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1.4.08

versos

Um soneto eu quis fazer
Para a minha adorada.
Mas, aí, eu me lembrei
Que adorada eu não tinha.
Procurei, mas não achei:
Soçobrou-me esta rima.

Fernando Augusto, poeta cearense.

25.2.08

BUCK, Pearl S. A Grande Travessia.

Assim começa o livro:

É um dom peculiar do artista ser capaz de adentrar pelas outras pessoas, e isso se aplica, principalmente, aos romancistas. Eu e ele discutíramos esse dom muitas vezes, e ele sempre me perdoara quando eu me deixara absorver temporariamnte por outra pessoa que não ele. É uma estranha absorção essa, e eu não sei como descrevê-la senão comparando-a com o foco de interesse total, essencial ao cientista teórico. Tais cientistas são, por temperamento, artistas, e nós não podemos fugir ao que somos.


Desde a morte dele, eu não fora capaz de me deixar absorver por ninguém, até nesta tarde, quando, durante uma hora, o velho hábito voltara. Estava cheia de um novo ânimo, e quase esperançosa. Pelo menos, sentia-me aliviada, embora por pouco tempo, da tristeza em que havia tantas semanas estava mergulhada. Ri do fundo da minha alma e, durante uma hora, senti-me curada. Posso afiançar que cumpri meu programa para esta noite e me deitei a uma hora razoável, pela primeira vez em muitas semanas. Isso marcou o começo de uma nova etapa.

Apesar do sentimento de renovação ou alívio, que dificultaria a complicação posterior da história, parece início de romance, não? Contudo, está, na verdade, localizado na página 149 do livro.

Mas que parece, parece.

6.2.08

stranger than the whole wide world

Uma cena de Mais Estranho que a Ficção que me deixou intrigado foi a que Robert Crick está no apartamento de Ana Pascal, e esta mostra-lhe seu violão, pedindo a ele que toque. Crick diz conhecer apenas uma música, e que, por ser iniciante, seria melhor não tocá-la, recusando a oferta de Ana. Ela sai para a cozina lavar os pratos do jantar improvisado que os dois repartiram, e Crick fica sozinho na sala, com o violão; uma olhadela de soslaio e a cumplicidade da meia-luz lhe inspira coragem: retira o instrumento do suporte, cerra os olhos e começa a tocar Whole Wide World, do Wreckless Eric.


Crick começa cantando baixinho e tocando nas cordas levemente, pouco mais que o inaudível. Enquanto isso, Ana está na cozinha, terminando a lavagem dos pratos. Quando fecha a torneira, consegue ouvir a melodia envergonhada vinda da sala. Ela segue, então, para a sala, se aproximando, e senta-se ao lado de Crick, que ainda não percebe sua platéia. Agora ele canta mais alto, tocando nas cordas com firmeza, o polegar apoiado no indicador. Ana sorri. Crick sente sua presença e abre os olhos. Notando que é assistido, sua voz vai cedendo à timidez, mas antes que isso possa acontecer, Ana avança, derrubando o violão, e beija-lhe avidamente.

O que me encuca é o porquê dessa reação tão impulsiva da personagem de Maggie Gyllenhaal. Ana é passional e largou a faculdade de direito para cozinhar biscoitos. Tudo bem. Até poderia ser esta a explicação, e eu até poderia aceitar, vendo os lábios dela moverem-se em sincronia com os de Crick na parte do to find out where they hide her. Poderia, se não me houvessem dito - uma amiga - que a razão de Ana ter pulado em cima de Crick é ele estar tocando de olhos fechados. Como não se entregar à verdade desta sentença?

21.8.07

mulheres

Eram 5 mulheres no ponto de ônibus.

A primeira tinha os cabelos todos grisalhos e segurava um saco do mercadinho. Dentro do saco, havia dois maracujás, um pacote de leite e nada mais. A bolsa pendia, no flanco esquerdo, pela alça. Esperava o ônibus fazia poucos minutos. Naquele dia, não havia ninguém que fosse lhe apanhar.

A segunda vestia blazer azul-escuro, calça idem, bem apertada, com brincos pequenos, cabelo curto e óculos escuros. Usava sapatos quase sem salto. Estava atrasada para o trabalho e por isso, enquanto segurava o celular, olhava constantemente pela rua, em busca, ai meu deus, do ônibus.

