A falta de exemplos e especificidade torna, sim, a poesia mais fraca, mas ainda não encontro comigo forças para deixar-te mergulhar sem afogar-te: ainda não me dei licença para falar de mim mesmo. Mea culpa, então, pela sobriedade árida destas palavras, pelas águas rasas que ofereço-te para o mergulho, pelo barulho que não sussurra o que o silêncio grita: mea culpa.
3.9.07
nenhum de nós sabe cozinhar,
e isso faz falta.
nenhum de nós tem o olhar de cúmplice,
e isso faz falta.
nenhum de nós enxerga o outro dentro do um,
e isso faz falta.
todos de nós amam alguém, mas
nenhum de nós
ama uns aos outros.
e isso faz falta.
a inevitabilidade dessa conclusão me esmaga.
está para sempre gravada nas lágrimas contidas, nos olhos vermelhos da voz baixinha da mãe que constata, em apelo e desculpa:
sobre isso eu não posso fazer nada.
e isso faz falta.
nenhum de nós tem o olhar de cúmplice,
e isso faz falta.
nenhum de nós enxerga o outro dentro do um,
e isso faz falta.
todos de nós amam alguém, mas
nenhum de nós
ama uns aos outros.
e isso faz falta.
a inevitabilidade dessa conclusão me esmaga.
está para sempre gravada nas lágrimas contidas, nos olhos vermelhos da voz baixinha da mãe que constata, em apelo e desculpa:
sobre isso eu não posso fazer nada.
21.8.07
mulheres
Eram 5 mulheres no ponto de ônibus.
A primeira tinha os cabelos todos grisalhos e segurava um saco do mercadinho. Dentro do saco, havia dois maracujás, um pacote de leite e nada mais. A bolsa pendia, no flanco esquerdo, pela alça. Esperava o ônibus fazia poucos minutos. Naquele dia, não havia ninguém que fosse lhe apanhar.
A segunda vestia blazer azul-escuro, calça idem, bem apertada, com brincos pequenos, cabelo curto e óculos escuros. Usava sapatos quase sem salto. Estava atrasada para o trabalho e por isso, enquanto segurava o celular, olhava constantemente pela rua, em busca, ai meu deus, do ônibus.
A terceira olhava o chão, sorrindo sozinha. Tinha o cabelo longo e cacheado, preso num rabo de cavalo. Usava sandálias brancas havaianas, saia até o joelho, camisa branca até depois do ombro; quase sempre, nenhuma maquiagem. Mas naquele dia não se aguentou: comprou um batom vermelho nas Lojas Americanas.
A quarta era uma menininha que pegava o ônibus pela primeira vez. Sua mãe lhe dissera que assim que visse o ônibus, fizesse o sinal ao motorista, entrasse por trás, passasse por debaixo da catraca e esperasse. Disse que era para ficar atenta, para não passar do ponto. Muito provavelmente faria a viagem de pé, mas talvez alguém lhe cedesse o lugar. Caso ficasse perdida, ligasse para ela, não falasse com estranhos. Também disse que a amava muito, disse que tomasse cuidado e disse que a amava muito, novamente.
Na quinta mulher, eu não pude prestar atenção: meu ponto era o próximo.
A primeira tinha os cabelos todos grisalhos e segurava um saco do mercadinho. Dentro do saco, havia dois maracujás, um pacote de leite e nada mais. A bolsa pendia, no flanco esquerdo, pela alça. Esperava o ônibus fazia poucos minutos. Naquele dia, não havia ninguém que fosse lhe apanhar.
A segunda vestia blazer azul-escuro, calça idem, bem apertada, com brincos pequenos, cabelo curto e óculos escuros. Usava sapatos quase sem salto. Estava atrasada para o trabalho e por isso, enquanto segurava o celular, olhava constantemente pela rua, em busca, ai meu deus, do ônibus.
A terceira olhava o chão, sorrindo sozinha. Tinha o cabelo longo e cacheado, preso num rabo de cavalo. Usava sandálias brancas havaianas, saia até o joelho, camisa branca até depois do ombro; quase sempre, nenhuma maquiagem. Mas naquele dia não se aguentou: comprou um batom vermelho nas Lojas Americanas.
