Ele falou da visão que tivera, da cura que lhe fora dada de presente, como antes, ele disse. Ele disse, ele prometeu que ia andar sobre as águas salgadas da praia, ele prometeu. Ele me disse que ia voltar, ele disse. Ele me prometeu que ia voltar. Ele me olhou nos olhos, beijou minha testa e foi-se embora, sem cura, sem volta.

28.8.06

Seis horas da manhã e sete minutos.

Nevava fora da sala; as janelas haviam sido trancadas; as cortinas ainda estavam abertas; as paredes do quarto eram da cor de musgo; não havia luz no teto; não havia enfeites na mesa. Retangular e marrom, bastante prática. Algumas cadeiras igualmente simples; uma estante escassa de livros e um criado-mudo com um abajur desligado.

Começam a chegar homens bem vestidos, de ternos cinzas, negros e azuis. Cado um arruina o silêncio ao puxar a cadeira de modo observar todos os rostos. Ninguém nas pontas.

Todos se levantam, saúdam o último a chegar e principiam os arranjos para.

23.8.06

A história da minha vida

Uma boa história é tudo que eu quero. Uma história com começo surpreendente, instigante, alguém morrendo, suas últimas palavras, uma conversa interrompida na metade; um telefonema anônimo, uma carta anônima, um beijo anônimo, uma morte anônima, algo anônimo; um zero no preâmbulo, depois um dois no início: onde foi parar o um? Mistério...

O meio seria a descida da montanha russa: tudo é muito rápido e tem que reler aquela parte pra entender quem comeu quem e quem dispensou quem e da onde veio aquele telefonema e com que propósito.

Quero uma história fantástica, baseada em fatos reais.

Infelizmente, tenha somente um começo fraco, um nascimento; uma infância inócua, e uma adolescência sem altos nem baixos. Posso esperar por uma maturidade anódina e seca, sem grandes doenças, sem grandes conquistas. Finalmente, uma morte fraca e previsível. Nada de continuação depois: seria um fracasso de bilheteria.

E não se engane: eu sou o vilão. O fétido e verruguento vilão de nariz adunco.

14.8.06

O zênite da mediocridade, novamente.

10.8.06

But can we live without them? Memories are what our reason is based upon. If we can't face them, we deny reason itself! Although, why not? We aren't contractually tied down to rationality! There is no sanity cause!

8.8.06

Uma vantagem do dogma de que somos prisioneiros de nosso próprio discurso, incapazes de apresentar razoavelmente certas pretensões de verdade porque tais pretensões são meramente relativas à nossa própria linguagem, é que nos permite transitar pelas convicções de todas as outras pessoas sem nos onerarmos com a incomodidade de precisarmos adotar alguma convicção. Trata-se, na realidade, de uma posição invulnerável, e o fato de que também seja totalmente vazia é apenas o preço que se tem de pagar por isso.

6.8.06

Depois de muita deliberação...

...e debate acerca dos temas e propósitos apresentados, foi homologado que sei lá.

2.8.06

Noite. Nuvens se movem, abrigadas pelo escuridão da lua nova. Somente seus passos soam; como tanques se arrastando pachorrentamente cospem no rosto sereno do silêncio. Hoje, elas são os olhos da noite. E não fazem questão de esconder sua condição.

Um cachorro reclama do que não viu; alguém dorme coberto por jornais, nas escadarias da universidade. Os portões negros do prédio rosa fecham às seis horas da noite. O centro da cidade demora mais para calar-se. O vento abre caminho pelas frestas, procurando quebrar o muro da conivência; o vento quer nos mostrar o homem por debaixo dos jornais, quer que ouçamos os portões negros trancados, guardando o quê? O vento soa pelas frestas da cidade, mas ninguém o ouve. Somente as nuvens são testemunhas do calafrio de alguém.

...Um grito rouco.