A terceira olhava o chão, sorrindo sozinha. Tinha o cabelo longo e cacheado, preso num rabo de cavalo. Usava sandálias brancas havaianas, saia até o joelho, camisa branca até depois do ombro; quase sempre, nenhuma maquiagem. Mas naquele dia não se aguentou: comprou um batom vermelho nas Lojas Americanas.

A quarta era uma menininha que pegava o ônibus pela primeira vez. Sua mãe lhe dissera que assim que visse o ônibus, fizesse o sinal ao motorista, entrasse por trás, passasse por debaixo da catraca e esperasse. Disse que era para ficar atenta, para não passar do ponto. Muito provavelmente faria a viagem de pé, mas talvez alguém lhe cedesse o lugar. Caso ficasse perdida, ligasse para ela, não falasse com estranhos. Também disse que a amava muito, disse que tomasse cuidado e disse que a amava muito, novamente.

Na quinta mulher, eu não pude prestar atenção: meu ponto era o próximo.

19.5.07

- Ei, mulher, o povo do gueto mandou avisar que vai rolar a festa.
- Pois eu tô nem aí.

5.5.07

andando e olhando

Hoje eu vi um fusca rosa cheio de mulher, ó.

24.4.07

no espírito de diarizar o blog

Acabaram-se (quase) as torturas acadêmicas desta minha vida: falta apenas a professora (que tem os braços mais claros do que o rosto) de Estilística mandar a minha dupla refazer o trabalho (como da última vez).

Esta que corre é a última semana do semestre (que deveria ter terminado ano passado: o semestre, não a semana), e vai-se esvaindo modorrenta e agonizante: o envelhecido Centro de Humanidades da UECE não agüenta mais ninguém pesando naquelas paredes descoloridas, principalmente o povo de Letras, que por algum (inexplicável) motivo, é sempre o último a sair.

***

A vida vai bem, obrigado: faltei o psicólogo semana passada por dormir demais; passei em todas as cadeiras so far; arranjei briga com o bar em frente do qual eu me encontrava, semana passada (que bobada, caio!) e coisas interessantes happened (you know what I mean, babies...)

***

Comecei o Madame Bovary hoje, porque me dei conta de que tem livros que todo mundo analisa na porra do meu curso, e, das duas, uma: ou eu cometo suicídio intelectual ou renuncio à minha liberdade - pouco utilizada, verdade (que vergonha, caio!) - leiturística.

Pois bem, que seja: a book is a book.

***

Hugs and kisses,'cause the world is not beautiful.

10.4.07

caio, novamente e again outra vez

Com a licença sua,

Pensei numa palavra e me veio rimbobar. Devo ser o mesmo que trovejar, fazer barulho, muito e grande.

Agora aos meus sentimentos, criptologicamente expressos, que tem de haver o mínino de boniteza para que as palavras comecem em catarse, e terminem em outra coisa, não-minha e, de preferência, longe de mim.

Principío minhas lamúrias falando que não sei responder quando me perguntam e aí? como está? Não me há observação de mim mesmo e o pronome oblíquo faz-se presente, roubando a abertura; não me olho, em busca de algo que esteja, para ser contado; não faço isso, não sei por quê. Não acho difícil falar de mim, mas responder a dita cuja parece algo tão longíquo de onde me concentro - ou encontro - encontro implica convergência, unidade: e o que há neste corpo de tão inexorável e involuntário que não me deixa a sós comigo mesmo? Prossigo, em primeira pessoa.

Há os trabalhos de faculdade. Não desejo fazê-los, já disse. Me estressam, crio aftas, me canso, faço coisas deste tipo, coisas que não gosto de fazer: esse tipo de coisa que não gosto de fazer é para isso que tenho o psicólogo. Não me agradam trabalhos de faculdade, ou provas, ou testes que me analisam. Não gosto de olhos em cima de mim. Só dos meus e dos dos meus.

Essa brincadeira dos tags é legal demais: é o resto disto daqui, sendo outra coisa.

Estou em busca da face perfeita: na verdade, faço minha barba toda semana, moldando, shaping trezentos e cincoenta caios diferentes.

O que me lembra que o Fernando Pessoa é o David Bowie da poesia.

Textos meus-meus são, assim, curtinhos, pois a catarse é envergonhada e não sai destilada.

Obrigado e volte sempre, que nem sempre é assim.

26.3.07


She's unavoidable, I'm backed against the wall,
she gives me feelings that I never felt before!
I'm breaking promises, she's breaking every law.
She used to look good to me, but now I find her:
simply irresistible!