A quarta era uma menininha que pegava o ônibus pela primeira vez. Sua mãe lhe dissera que assim que visse o ônibus, fizesse o sinal ao motorista, entrasse por trás, passasse por debaixo da catraca e esperasse. Disse que era para ficar atenta, para não passar do ponto. Muito provavelmente faria a viagem de pé, mas talvez alguém lhe cedesse o lugar. Caso ficasse perdida, ligasse para ela, não falasse com estranhos. Também disse que a amava muito, disse que tomasse cuidado e disse que a amava muito, novamente.
Na quinta mulher, eu não pude prestar atenção: meu ponto era o próximo.
12.8.07
lágrimas de s. lourenço
A constelação de Perseu esta associada a um fenómeno que é citado há mais de 2000 anos, uma chuva de estrelas que em 1835 Quetelet mostrou ser um fenómeno regular. De facto, uma das mais famosas e popularmente conhecidas chuvas de estrelas anuais é a das Perseidas, assim chamadas pelo seu radiante na constelação de Perseu, que acontece com um máximo de intensidade ou pico por volta de 10-12 de Agosto. O fenómeno é por isso chamado as Lágrimas de S. Lourenço, em homenagem ao santo festejado a 10 de Agosto.¹
***
Em todo o Mundo cristão, existem muitas igrejas dedicadas a este santo. Geralmente, as estátuas dele apresentam uma grelha (instrumento que lhe causou a morte) e uma Bíblia nas suas mãos.
É comemorado no dia 10 de Agosto.²
***
01. In De Rerum Natura
02. In Wikipedia
***
Em todo o Mundo cristão, existem muitas igrejas dedicadas a este santo. Geralmente, as estátuas dele apresentam uma grelha (instrumento que lhe causou a morte) e uma Bíblia nas suas mãos.
É comemorado no dia 10 de Agosto.²
***
01. In De Rerum Natura
02. In Wikipedia
2.8.07
DURAS, Marguerite. O Amante. RioGráfica, 1986.
Durante a viagem, na travessia desse oceano, tarde da noite, alguém morreu. Ela não sabe muito bem se foi nessa viagem ou em outra qualquer. Algumas pessoas jogavam cartas no bar da primeira classe, entre os jogadores estava um jovem e, num dado momento esse jovem, sem uma palavra, colocou as cartas na mesa, saiu do bar, atravessou correndo o convés e jogou-se ao mar. Quando afinal pararam o navio, que ia a toda velocidade, o corpo estava perdido.
29.7.07
26.07.07
Adultos se esquecem de como as crianças pensam na morte.
Marcadores:
blogosferiando,
pertinências,
quotes
20.7.07
No espírito de linkar (vou transformar isso em trocadilho daqui a cinco linhas) este blog com as realidades subjacentes e da minha idéia de começar a acompanhar o Jornal Nacional, visto que minha mãe estava em Guarulhos quando do acidente no aeroporto logo ao lado, coloco os links (viu?) para os blogs do José Paulo Kupfer, sobre o acidente em Congonhas, e do Pedro Doria, sobre a morte do baiano ACM.
Ambos eram do NoMínimo, que acabou porque era doce.
Ambos eram do NoMínimo, que acabou porque era doce.
Marcadores:
blogosferiando,
pertinências,
realidade
19.7.07
mais atualizações
O blogueiro encontrou-se num estado de zen-meditation e resolveu escrever-se um conto de três parágrafos. Única e exclusivamente para não perder o hábito de ouvir o tec-tec do teclado.
Marcadores:
blogosferiando,
ficção,
microcontos
letargia
Ainda é muito cedo pra admitir que estou levando minha vida como se estivesse de férias-mas-sem-coragem-de-admitir?
a convite
Todo de terninho e gravatinha no blog dos outros: parece gente. Ide!
Marcadores:
blogosferiando,
caio,
george orwell,
intertextualidade,
metalinguagem,
quotes
11.7.07
collaborative non-linear story writing
Novlet is a web application designed to support collaborative writing of non-linear stories in any language. With Novlet you will be able to read stories written by other users, create your own ones, and choose the plot you like most from several alternatives.
Supimpa, hein? Eu já me cadastrei e até escrevi uma passagem modesta. Ide!
Supimpa, hein? Eu já me cadastrei e até escrevi uma passagem modesta. Ide!
7.7.07
meu segundo assalto
Diz que estávamos eu e amigo meu a ir para nossas casas depois de uma tarde de RPG. Subindo a rua, uma criatura ultrapassa-nos pedalando sua bicicleta e, determinada hora, pára. Após mais alguns passos, aproximamo-nos dele:
"Tu vai, tu fica, viu, fela da puta, viu? Tu vai e tu fica." - eu ficava, meu amigo ia.