1.8.06

Tinha que terminar isso. Não: tinha que terminar ela; Isso são coisas e nunca um coisa teve algum valor para ele quanto ela, nunca, e nunca é um conceito complicado, porque envolve ternura; sentia ternura por ela; era o meio pelo qual o tempo entrava na sua carne e ele via as horas passando, e corriam mais rápido que o seu pequeno caleidoscópio de imagens podia pintá-las; naquela velocidade, os passos se moviam lentamente, e ele estava a cento e vinto quilômetros por segundo, e tudo que imaginava era a solidão daquele abraço, a qualidade daquele abraço, o silêncio de que necessitava para chegar nessa velocidade horrível: o preço de terminá-la; os momentos seus-ela foram os mais importantes da sua carne, dos seus olhos, e tudo que há neste segundo de infinita claustrofobia é uma cegueira, uma neblina de memórias, tudo perdido e embaçado pela chuva que começou a cair ao término dela; tudo estava muito veloz naquela noite.

31.7.06

o zênite da mediocridade.

25.7.06

Credo em cruz

By the pricking of my thumbs,
something wicked this way comes.

***

Os dedões de meus pés estão formigando.
Algo de muito ruim está nos alcançando.

Quanto tempo falta?
Vida mais meia hora de claustrofobia.
Quanto tempo resta?
Dois agorafóbicos.

21.7.06

...eu deixei a minha pérola escapar pelo ralo

18.7.06

Queria algumas palavras invisíveis, uma sílaba que não dissesse nada, que não apontasse pra canto nenhum; que tocasse o lá do abandono ou o silêncio do inefável: era essa palavra que eu queria; que não me dissesse nada, não conversasse, não carregasse interpretações e dúvidas e incertezas e avisos, tudo o mais já é por demais impreciso, meu deus! Queria uma ela, uma vida que não fosse isso, queria carne, seios, pêlos, coxas, língua, queria uma vida ela. Uma vida isso, largada na brancura do abandono, solto na liberdade resignada não me serve. Não quero isso. Quero futuro, depois, amanhã, quem sabe, meu deus, daria tudo por um quem sabe, um pode ser, um vamos ver, um sei não acho que sim pode ser quem sabe;

Quero esse mundo bombardeado, quero parar de chorar, quero parar de sentir-me nos outros, quero a verdade que sei inominável, ou quero ao menos um paliativo, um coquetel de certezas com doses homeopáticas de tudo-bens e vamos-ver-o-que-o-futuro-aguardas. Não sei o que quero desse mundo, ou dela, ou de mim. Não sei se quero. Não sei. Não.

13.7.06

- Não há raiva.

Talvez queira convencer-me, falando tão alto assim. Não há raiva. Não há nada. Há, sim, um vazio que explode por puro clichê no peito. Um nada cansadinho e entorpecido pela brancura da vida, um nada desses no qual se tropeça pela rua; um nada de nadica de nada. Não, não, não há saudade: este vazio não é saudade. Há talvez uma ausência de esperança; uma desesperança tão gritante, tão glamourosa que faz querer gritar, destrinchar uma cadeira e despejar socos em postes de luz, para ver se volto a enegrecer, para ver se o mundo cega. Desesperançado e com certezas de grossura rochosa, absurdo como qualquer pessoa, tentando nadar sempre em frente: não fenecer como um tubarão que desiste de se alimentar. Não, não há raiva, e não sei onde estou-me, se num cruzamento, se numa ladeira. Não voltei, sei disso. Por ora, contento-me em entristecer o olhar, em patentear algumas rugas, em observar a latência do corpo, esperar que esquente outra vez. Esperar o eterno retorno de uma força vinda do silêncio para realizar as pequenas coisas: colocar a comida do gatinho, ligar a televisão, passar a página, reler o parágrafo, pequenos fazeres. Nada demais. Talvez ainda haja misteres.

