Quero esse mundo bombardeado, quero parar de chorar, quero parar de sentir-me nos outros, quero a verdade que sei inominável, ou quero ao menos um paliativo, um coquetel de certezas com doses homeopáticas de tudo-bens e vamos-ver-o-que-o-futuro-aguardas. Não sei o que quero desse mundo, ou dela, ou de mim. Não sei se quero. Não sei. Não.
18.7.06
Quero esse mundo bombardeado, quero parar de chorar, quero parar de sentir-me nos outros, quero a verdade que sei inominável, ou quero ao menos um paliativo, um coquetel de certezas com doses homeopáticas de tudo-bens e vamos-ver-o-que-o-futuro-aguardas. Não sei o que quero desse mundo, ou dela, ou de mim. Não sei se quero. Não sei. Não.
13.7.06
Talvez queira convencer-me, falando tão alto assim. Não há raiva. Não há nada. Há, sim, um vazio que explode por puro clichê no peito. Um nada cansadinho e entorpecido pela brancura da vida, um nada desses no qual se tropeça pela rua; um nada de nadica de nada. Não, não, não há saudade: este vazio não é saudade. Há talvez uma ausência de esperança; uma desesperança tão gritante, tão glamourosa que faz querer gritar, destrinchar uma cadeira e despejar socos em postes de luz, para ver se volto a enegrecer, para ver se o mundo cega. Desesperançado e com certezas de grossura rochosa, absurdo como qualquer pessoa, tentando nadar sempre em frente: não fenecer como um tubarão que desiste de se alimentar. Não, não há raiva, e não sei onde estou-me, se num cruzamento, se numa ladeira. Não voltei, sei disso. Por ora, contento-me em entristecer o olhar, em patentear algumas rugas, em observar a latência do corpo, esperar que esquente outra vez. Esperar o eterno retorno de uma força vinda do silêncio para realizar as pequenas coisas: colocar a comida do gatinho, ligar a televisão, passar a página, reler o parágrafo, pequenos fazeres. Nada demais. Talvez ainda haja misteres.
10.7.06
Albert Camus
Eu acreditaria somente num Deus que soubesse dançar.
Friedrich Nietzsche
Deus sem você é Deus. E você sem Deus é o quê?
Adesivo de carro
deus sm 1. Ser infinito, perfeito, criador do Universo. [Com inicial maiúscula] 2. Nas religiões politeístas, divindade masculina superior aos homens, e senhora dos destinos da vida.
4.7.06
1.7.06
28.6.06
Um texto não meu.
No segundo parágrafo, sinto-me no dever de avisá-la que ela continuará sem olhar pra mim. Aliás, ela só vai levantar o queixo quando retomarmos o começo disso daqui. Mas isso fica pro último parágrafo, que tal? Não importa, já disse que quem decide sou eu.
Neste terceiro parágrafo se dará todo um jogo de conversas e sombras, do entredito ao não dito, quase como que subir um rio com pouco diesel sobressalente. Acho bom avisar que o primeiro "Deus" que ela disser é um vocativo, foi que faltou uma vírgula. Mas isso só conta se você entendeu até aqui. Acho melhor ir logo ao diálogo, por favor. Mas antes, pelo prazer de entender melhor as coisas, queira dar uma olhadela nessas definições:
Mo.nó.li.to sm 1.Pedra de grandes dimensões. 2.Monumento feito de um bloco só de pedra.
O.dis.séi.a sf 1.Viagem cheia de peripécias e aventuras. 2.Série de complicações ou ocorrências variadas e inesperadas.
Engraçado: uma feminina e o outro masculino. E também ajuda a entender quando se vê que, embaixo de "monólito", no dicionário, tem "monólogo.
Obs. necessária: não há datas, então procure "monoliticismo e odisséia."
22.6.06
traições.
Teve a boa sorte de não encontrar na escada a senhoria, que morava no andar inferior. A cozinha, cuja porta estava quase sempre aberta, dava para a escada. Toda vez que o rapaz saía, era obrigado a passar por ali, o que fazia experimentar uma forte sensação de covardia, que o humilhava e o fazia franzir o sobrolho. Devia uma soma importante à senhoria e receava encontrá-la.¹
***
Nos começos de julho, por um tempo extremamente quente, saía um rapaz de um cubículo alugado, na travessa de S..., e, caminhando devagar, dirigia-se à ponte de K...
Discretamente, evitou encontrar-se com a dona da casa na escada. O túgurio em que vivia ficava precisamente debaixo do telhado de uma alta casa de cinco andares e parecia mais um armário do que um quarto. A mulher que lho alugara, com refeição completa, vivia no andar logo abaixo, e, por isso, quando o rapaz saía tinha de passar fatalmente diante da porta da cozinha, quase sempre aberta de par em par sobre o patamar. E todas as vezes que procedia assim sentia uma mórbida impressão de covardia, que o envergonhava e fazia franzir o sobrolho. Estava zangado com a dona da casa e tinha medo de encontrá-la.²
1. Tradução de Ivan Petrovitch e Irina Wisnik Ribeiro.
2. Tradução de Natália Nunes.
Dois primeiros parágrafos de Crime e Castigo. Batidos me esforçando para não olhar pro teclado.
9.6.06
Diálogo construtivo.
- Dá pra todo mundo, mulher!
- Todo mundo é pouca gente.