Eu nem tinha atinado pra situação, só quando o cabra da bicicleta disse:
"Ei, tô falando contigo, cara, ei, tô falando contigo!" - Aí eu olhei, e vi meu amigo já atravessando a rua. "Aí, mano, só quero o celular e o dinheiro, tá ligado, só o celular e o dinheiro!" Ah, um assalto. "Tu num corre não, hein, cara! Num corre não, senão eu atiro nele, hein, num corre não!"
Ele tinha os olhos arregalados e ofegantes. Resignado, já havia enfiado a mão no bolso pra entregar o celular, quando dei uma bisoiada nas vestes do meu assaltante: camisa de time, calção apertado e preto; uma das mãos apontando pra mim, a outra no guidom da bicicleta. Aparentemente, sem nenhuma saliência que escondesse uma arma. Sem a menor vontade de entregar meus haveres a outrem, indaguei, todo-me-tremendo:
"Cadê essa arma, cara?"
Ele parou um momento. E disse:
"Pode ir, cara! Foi só um aviso, viu, playboyzim! Vai lá, vai! Te pego depois, fela da puta!"
E eu fui-me, de volta para casa. De celular e com o um real na carteira.
"Tu vai, tu fica, viu, fela da puta, viu? Tu vai e tu fica." - eu ficava, meu amigo ia.
Eu nem tinha atinado pra situação, só quando o cabra da bicicleta disse:
"Ei, tô falando contigo, cara, ei, tô falando contigo!" - Aí eu olhei, e vi meu amigo já atravessando a rua. "Aí, mano, só quero o celular e o dinheiro, tá ligado, só o celular e o dinheiro!" Ah, um assalto. "Tu num corre não, hein, cara! Num corre não, senão eu atiro nele, hein, num corre não!"
Ele tinha os olhos arregalados e ofegantes. Resignado, já havia enfiado a mão no bolso pra entregar o celular, quando dei uma bisoiada nas vestes do meu assaltante: camisa de time, calção apertado e preto; uma das mãos apontando pra mim, a outra no guidom da bicicleta. Aparentemente, sem nenhuma saliência que escondesse uma arma. Sem a menor vontade de entregar meus haveres a outrem, indaguei, todo-me-tremendo:
"Cadê essa arma, cara?"
Ele parou um momento. E disse:
"Pode ir, cara! Foi só um aviso, viu, playboyzim! Vai lá, vai! Te pego depois, fela da puta!"
E eu fui-me, de volta para casa. De celular e com o um real na carteira.
2.7.07
29.6.07
***
Pode ter, de ocasião, o atrativo de um novo molho ou de uma colheita especial, mas os restos de um banquete apodrecem e os fundos das garrafas são amargos.
20.6.07
dez contos de dez palavras
O controle remoto, desleixado na cozinha, e a televisão chiando. // Um nome só afastaria o silêncio da beleza dela, cara. // Socou-o com toda a força para expelir o pedaço de frango. // Silvana soprou cinco besteiras no ar e ouviu um silvo sincero. // Fecharam a janela para impedir que seu último suspiro escapulisse. // Meu amor antigo jaz morto junto com meus óculos escuros. // Aquilo que não te matar, Bernardo, vai te fuder. // Bernardo quase que escapou do acidente que estava para fudê-lo. // Havia somente um lugar onde poderiam ter esquecido as passagens. // Para ser boa, nem toda estória precisa começar e terminar.
Marcadores:
ficção,
metalinguagem,
microcontos
13.6.07
silêncio
Pode ser o abrigo dos secos de palavras, das carnes sem sangue, dos olhos sem humor vítreo, dos fetos sem placenta, dos pré-molares sem arcada dentária, dos blogueiros que já postaram todo dia e agora já cansaram.
Pode ser também a desculpa dos preguiçosos: lirismo tem limite.
Pode ser também a desculpa dos preguiçosos: lirismo tem limite.
Marcadores:
caio,
ensaio,
ficção,
não-ficção
10.6.07
I wanna go away.
Just a little bit. For a little while.
Just a little bit. For a little while.
Marcadores:
caio,
cotidiano,
ficção,
não-ficção
4.6.07
Assinar:
Postagens (Atom)