10.7.06

Tendo a certeza que o amor existe, mas, como sentimento que é, é finito e muda de objeto, do amor peço que nunca venha a amar ou ser amado por mais de alguém. Duas pessoas já são beleza e dor mais que bastante. Me atrevendo um pouco, peço que nunca esqueça que o amor é bom, que eu sempre prefira amar a ser amado, lembrando que o amor não me vale a morte. Vale, sim, viver e continuar a amar mais um cadinho. A única morte de amor válida é a overdose. Mas isso, não peço. Antes, sei que me vou assim.
Ou não somos livres e o responsável pelo mal é Deus todo-poderoso, ou somos livres e responsáveis, mas Deus não é todo poderoso.
Albert Camus

Eu acreditaria somente num Deus que soubesse dançar.
Friedrich Nietzsche

Deus sem você é Deus. E você sem Deus é o quê?
Adesivo de carro

deus sm 1. Ser infinito, perfeito, criador do Universo. [Com inicial maiúscula] 2. Nas religiões politeístas, divindade masculina superior aos homens, e senhora dos destinos da vida.

4.7.06

Humor negro?

- Quando te verei de novo, querida?
- Depois do transplante de córnea.

É isso?

1.7.06

Agora só na África do Sul.

28.6.06

Um texto não meu.

Sentou, mas sentar é só porque não encontrei palavra melhor. Sentou ao meu lado, então. Agora você sabe onde ela está: do meu lado, sentada. Mas ela não existe, e é só uma palavrinha no meu sintagma incompleto. Pois então; está sentada ao meu lado, mas não olha pra mim. Mas isso quem decide sou eu. Ao próximo parágrafo.

No segundo parágrafo, sinto-me no dever de avisá-la que ela continuará sem olhar pra mim. Aliás, ela só vai levantar o queixo quando retomarmos o começo disso daqui. Mas isso fica pro último parágrafo, que tal? Não importa, já disse que quem decide sou eu.

Neste terceiro parágrafo se dará todo um jogo de conversas e sombras, do entredito ao não dito, quase como que subir um rio com pouco diesel sobressalente. Acho bom avisar que o primeiro "Deus" que ela disser é um vocativo, foi que faltou uma vírgula. Mas isso só conta se você entendeu até aqui. Acho melhor ir logo ao diálogo, por favor. Mas antes, pelo prazer de entender melhor as coisas, queira dar uma olhadela nessas definições:

Mo.nó.li.to sm 1.Pedra de grandes dimensões. 2.Monumento feito de um bloco só de pedra.

O.dis.séi.a sf 1.Viagem cheia de peripécias e aventuras. 2.Série de complicações ou ocorrências variadas e inesperadas.

Engraçado: uma feminina e o outro masculino. E também ajuda a entender quando se vê que, embaixo de "monólito", no dicionário, tem "monólogo.

Obs. necessária: não há datas, então procure "monoliticismo e odisséia."

22.6.06

traições.

Em uma noite de um início de julho, excessivamente quente, um rapaz saiu do quarto que ocupava na água-furtada de um grande prédio de cinco andares na travessa de S... e vagarosamente, com ar irresoluto, tomou o caminho da ponte de K...

Teve a boa sorte de não encontrar na escada a senhoria, que morava no andar inferior. A cozinha, cuja porta estava quase sempre aberta, dava para a escada. Toda vez que o rapaz saía, era obrigado a passar por ali, o que fazia experimentar uma forte sensação de covardia, que o humilhava e o fazia franzir o sobrolho. Devia uma soma importante à senhoria e receava encontrá-la.¹

***

Nos começos de julho, por um tempo extremamente quente, saía um rapaz de um cubículo alugado, na travessa de S..., e, caminhando devagar, dirigia-se à ponte de K...

Discretamente, evitou encontrar-se com a dona da casa na escada. O túgurio em que vivia ficava precisamente debaixo do telhado de uma alta casa de cinco andares e parecia mais um armário do que um quarto. A mulher que lho alugara, com refeição completa, vivia no andar logo abaixo, e, por isso, quando o rapaz saía tinha de passar fatalmente diante da porta da cozinha, quase sempre aberta de par em par sobre o patamar. E todas as vezes que procedia assim sentia uma mórbida impressão de covardia, que o envergonhava e fazia franzir o sobrolho. Estava zangado com a dona da casa e tinha medo de encontrá-la.
²

1. Tradução de Ivan Petrovitch e Irina Wisnik Ribeiro.
2. Tradução de Natália Nunes.

Dois primeiros parágrafos de Crime e Castigo. Batidos me esforçando para não olhar pro teclado.