8.6.06
7.6.06
1.6.06
30.5.06
17.5.06
Não sobreviveria sendo assim, vivo sendo assado, e me estrepando quase masoquisticamente.
Por quê? Quem se importa com coisas importantes? Todo mundo - e quando eu digo todo mundo, eu não quero dizer todo mundo - só quer saber dos problemas que o olho pode ver - e problema é uma definição subjetiva e completamente guiada por uma moral construída e aceita.
Aí, quando eu tento ajudar, abusam da boa vontade, e derrubam os problemas em cima da minha caçambinha míuda - afinal, não tenho problemas, e se tenho, não são tão gigantescos e não merecem a mesma primazia e a mesma gravidade que estes daqui. Passei a minha vida inteira sem poder fazer o que eu queria, sem poder falar direito com a minha mãe.
- Ave maria, menino, pára! Tu tá parecendo o teu pai!
- Affe, caio, tá ficando igual teu pai!
- Isso aí é coisa do teu pai! Olha a besteira!
E eu? Será, porra, que eu, nenhuma vez na vida, posso ser parecido comigo mesmo? Será que eu vou sempre ter que viver em função do meu pai, ou do Leonel, ou de qualquer outro que chegou primeiro e arruinou tudo? Por que quando eu tento ajeitar as coisas, todo mundo reclama? Por que quando eu falo o que eu penso, ninguém aguenta e joga o meu discurso no boca de quem não presta? Eu não sou uma pessoa legal? Cadê eu?
14.5.06
I
Saiu correndo: que nada na sala era dela.
É como xadrez, olhares tornam-se peões; os reis são o seu orgulho; as rainhas são as músicas e o os mitos que guiam. E nossos atalhos:
- Atalho é falácia.
Mas não vou discutir a existência de atalhos. Aqui não. Aqui, ela fugiu.
Deixou a porta quase aberta, e atravessou o corredor verde amarronzado. Não cito a luz vermelha por medo de cegá-lo ou pra ficar mais difícil de misturar o verde com o marrom e depois com o vermelho. Pode imaginar só com o verde amarronzado, ou verde-marrom, como era de primeiro. Eu não me importo. Me importo com o fato dela ter saído correndo, feito louca.
Ela saiu, e eu pude ver a lâmpada redonda quase caindo do teto. Ela continua a ir mais longe daqui, mas ainda quero falar da luz:
Era bem solta. Piscava. Inter. Mitente. Mente. Todo dia, toda hora, toda entrega, toda saída, toda porta semicerrada. Todo mundo tinha medo de chegar de madrugada para aquela luz piscando e cegando e piscando junto com o olho da gente como se lâmpada também lacrimejasse. A esclerosada do andar de cima jurou que, uma madrugada dessas, viu uma gota avermelhada no chão do corredor.
Da mulher: ela, que agora já está bem longe do corredor e da porta entreaberta; que está entrando no carro com alarme eletrônico e constatando que não havia gasolina pra chegar em casa.
Não vou contar o motivo de tanta correria: esta estória de mentira não se faz de porquês. Os porquês estão atrasados e o pensamento não pára pra eu ficar catalogando tudo que já aconteceu. Se for fazer flashback, quando chegar na parte boa, tudo já terá acabado e os dois que estavam na sala com a porta que agora já fechei, já terão se ido fazer sexo-pra-fazer-as-pazes.
8.5.06
Comentário.
Paz. [Do latim pace] S. f. 1.Ausência de lutas, violências ou perturbações sociais; tranqüilidade pública; concórdia, harmonia. 2.Ausência de conflitos entre pessoas; bom entendimento; entendimento, harmonia. 3.Ausência de conflitos íntimos; tranqüilidade de alma; sossego. 4.Situação de um país que não está em guerra com outro. 5.Restabelecimento de relações amigáveis entre países beligerantes; cessação de hostilidades. 6.Tratado de paz. 7.Ausência de agitação ou ruído; repouso, silêncio, sossego.
Não simpatizo com a idéia de me forçarem tudo isso aí em cima goela abaixo. Não que seja algo ruim, mas não sejamos fanáticos. Deve haver melhores meios de se chegar – se é que há um caminho - lá – se é que é um lugar - do que por alguma ditadura com poderes hipertrofiados.
Não é à toa que paz é feminino. Como a verdade, ou a beleza.
5.5.06
Impressionismo.
Estávamos de pé, na varanda da casa. Final de tarde. O céu arroxeado, que eu sempre acreditei ser uma cor alegre. E minha mãe não segurava minha mão, como era costume; sem conselhos ou sermões, nem das coisas que deviam ser feitas. Não mais. Duas mulheres de pé numa varanda, frente para a praia, tentando enxergar as ondas entre as espumas brancas. O céu roxo.
Foram chamar. Era hora, mas nunca a que eu queria.
- Vamos, filha.
- Vamos sim.
Ela foi logo, mas eu tinha que ficar um pouco mais ali, observando o que o mar e o mundo me davam, que talvez eu nunca ganhasse de mais ninguém. Nem mesmo do meu noivo. E nunca ganhei realmente. Nem haverei de ganhar, sem a menor dose de pessimismo. Pensava essas coisas, porque ainda não havia, com vinte e dois anos, descoberto o péssimo do mundo. Desconhecendo-o, fui-me pelo corredor de paredes rosadas.