19.6.06

- Tu num sabe de nada não. Só tem 19 anos.
- Se fosse por isso, num tinha véi burro.

9.6.06

Diálogo construtivo.

- Pra quantos dá essa pizza?
- Dá pra todo mundo, mulher!
- Todo mundo é pouca gente.

8.6.06

Qual é o seu dasein?

7.6.06

Sou um autêntico escorpianino.

1.6.06

Disso resultou aquele homem que nunca procurou fazer as coisas que sonhava. E passou a viver na terrível angústia do: "e se tivesse tentado?" Tentar e fracassar não é problema. O suicídio, o veneno lento, é a dúvida: teria dado certo?

Ouviram?

30.5.06

Não gosto de nada por inteiro.

às vezes, eu tenho momentos de não saber o que eu quero da vida. sem tê. nem porquê.

E eu roubei um gatinho da rua. Ziggy.

21.5.06

A noite das vinte e três horas é mais escura que a das vinte e duas.

17.5.06

Ninguém se importa com as minhas intenções. Ninguém quer saber o que eu quero da vida. E o meu discurso muda a cada minuto, preocupado com os outros que não estão preocupados comigo. Fazer o quê, sou assado, os outros são assim.

Não sobreviveria sendo assim, vivo sendo assado, e me estrepando quase masoquisticamente.

Por quê? Quem se importa com coisas importantes? Todo mundo - e quando eu digo todo mundo, eu não quero dizer todo mundo - só quer saber dos problemas que o olho pode ver - e problema é uma definição subjetiva e completamente guiada por uma moral construída e aceita.

Aí, quando eu tento ajudar, abusam da boa vontade, e derrubam os problemas em cima da minha caçambinha míuda - afinal, não tenho problemas, e se tenho, não são tão gigantescos e não merecem a mesma primazia e a mesma gravidade que estes daqui. Passei a minha vida inteira sem poder fazer o que eu queria, sem poder falar direito com a minha mãe.

- Ave maria, menino, pára! Tu tá parecendo o teu pai!
- Affe, caio, tá ficando igual teu pai!
- Isso aí é coisa do teu pai! Olha a besteira!

E eu? Será, porra, que eu, nenhuma vez na vida, posso ser parecido comigo mesmo? Será que eu vou sempre ter que viver em função do meu pai, ou do Leonel, ou de qualquer outro que chegou primeiro e arruinou tudo? Por que quando eu tento ajeitar as coisas, todo mundo reclama? Por que quando eu falo o que eu penso, ninguém aguenta e joga o meu discurso no boca de quem não presta? Eu não sou uma pessoa legal? Cadê eu?

14.5.06

I

Mas o que é que eu sei de puta pra contar uma estória inteira sobre uma? Nem sei mais se a Rita continua dando, se o Roberto é vivo, viúvo, se parou de beber, se foi preso, denunciado. Sei lá. Eu entendo de Beatles, de nomes de autores, dessas coisas sem importância, que não servem pra mudar o mundo.

Saiu correndo: que nada na sala era dela.

É como xadrez, olhares tornam-se peões; os reis são o seu orgulho; as rainhas são as músicas e o os mitos que guiam. E nossos atalhos:

- Atalho é falácia.

Mas não vou discutir a existência de atalhos. Aqui não. Aqui, ela fugiu.

Deixou a porta quase aberta, e atravessou o corredor verde amarronzado. Não cito a luz vermelha por medo de cegá-lo ou pra ficar mais difícil de misturar o verde com o marrom e depois com o vermelho. Pode imaginar só com o verde amarronzado, ou verde-marrom, como era de primeiro. Eu não me importo. Me importo com o fato dela ter saído correndo, feito louca.

Ela saiu, e eu pude ver a lâmpada redonda quase caindo do teto. Ela continua a ir mais longe daqui, mas ainda quero falar da luz:

Era bem solta. Piscava. Inter. Mitente. Mente. Todo dia, toda hora, toda entrega, toda saída, toda porta semicerrada. Todo mundo tinha medo de chegar de madrugada para aquela luz piscando e cegando e piscando junto com o olho da gente como se lâmpada também lacrimejasse. A esclerosada do andar de cima jurou que, uma madrugada dessas, viu uma gota avermelhada no chão do corredor.

Da mulher: ela, que agora já está bem longe do corredor e da porta entreaberta; que está entrando no carro com alarme eletrônico e constatando que não havia gasolina pra chegar em casa.

Não vou contar o motivo de tanta correria: esta estória de mentira não se faz de porquês. Os porquês estão atrasados e o pensamento não pára pra eu ficar catalogando tudo que já aconteceu. Se for fazer flashback, quando chegar na parte boa, tudo já terá acabado e os dois que estavam na sala com a porta que agora já fechei, já terão se ido fazer sexo-pra-fazer-as-pazes.

8.5.06

Comentário.

Paz. [Do latim pace] S. f. 1.Ausência de lutas, violências ou perturbações sociais; tranqüilidade pública; concórdia, harmonia. 2.Ausência de conflitos entre pessoas; bom entendimento; entendimento, harmonia. 3.Ausência de conflitos íntimos; tranqüilidade de alma; sossego. 4.Situação de um país que não está em guerra com outro. 5.Restabelecimento de relações amigáveis entre países beligerantes; cessação de hostilidades. 6.Tratado de paz. 7.Ausência de agitação ou ruído; repouso, silêncio, sossego.

Não simpatizo com a idéia de me forçarem tudo isso aí em cima goela abaixo. Não que seja algo ruim, mas não sejamos fanáticos. Deve haver melhores meios de se chegar – se é que há um caminho - lá – se é que é um lugar - do que por alguma ditadura com poderes hipertrofiados.

Não é à toa que paz é feminino. Como a verdade, ou a beleza.

5.5.06

Impressionismo.

Quando tiver vinte e dois anos, vou me lembrar do sal fazendo espumas no mar, da cor da minha grinalda.

Estávamos de pé, na varanda da casa. Final de tarde. O céu arroxeado, que eu sempre acreditei ser uma cor alegre. E minha mãe não segurava minha mão, como era costume; sem conselhos ou sermões, nem das coisas que deviam ser feitas. Não mais. Duas mulheres de pé numa varanda, frente para a praia, tentando enxergar as ondas entre as espumas brancas. O céu roxo.

Foram chamar. Era hora, mas nunca a que eu queria.

- Vamos, filha.
- Vamos sim.

Ela foi logo, mas eu tinha que ficar um pouco mais ali, observando o que o mar e o mundo me davam, que talvez eu nunca ganhasse de mais ninguém. Nem mesmo do meu noivo. E nunca ganhei realmente. Nem haverei de ganhar, sem a menor dose de pessimismo. Pensava essas coisas, porque ainda não havia, com vinte e dois anos, descoberto o péssimo do mundo. Desconhecendo-o, fui-me pelo corredor de paredes rosadas.

2.5.06

Três pessoas que eu nunca vi comentaram nesse post aí embaixo. Das duas mulheres, o blog delas nenhum abriu.

Por algum motivo, não posso escapar da minha cabeça que sejam bots que disparam de quando em vez para nos elogiar e dar paliativos de estima.

Hum.

29.4.06

Toda guerra deveria ser latente.

24.4.06

Essas coisas são tão engraçadas.

Hoje, indo pro mundo, vi, do banco de trás, um Fox preto na frente do nosso carro. Com um adesivo inclinado, bem assim, sem colocar, nem botar:

Manu & Caio
Sentei e comecei a apertar as teclas, mas o meu trabalho vai bem mais além disso. E uma parte dele vem depois. Mas só o barulho das teclas já ajuda, acho que o cérebro se engana, e chama todo mundo pra olhar. No meio dessa gente, eu me encontro, observando o gatinho morto no meio da rua, aquelas cenas que a gente vê e não consegue desviar o olhar.

Gostaria de ficar cego pras minhas palavras; observar o vôo delas, bem longe daqui, no barbante do horizonte, depois do mar, antes do sol, que é pra não se queimarem - palavra não tem protetor solar. Elas queimam, e só quem lê sabe como queima. Quem bota no papel é só um botador, um colocador de coisas nos lugares certos: eu gosto mesmo é de ler.

Mas sou injusto conosco. Nós temos um pouquinho de trabalho - ou labor, ou ação, que o valha - temos que sentar, olhar o caderninho de anotações, procurar o sentimento pra emendar nas palavras, desembestar, parar, tomar um copo d'água - alguns tomam Coca-cola com creme craquérs - olhar, ver a merda que saiu, tentar encontrar algum valor e sair futricando até conseguir ficar só com uma carta na mão.

Escrever é jogar mexe-mexe. Mas isso sou eu.

E queimam porque acendem o fósforo de dentro da gente.

Créditos.

Da filosofia da Burrice: Felipe Assolan.

Teste.

Para ver se voltaste a funcionar.

20.4.06

Arruína-se a festa que se desenrola sem que o anfitrião reitere várias vezes aos presentes como eles são bem-vindos.

19.4.06

Filosofia da Burrice: um adendo.

Uma Burrice soberba: encimesmada pra fora, de modo a captar as obviedades mais pululantes que se hão de achar em toda a realidade, a despeito de todo tipo de absurdez intelectiva que se nos possa aparecer.

Um pós-cartesianismo, para colocar o prefixo da moda. Uma filosofia das certezas, dotada de dúvida saudável e consciente de seu próprio nariz de palhaço. Além do espírito de gravidade. Esta burrice encontra-se embasada no si-mesmo de nós-todos.

Como direi? Disse-me, e ouvi:

Uma Burrice pragmática, pois não, que renuncia, sempre que o é devido, à infinita capacidade de abstração intelectual humana com o intuito de, mui humildemente, prognosticar as coisas com o que há de mais réles no pensar.

Burrice, além de tudo.

16.4.06

O fim está bem longe daqui,
porque todas as coisas
já terminaram.

o término eu consigo enxergar:
ele chega bufando, batendo o pé,
gritando que acabou.

O fim é um silvo da floresta noturna,
é um sopro na lagoa parada,
é uma jangada em alto-mar.

...mulher...

As coisas acabam
depois que enxergo no horizonte
um sorriso de criança
e um suco de maracujá gelado.

15.4.06

Poesia kamikaze e arregaçada.

Chega dessa frescuragem toda.
Chega de tanta babaquice.
Eu quero é que o mundo se exploda
Numa implosão de sem-vergonhice.

14.4.06

Na minha nuca tem um peso que tá entupindo meu caninho de idéias. Só consigo me lembrar do que li o Tchekhov dizendo: você tem que escrever mesmo se não estiver com vontade. Não foi exatamente isso, mas eu nunca transcrevo nada do jeito que tava antes, então.

Já parou para pensar que talvez a vontade de escrever e a inspiração não sejam tão amiguinhas quanto a gente pense? Quantos textos devem ter sido escritos como se o escritor estivesse empurrando um carrinho de mão cheio de areia vermelha? E chegasse lá, ainda tivesse que remexer na areia, misturar com água, fazer um buraco - não nessa ordem - pra só depois levantar o muro. Já pensou num negócio desses?

Vou terminar de ler o Teoria do Conto.

10.4.06

Jesus. Não existe, nesse blog, um texto que seja apresentável. Meu deus, deve ter mais de 220 post por aqui, e tudo que eu consegui encontrar foram 8 que nem tenho certeza.

o.o

9.4.06

Quero ver como a Clarice.

Não quero amigos de almas pequenas.
Quero almas tão grandes
que não caibam nelas nem toda a estória
da história.

Quero um pouco do mar Egeu
nas minhas lágrimas européias.
Eu quero um pouco da Amazônia
no meu sovaco fedorento.

Eu quero pensar na minha terrinha
como um lugarzinho bom de viver e fazer poesia.
Mas quem escolhe não sou eu:
são elas, que fazem isso daqui.

Tenho que me cegar,
e me privar de toda sanidade,
de todo bom senso,
de toda razão,
de toda lucidez
e,
então,
deste modo,
com todas as forças,
finalmente,

Poderei ser quem eu quero ser.
Nem que seja só por uma
verdade inventada.

7.4.06

Tô escrevendo grande demais.
Eu me sinto como aqueles caras com os chapéis engraçados e as cornetas douradas e os sapatos enrolados. Sou aqueles arautos da corte que anunciam quem vem entrando na sala, enquanto a pessoa nem espera eu terminar. Não sou aquele que chega, e as minhas palavras devem começar e terminar com música solene e simples, mas pomposa, caso a ocasião requeira.

A minha roupa é verde com vinho. Não tenho queixo, o nariz é empinado e os olhos fechados. Anuncio, a criatura entro e ou fico - de olhos fechados - parado, ou me retiro e espero alguém mais chegar. Um anunciador, de calças apertadas e olhar lunático, quase de bobo, mas o bobo é outra coisa, que eu já explico.

Vou explicar o bobo, mas primeiro vou dizer porque não me considero um: é que bobo é chamado pelo Rei quando não tem mais nada pra fazer; quando o Rei reina, mas quem governa é o imperioso tédio. O Bobo diverte e subverte, que a loucura dá à ironia uma máscara de sorriso de criança, e toda criança é louca: louco pode tudo. Lacan dizia ter cinco anos. Abirobado.

Pois bem, acabei dizendo o que era o bobo antes de me justificar. Faço-o agora: não sou bobo - bobos também são anunciados. Eu sou aquele que deposita a presença e sai de fininho. Eu sou aquele que a qualquer momento pode ser esquecido numa viagem à outro castelo estrangeiro. Quando a Corte precisa cortar gastos, adivinha quem vai primeiro? Vós sois as palavras, passíveis de anunciação; eu, os outros. E os outros são vazios e tão pequenos que.

5.4.06

Pergunta cavalar.

Quando foi que eu perdi as minhas histórias e fiquei só, com os aforismos inúteis?

Eu quero uma história. Alô? Tem alguma história aí? Só de pepperoni. Calabresa? Não, calabresa tem não; tem pepperoni. Que que tem na de pepperoni?

Um bocado de silêncios e vazios e personagens desagregadas, que herdaram uma tradição ensaística dantesca e que não preza pelo sentido. Nem sei praquê o dantesca.

3.4.06

O Biquíni Rosa.

Entre o mercadinho Cristovão e o Bar e Restaurante O Armando, encontrei amassado, negro, enlameado, perdido na rua um biquíni rosinha com as bordas brancas. E aquele biquíni, talvez, pertencesse a uma menina lá da periferia - a mãe deu de presente de aniversário, num domingo, dia de praia. Mas, não se sabe como, talvez ela tenha perdido nessa viagens de família pra Praia do Futuro, onde as sacolas sempre voltam ou mais cheias ou mais vazias.

Aquela pecinha foi de uma jovem, que agora já é adulta, e que não tinha mais utilidade pro biquíni. Dentro do ônibus, com uma sacola velha, indo pra casa do terceiro namorado, encontrei, já perdido, o biquininho no meio do batom vermelho, do perfume, da calcinha, do sutiã. Não se lembrava a quem pertencia. De ninguém. Fora. Pra rua, é encontrado pelo escritor, aprisionado nas palavrinhas rosadas com bordas brancas.

Mentira tudo isso: o biquíni era é de um menino. Menino homem, macho, viril, que com doze anos já havia perdido o cabaço, como diz um amigo meu eu não vejo faz um tempo. Perdido o cabaço, ele saiu correndo da casa da menina, tropeçou na vestimenta, ouviu o ranger da porta, correu, saltou pela janela saiu correndo, enquanto sua companheira de putaria ajeitava, pra ficar tudo direito.

Depois, o menino bateu uma punheta pensando na já experimentada situação, que tantos morrem sem nem saber o que é, gozou, jogou fora a última lembrancinha inoportuna daquele evento memorável.

Cinco dias depois, a mãe descobriu, a menina ficou grávida e o pai matou o moleque de peia.